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Buraco: um furinho na parede

Quem olhasse para a edição e publicação portuguesas de banda desenhada pelo ângulo que nos costumam oferecer os comentadores televisivos mais animados pelo projecto liberal diria que o que temos é um bom exemplo do ‘mercado a funcionar’, aquela expressão tão bem intencionada quanto o melhor dos infernos – justifica a ausência de todas as responsabilidades e apregoa aos quatro ventos que o público só tem aquilo que quer ter. Deixando de lado os comentadores, digamos que o mercado vai funcionando como pode, umas vezes revelando a inércia e a rotina de há muito, outras vezes mostrando que há quem não se resigne e decida deitar mãos à obra por conta própria ou colectiva. Que é como quem diz que, apesar de não haver grandes apostas fora do mais óbvio, as pequenas apostas, em dimensão, capital e capacidade de distribuição, não só não envergonham ninguém como vão assegurando que temos um bocadinho mais do que aquilo que nos dizem que merecemos.

Vem este longo intróito a propósito do Buraco, uma publicação que teve início em 2011 e que lançou recentemente [à data de redacção deste texto; entretanto, o Buraco lançou a sua quarta edição, já disponível para venda] o seu terceiro número. Com Bruno Borges, Miguel Carneiro, Marco Mendes, Carlos Pinheiro, Nuno Sousa, Cumulonimbus e Usurpária nos comandos editoriais, o Buraco assume-se como um ‘pasquim satírico pró-lírico’, lema que pode deixar os mais incautos à espera de um Inimigo Público ao estilo underground e um pouco mais desbocado. Longe disso, o Buraco reúne colaborações de vários autores de banda desenhada e ilustração, sobretudo os mais ligados aos projectos (ditos alternativos) de edição e às exposições e feiras editoriais que têm animado o eixo portuense nos últimos anos, mas não faltam, igualmente, colaborações de autores lisboetas. Marco Mendes, Miguel Carneiro, Nuno Sousa, Carlos Pinheiro e Bruno Borges são autores regulares desde o primeiro número e a eles se juntam outros, como André Lemos, José Feitor, Júcifer ou André Ruivo. A relação entre conteúdos, edição, design e impressão deixaria os tais comentadores liberais baralhados: o equilíbrio, a coerência e o resultado final diriam que isto é produto de categoria, resultado de empreendedorismo de louvar e capaz de pôr a render as suas qualidades transformando-as em lucros. O desengano (quanto à vontade do rendimento, que não quanto à categoria) vem sob a forma de preço, 1,50 euros o exemplar, e de distribuição, assente naquele circuito que alguns continuam a chamar de alternativo com um certo despeito e que, em época de crise económica, desmantelamento das redes tradicionais de comércio (também editorial e livreiro) e sobrelotação do mercado de edição, começa a afirmar-se como o mais racional e eficiente (mas o melhor é não contar isto aos comentadores). É difícil de encontrar nos caminhos habituais entre casa e trabalho? Será, dependendo dos caminhos, mas nem isso parece ser gesto propositado para aborrecer potenciais compradores, nem impede quem quer chegar ao Buraco de o fazer de modo simples.

Mais do que uma publicação a reunir nomes do panorama da banda desenhada portuguesa contemporânea e territórios afins, o Buraco ancora-se nos gestos e sentidos pressupostos pelo seu lema. Essa ancoragem não obedece a uma cartilha ou a alguma orientação programática que empurre as colaborações para a crítica social, o comentário político ou a reflexão sobre a crise, mas, a seu modo, parte considerável dos trabalhos publicados reflectem sobre o presente que nos rodeia e sobre os modos como política, economia e sociedade condicionam e definem aquilo que podemos fazer – portanto, também os gestos artísticos. No número mais recente, Carlos Pinheiro replica os Tempos Modernos e O Grande Ditador, de Chaplin, agora protagonizados pelo Fabuloso, e a exposição mediática, a manipulação da opinião pública através da presença, da imagem e da retórica, e o populismo tornam-se temas centrais, sobretudo quando, nas últimas vinhetas, o feitiço se vira contra o feiticeiro e as massas acabam por engolir o seu orador. Que O Grande Ditador seja omitido do título da história e que não sejam precisas mais palavras além do título para acentuar a ideia de que a retórica verbal é, tantas vezes, sinónimo de manipulação e não tanto de debate só confere mais sentido à narrativa de Pinheiro, incisiva e muito crítica, mesmo quando parece apenas paródica. Outros exemplos da relação entre a edição e o seu lema atravessam as páginas do Buraco #3, à semelhança do que acontecera nos números anteriores, do retrato quotidiano de Marco Mendes, onde a indiferença familiar, a má-língua e o peso da velhice numa sociedade orientada para a ribalta de uma juventude sempre brilhante, empreendedora e de pele esticada e bronzeada, até aos comentários contundentes de Bruno Borges em “Bom dia Portugal”, onde a constatação do vazio se apresenta sob a forma palavrosa de um discurso tão despido de conteúdo como aquilo que constata, passando pela acidez conformada de Júcifer em “Amanhã”, comentando a precariedade que se instalou nas relações laborais a partir de um foco tão desencantado como as perspectivas que se abrem a quem vai tentando trabalhar, entre esquemas e uma quase-desistência (aqui em perfeita sintonia com o traço a lápis, quase esquisso, que, sendo marca da autora não deixa de ter o sentido reforçado pela narrativa que constrói). Nas páginas centrais, e acompanhado por ilustrações assinadas por Usurpária, reproduz-se uma carta aberta do projecto Es.Col.A, da Fontinha (Porto), anterior ao despejo selvático protagonizado pela PSP e pela Câmara Municipal do Porto e explicando o trabalho que aquele projecto auto-gestionado vinha desenvolvendo com e para a comunidade onde se inseria, assegurando que as pessoas tinham acesso a coisas como formação, cultura, acompanhamento social e comida, tudo baseado na entre-ajuda, na responsabilidade partilhada e na vontade de construir o que não há. Não é que o Buraco seja uma publicação panfletária, ficando a milhas de tal conceito tal como habitualmente o entendemos, mas ler o comunicado do Es.Col.A no contexto de uma publicação como esta clarifica aquilo que os comentadores liberais têm dificuldade em perceber, e que tanto se revela em publicações independentes, em exposições de bd e ilustração organizadas pelos seus autores ou em escolas devolutas ocupadas por gente disposta a trabalhar: nem sempre o empreendedorismo que tanto apregoam é sinónimo de vestir um fato aprumado e pedir um crédito à banca para montar um negócio próprio, criando emprego etc, etc, etc. Às vezes, o empreendedorismo é isto, juntar as pessoas, angariar alguns euros e pôr as mãos na massa para fazer nascer uma publicação de banda desenhada e ilustração onde ninguém arriscaria investir (os empreendedores apregoados pelos comentadores liberais não costumam ser muito amigos de investimentos de risco, mesmo quando o risco financeiro é muito menor do que o emocional, como acontece quando falamos de publicações). E já chega de bater nos comentadores. O Buraco pode ser, no mar de livros, fanzines e outras publicações de todas as espécies que inundam o mercado, um modesto furinho na parede, mas é preciso não esquecer que a caliça e o reboco tendem a esboroar-se com o tempo e a persistência.

SFC

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Leituras do dia

Na edição do Babelia de sábado passado, Álvaro Pons assina um artigo sobre a chegada do movimento 15 de Março à banda desenhada, referindo várias publicações recentes que assumiram o tema como central. Para ler aqui.

Leituras do dia: entrevista com Alan Moore

Alan Moore dá uma entrevista ao Guardian a propósito de League of Extraordinary Gentlemen: Century 1969 (Kevin O’Neill, Alan Moore). Para ler aqui.

Leituras do dia: Chester Brown

 

No New York Times, Dwight Garner escreve sobre Paying For It, o mais recente livro de Chester Brown (edição Drawn & Quarterly). Para ler aqui.

Leituras

Milt Gross, Ele Foi Mau Para Ela, Libri Impressi

AAVV, Futuro Primitivo, Chili Com Carne

Aleksandar Zograf, Mundos em Segunda Mão, Mmmnnnrrrg

Almanaque Silva

Qual Borda d’Água da ilustração, o Almanaque Silva instalou-se na blogosfera. Jorge Silva faz desfilar referências, devidamente contextualizadas e cartografadas, da ilustração portuguesa. Pela nossa parte, já suspiramos pelos próximos posts.

Leituras do Dia

No Babelia de hoje, Nuria Barros escreve sobre Paco Roca, Álvaro Pons sobre David Mazzucchelli e Pablo Léon sobre a banda desenhada nos suportes de leitura digital.