Monthly Archives: Julho 2010

Recortes: Heróis de Lisboa


(Filipe Melo e Juan Cavia, As Incríveis Aventuras de Dog Mendoza e Pizza Boy, Tinta da China)

Com um panorama editorial tão pobre como é o da banda desenhada em Portugal, há livros que podiam surgir com estrondo e que correm o risco de passar despercebidos. A injustiça pode bem acometer As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy, mas não será por falta de aviso. Filipe Melo, conhecido pela realização do primeiro filme de zombies feito em Portugal (I’ll See You in My Dreams) e pela sua prestação no jazz, estruturou um argumento digno da melhor tradição pulp fiction, prestando homenagem a momentos icónicos do cinema mais comercial das últimas décadas e a toda uma parafernália de referências da cultura pop, entre bandas desenhadas de prestígio duvidoso e clichés narrativos importados da melhor tradição hollywoodesca. E a parceria com Juan Cavia, o argentino que assina o desenho, concretizou de modo certeiro a criação dos ambientes escuros que definem a narrativa e garantiu uma harmonia sem a qual o ritmo, a definição dos personagens e a ironia dificilmente teriam resultado.

A figura do detective privado do oculto, Dog Mendonça, não esconde as influências de Hellboy, de Mike Mignola, e até de Constantine Hellblazer, personagens reconhecidas no universo dos comics norte-americanos, aqui agilmente misturadas com os ambientes (e as improbabilidades) de filmes como Regresso ao Futuro ou As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim. A sua missão de ajudar Pizzaboy a recuperar a moto que lhe foi roubada, aceite, como é de bom tom nestas coisas, um pouco contra vontade, rapidamente se transforma numa demanda heróica para salvar as crianças misteriosamente desaparecidas em Lisboa. Daí para a conspiração nazi que se esconde nos esgotos da capital, com uma galeria de monstruosidades, nem sempre maléficas, a incrementarem o caos de referências, é um salto que Melo e Cavia sabem dar à medida de uma paródia que se leva a sério, respeitando os contornos dos muitos géneros que convoca sem nunca deixar cair o movimento de suspensão em direcção ao desenlace.

Com um espectro de géneros tão amplo como o de qualquer outra linguagem, a banda desenhada tem produzido monumentos estético-narrativos com a mesma elegância com que produz lixo de entretenimento, sem que, muitas vezes, o ‘radar crítico’ de que falou Art Spiegelman os distinga. Com Dog Mendonça e Pizza Boy o patamar é outro, longe da elevação estética de algumas obras já canónicas, mas seguramente num espaço onde a inteligência se faz pastiche e a auto-ironia ganha fôlegos de lei universal.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº90, Abr. 2010)

Visita do dia

O blog da ilustradora Aitana

(SM)

Leituras do dia

No Babelia de hoje, Antonio Muñoz Molina escreve sobre Harvey Pekar. Para ler aqui.

Apontamentos: Syncopated: An Anthology of Nonfiction Picto-Essays

Brendan Burford (ed)
Syncopated: An Anthology of Nonfiction Picto-Essays
Villard
154 pgs.

A utilização da banda desenhada em reportagens, memórias ou documentários tem produzido obras memoráveis, mesmo que persistentemente ignoradas pela edição portuguesa, com uma ou duas honrosas excepções. Palestina, de Joe Sacco (uma das excepções, editado pela parceria Mais BD/Devir), Regards From Serbia, de Aleksandar Zograf, Our Cancer Year, de Harvey Pekar ou Pyongyang, de Guy Delisle são exemplos de como a banda desenhada, pela combinação sinestésica de texto e imagem, pode ser um medium privilegiado para a narrativa documental.

Interessado pela não-ficção na banda desenhada, Brendan Burford assina em Syncopated a recolha antológica de dezasseis trabalhos que oscilam entre a reportagem, a memória, o pequeno ensaio histórico e até o comentário político da actualidade (como “What We So Quitly Saw”, de Greg Cook, sobre Guantánamo). Não se trata da visão didáctico-pedagógica que subjaz à parafernália de ‘histórias locais’ e ‘adaptações’ que consomem o nosso mercado, partindo sempre do princípio que o recurso aos ‘quadradinhos’ simplifica uma mensagem mais complexa, mas sim de uma perspectiva produtiva que explora as potencialidades permitidas pela conjugação entre texto e imagem e a sua sequencialização.

Os temas e as abordagens presentes em Syncopated são variados, da partilha de uma colecção de bilhetes-postais que permite traçar a história deste objecto ao longo dos últimos dois séculos (“Penny Sentiments”, de Rina Piccolo) até ao perfil de Boris Rose, um apaixonado pelo jazz que construiu uma colecção de gravações únicas (“Boris Rose: Prisoner of Jazz”, de Brendan B. E Jim Campbell), passando pelo registo de instantâneos do metro de Nova Iorque (“Subway Buskers”, de Victor Marchand Kerlow) ou pela decadência do parque de diversões de Coney Island (“A Coney Island Rumination”, de Paul Hoppe). Entre palavras e imagens, a observação e o testemunho constroem um livro memorável.

(SFC)

Harvey Pekar (1939-2010)

Harvey Pekar morreu esta noite, aos 70 anos (a notícia vem no Cleveland Metro e já chegou ao Público).

A Banda Desenhada e o Álbum Ilustrado

Inaugurou no último fim de semana e pode ver-se até ao dia 28 de Julho, no Goethe Institut, em Lisboa. A produção é da Bedeteca de Lisboa e a entrada é livre.

Strapazin: das Comic Magazin, revista suíça, é indubitavelmente uma das melhores revistas de e sobre banda desenhada que se publicam na Europa. Cada número da revista desenvolve-se a partir de um conceito, de um desafio que, no número 87, publicado em Junho de 2007, foi lançado a ATAK, prestigiado autor alemão, e ao produtor cultural Matthias Schneider. Juntos convidaram dez ilustradores de álbuns ilustrados a realizarem a sua primeira banda desenhada, dando a cada um duas palavras-chave como ponto de partida.

Mais do que um mero exercício criativo, esta é uma forma de constatar se existem diferenças entre a ilustração de uma bd e de um texto. ATAK e Schneider procuram assim explorar a singularidade da imagem, questionar a intersecção de linguagens estéticas e a influência da bd no universo dos álbuns ilustrados, reflectir sobre os novos conceitos narrativos e sobre o impacto que a bd tem sobre este universo. A cada ilustrador foi pedido que descrevesse como encara este desafio, qual a sua concepção de álbum ilustrado e quais os criadores que os influenciaram.

A exposição, posterior à edição da revista e segunda vertente deste projecto, apresenta os originais dos participantes, alguns dos nomes mais significativos e prestigiados da ilustração para a infância: Natalie Leté (França), Worf Erlbruch (Alemanha – autor que este ano têm uma exposição retrospectiva na Ilustrarte ), Nadia Budde (Alemanha), Klaus Ensikat (Alemanha), Volker Pfüller (Alemanha), Rotraut Susanne Berner (Alemanha), Sophie Dutertre (França), Goele Dewanckel (Bélgica), Jockum Nordström (Suécia) e Martin Jarrie (França). São igualmente apresentados os textos de cada ilustrador, o que permite ao visitante não só uma leitura contextualizada das imagens mas também desvendar alguns segredos destes criadores.

Atak : fcatak.de
Instituto Goethe : goethe.de/ins/pt/lis/deindex.htm
Strapazin : strapazin.ch