Monthly Archives: Fevereiro 2010

Visita do dia

O site da ilustradora Hey Su.

(SM)

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Visita do dia

O site do ilustrador Fred Blunt.

(SM)

Waldo Hunt

No Guardian, Jan Pienkowski assina o obituário de Waldo Hunt, um dos mais conhecidos cultores dos pop-ups, falecido o ano passado. Para ler aqui.

Ilustrarte

A IV edição da Ilustrarte – Bienal Internacional de Ilustração Para a Infância, inaugura hoje, no Museu da Electricidade (Lisboa), às 21h30. Paralelamente, inaugura também uma retrospectiva individual do ilustrador alemão Wolf Elbruch. Ambas as exposições ficam patentes ao público até ao próximo dia 4 de Abril. Mais informações e programa completo aqui.

(SM)

Leituras:Yoshihiro Tatsumi

No El Mundo, um artigo sobre Una Vida Errante, de Yoshihiro Tatsumi, recentemente editado em Espanha. Para ler aqui.

(SFC)

Recortes: Krazy+Ignatz+Pupp

HERRIMAN, REI DOS FUNNIES

Entre os finais do século XIX e a primeira metade do XX, o ritual dominical de um leitor americano incluía, com o mesmo grau de importância, a leitura das notícias e a dos funnies, nome dado à secção de banda desenhada, cartoon e ilustração que qualquer jornal de prestígio começava a incluir. George Herriman foi uma das presenças históricas na imprensa dessa época, publicando, entre 1913 e 1944, centenas de histórias de Krazy Kat, um gato com potencial para ser a personagem mais ambígua, e uma das mais geniais, da história da banda desenhada.

O enredo base de quase todas as narrativas de Krazy Kat assenta no triângulo amoroso que une Krazy (o gato cujo género nunca se tornou claro), o rato Ignatz, que odeia Krazy tanto quanto este (ou esta) o venera, e Pupp, o cão polícia que é apaixonado por Krazy e que ocupa o tempo encerrando Ignatz na cadeia em consequência das malfeitorias que este faz contra o gato, nomeadamente o constante arremesso de tijolos em direcção à sua cabeça felina. As infindáveis variações que Herriman alcança a partir desta espécie de cliché atestam o seu virtuosismo narrativo, mas a generalidade da obra não se explica tão somente pelas combinações e variações sobre um mesmo tema, ou pela capacidade de explorar esse tema aparentemente linear introduzindo-lhe uma panóplia de temas da actualidade (da proibição do consumo de alcool às questões políticas que dominavam a América da época) sob a forma de metáforas inocentemente harmoniosas com o enredo habitual. É preciso acrescentar que a herança de Herriman no que diz respeito à exploração das potencialidades da linguagem da banda desenhada é incomensurável, pelo modo como transformou o cenário, a terra de Coconino, num elemento essencial da narrativa (e em fulgurante mutação ao longo de uma mesma história), pela reflexão que desenvolve sobre os limites que o médium da banda desenhada parecia querer manter estanques e sobretudo pela forma, harmoniosa, intrincada e poucas vezes concretizada com tamanha excelência de pôr em funcionamento uma máquina narrativa onde texto e imagem não são dois níveis que avançam em paralelo, mas antes um único modo expressivo, indivisível e absoluto.

Com a edição da Livros Horizonte, que não chegou a concluir o número de volumes previstos, há muito desaparecida do mercado, Krazy Kat volta às livrarias pela mão do editor Manuel Caldas, o principal responsável por várias edições de banda desenhada cujo trabalho de tradução, recuperação e restauro da cor original têm tornado acessíveis séries que muitos leitores nunca conheceram senão de ouvir falar (é o caso do Príncipe Valente, de Harold Foster, cujos volumes têm saído calma e correctamente, revelando uma dedicação editorial da ordem do filológico). A antologia editada com o selo Libri Impresi, Krazy+Ignatz+Pupp, reúne quarenta e duas pranchas publicadas entre 1937 e 1944 nas páginas dos diários de William Randolph Hearts, um dos magnatas da imprensa norte-americana.

O problema maior de qualquer edição de Krazy Kat fora da língua inglesa é a sua tradução, e o trabalho de João Ramalho Santos neste volume, que faz o melhor possível dentro de um quadro onde a impossibilidade é uma forte sombra, confirma as dificuldades. Herriman utiliza a linguagem verbal de um modo magistral, erguendo-a harmoniosamente a par com o desenho e a progressão gráfico-narrativa. Longe dos mecanismos mais frequentes do humor dos funnies (cai um caixote, obviamente sobre uma cabeça incauta, e esse é o momento do riso), o autor recorre a um complexo edifício de figuras de estilo e regras da lógica para desenvolver o humor, aproximando-se mais da literatura que integrava as suas referências preferenciais, do que da linearidade habitual nos gags cómicos. Com a tradução para o português, a ambiguidade quanto ao género desaparece, facto que não é inédito nas traduções de Krazy Kat em várias línguas, mas a perda maior tem a ver com a intransponibilidade dos jogos fonéticos, dos recursos dialectais e dos trocadilhos linguísticos. É ingrato para o trabalho cuidado (e imprescindível) do tradutor, mas a tradução, esta ou qualquer outra, é uma espécie de amputação da riqueza suprema de Krazy Kat, cuja presença se aceita unicamente pela felicidade de ver regressar uma obra-prima aos escaparates das livrarias portuguesas.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº87, Jan.2010)

Recortes: Antón Fortes & Joanna Concejo, Fumo, OQO

Não é demais insistir na falaciosidade que se esconde no conceito de ‘livros para crianças’, aglutinando tudo o que tenha texto e imagem como se a curta sapiência dos mais novos não tolerasse mais do que ‘bonecos’ e como se a a cultura dos mais velhos não se dignasse a ler imagens. A mais recente edição da OQO corre o risco de ser ignorada graças a esse preconceito duplo: por um lado, não é um livro imediatamente recomendável para todas as crianças, por outro, a sua construção depende tanto do texto como das imagens, o que afastará boa parte dos adultos. E no entanto, trata-se de um livro merecedor de todos os destaques e de uma leitura sem as baias da ‘idade recomendada’.

Levada para um campo de concentração, a criança que narra Fumo estrutura as suas impressões a partir do universo que lhe é familiar, onde não se vislumbra o edifício do horror com toda a crueza com que se afirmou nos campos de morte nazis. Não se trata, no entanto, de uma narrativa que filtra o caos a partir do engano, convertendo-o numa encenação (ao jeito do filme de Benigni que levou tantos espectadores às lágrimas); o narrador de Fumo não é poupado ao que vê e vive, mas a crueza do que o rodeia é interpretada a partir da infância que ainda não lhe foi totalmente roubada, como se percebe, por exemplo, na imagem em que a mãe, de cabelo rapado, sorri sobre um fundo florido depois de ter avistado o seu marido. A narrativa de Fumo equilibra a extrema fragilidade de um olhar infantil, dividido entre a inocência enternecedora e a cruel percepção da morte, com a brutalidade dos acontecimentos que descreve, e que culminarão à entrada das câmaras de gaz.

A concisão do texto e a sua relação intrínseca com as imagens, belíssimas composições onde predominam os tons sépia e um uso parcimonioso da cor, definem uma narrativa visual/verbal que regista, na primeira pessoa, uma experiência dolorosa, transportando, por sinédoque, a experiência dos milhões de pessoas que passaram pelos mesmos campos, pelas mesmas atrocidades. Nenhuma viveu o mesmo, e todas o viveram, mesmo que só o narrador de Fumo tenha visto dragões onde os outros viram corpos enforcados.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso, suplemento Actual, 23 Jan. 10)