A angústia da polivalência

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Muito antes de abrir o Cadeirão Voltaire, na época em que os blogs ocupavam um espaço em crescimento, animador e muito in na internet em português, abri este blog de banda desenhada e ilustração a meias com a Sílvia. Na altura, não havia nenhum blog dedicado a esses temas e a ideia era ter um espaço de divulgação e alguma crítica, que servisse para acompanhar os estudos e as leituras que ia fazendo nessa área e alguma vontade de contrariar certas ideias-feitas sobre a banda desenhada. Foi assim que nasceu, em 2003, o Beco das Imagens. Os anos passaram, milhares de blogs surgiram, outras coisas ocuparam o espaço dos blogs. O trabalho que já fazia na imprensa, sobre livros, foi crescendo e ganhando outros contornos, comecei a fazê-lo também sobre livros de banda desenhada e ilustração, acabei por criar o Cadeirão Voltaire, que me ocupa a maior parte do tempo disponível para estas coisas. Com as mudanças, o Beco das Imagens foi ficando parado, acolhendo unicamente os textos que assino sobre bd e ilustração na imprensa e meia dúzia de eventos para divulgar. Por outro lado, o Cadeirão foi recebendo alguns posts em uníssono com o Beco das Imagens, porque sempre me pareceu que era preciso incluir a bd e a ilustração no espaço dos livros. Não faz sentido. E faz ainda menos sentido quando, muitas vezes, não actualizo o Beco das Imagens unicamente pelo trabalho que dá abrir uma segunda página e entrar com uma segunda password – ou seja, se o trabalho que ali fazia estivesse incorporado no Cadeirão Voltaire, como aliás devia estar, porque um blog sobre livros e leituras não tem por que não incluir banda desenhada e ilustração, as coisas seriam diferentes. Está resolvido o assunto: o Beco das Imagens fecha hoje as portas, porque não vale a pena alimentar moribundos cibernéticos, e os textos sobre bd e ilustração, bem como as notícias, a agenda, as notas soltas e os vários etc’s passam a integrar o Cadeirão Voltaire, como talvez devesse ter acontecido há muito tempo. É de livros e leituras que falo nesse espaço e se cá em casa as estantes não se aborrecem com a bd e a ilustração, no blog não será diferente. A partir de hoje, o Beco muda-se para o Cadeirão.

Angoulême 2014

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A 41ª edição do Festival de la Bande Dessinée d’Angoulême começa amanhã. Quem não estiver por terras francesas pode acompanhar as novidades no site do festival.

Ilustrarte 2014

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A edição de 2014 da Ilustrarte – Bienal de Ilustração para a Infância inaugura na próxima quinta-feira, pelas 19h00, no Museu da Electricidade, em Lisboa. Para além da mostra dos 50 autores seleccionados, onde se incluem Johanna Benz, vencedora desta edição, e Diego Bianki e Urszula Palusinska, destacados com menções honrosas,a Ilustrarte contará ainda com uma exposição individual de Chiara Carrer e com uma mostra de livros da autoria de José Jorge Letria, escritor em destaque este ano.

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Livros que vieram com o Natal

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Joe Sacco, The Great War (Jonathan Cape, 2013)

Recortes: David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo

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David Soares e Pedro Serpa
Palmas Para o Esquilo
Kingpin Books

David Soares tem construído a sua obra em banda desenhada através de livros onde podemos identificar uma história, enquanto sequência de acontecimentos contados a partir de um determinado ponto de vista, mas onde o magma narrativo é essencialmente alimento para outras reflexões. Em Palmas Para o Esquilo, onde volta a trabalhar com o desenhador Pedro Serpa (de O Pequeno Deus Cego), Soares leva um pouco mais longe aquilo que já pode, ao fim de tantos livros, entender-se como um programa, elaborando uma história onde o registo ensaístico é eixo fundamental.

Duas linhas diegéticas correm em simultâneo, uma pela voz do narrador, outra pela acção concomitante de imagem e texto em balões de fala. Se a segunda é a que permite acompanhar a história do protagonista (internado naquilo que parece ser um manicómio), através de uma analepse que recua à sua infância e à origem de certas obsessões, a primeira é a que alimenta o gesto, visceral mas metódico, de reflectir sobre a loucura. Nessa reflexão, Soares faz desfilar teorias e arcanos, visões teológicas e interpretações psicanalíticas, sempre num discurso mais voltado para ser alavanca de pensamentos do que para impor conclusões sobre o tema. A linha clara de Pedro Serpa não oferece diálogo ou desafio, cumprindo com segurança e sem fulgor a construção narrativa de David Soares, mas essa fraqueza acaba por colocar do lado do argumento e da storyboard o ónus de força deste livro, oferecendo à arquitectura narrativa e ao seu conteúdo um palco iluminado onde podem brilhar as questões, o raciocínio e as dúvidas de Soares sobre o modo como nos relacionamos com o mundo e com o inferno que, de um modo civilizado ou, pelo contrário, desregrado, guardamos por entre as meninges.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso/Actual, Dez. 2013)

Dez livros de 2013

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Isto das listas, já se sabe, é um exercício vão de memória. Escolhem-se títulos que marcaram o ano nas leituras de cada um, mas fica sempre o temor de deixar de fora coisas muito mais interessantes, coisas que não lemos ou que pensamos ter lido há mais tempo. No Expresso, a tarefa é facilitada pelo facto de só escrever sobre banda desenhada, ilustração e territórios afins. Fica aqui a minha lista do ano que passou, mais o textinho que a acompanhava na edição do dia 28 de Dezembro do Actual (onde aproveitei os caracteres para fugir aos territórios habitais):

Carla Maia de Almeida, Irmão Lobo (Planeta Tangerina)
André da Loba, Bestial (Pato Lógico)
Mandana Sadat, O Jardim de Babaï (Bruaá)
Jean-Luc Fromental & Joelle Jolivet, 365 Pinguins (Orfeu Negro)
Aaron Frisch e Roberto Innocenti, A Menina de Vermelho (Kalandraka)
Francisco Sousa Lobo, O Desenhador Defunto/ The Dying Draughtsman (Chili Com Carne)
David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books)
Marcel Ruijters, Inferno (Mmmnnnrrrg)
André Diniz, Morro da Favela (Polvo)
Mariette Tosel, WC (Mmmnnnrrrg)

A edição de banda desenhada voltou a retrair-se, mantendo-se os projectos editoriais mais pequenos como último reduto dos livros que vale a pena levar de 2013. Chili Com Carne, Polvo e Kingpin Books salvaram a safra, mas ficou algum pessimismo no ar. No caso da ilustração e dos álbuns, a crise não foi decisiva, talvez porque o sector dito infantil é aquele que melhor se aguenta em tempos de precariedade. Quebrando a regra de só referir livros de BD, ilustração e territórios afins, com a inclusão habitual da categoria infantil-juvenil que serve mais à arrumação livreira do que a qualquer leitura, junto dois livros fora deste âmbito, ambos da Letra Livre, fundamentais para compreender a edição e os modos de trabalhar com livros: O Negócio dos Livros, de André Schiffrin e & etc, Uma Editora no Subterrâneo, coordenado por Paulo da Costa Domingos. Sem eles, o ano editorial ficaria incompleto.

Prémio Nave Especial

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Já se conhecem os resultados do Prémio Nave Especial – Histórias Digitais Ilustradas, atribuído pela Pato Lógico e a Biodroid, os organizadores do ABC da Edição Digital. O júri, composto por André Letria, Tiago Ribeiro, Jorge Silva, Paulo Ferreira e Pedro Campos escolheu, para vencedor da categoria História Digital Ilustrada Infantil, o trabalho “Guarda-Sóis do Brasil”, de Teresa Cortez e Wolf Shmid. Nessa mesma categoria, o júri destacou ainda quatro outros trabalhos, ambos merecedores de menções honrosas: “Chef Pickle”, de Filipa Areias e Margarida Madeira; “A Vida às Vezes Dói”, de Rita Almeida e Rita Ferreira; “Shoe Mice” (Os Ratinhos-dos-sapatos), de Miguel Alves, Joy Hanford e Humberto Neves; “Things Keep Falling Out Of My Head”, de Rita de Sá Catarino Tavares.

Na categoria História Digital Ilustrada não houve vencedores, tendo o júri considerado que nenhuma das propostas apresentadas atingia os critérios mínimos de qualidade exigidos.