Tag Archives: Ricardo Cabral

Recortes: Ricardo Cabral, NewBorn – 10 Dias no Kosovo, Asa

Depois de Israel Sketchbook, Ricardo Cabral retoma a viagem como ponto de partida para um livro, desta vez rumando à cidade de Pristina, no Kosovo, com o pretexto de recolher dados para uma banda desenhada em construção. O pretexto acaba por desvanecer-se, mas o registo da passagem por Pristina organiza-se sob a forma de um outro livro, NewBorn – 10 Dias no Kosovo. Onde Israel Sketchbook se socorria da viagem como processo de construção narrativa, NewBorn utiliza o registo gráfico como modo de observação. Apesar de alguns imprevistos devidamente anotados, o narrador de NewBorn é sobretudo um sujeito observador, disposto a registar o que vê para melhor esboçar o processo de compreender um espaço que tem sido lugar de mutações várias.

Marcado pelos traços sobrepostos à medida da urgência (o tempo de desenhar raramente se coaduna com o projecto de apreender um determinado momento), e pelas indagações em torno das relações dos habitantes de Pristina com a herança do passado, o percurso narrativo regista sobretudo a surpresa de descobrir uma cidade indistinta no que à rotina diz respeito. Apesar da guerra recente, não há vestígios de perturbação nos quotidianos, facto que surpreende o narrador. Querendo ser um registo de viagem, NewBorn acaba por construir-se como um desengano: da ingenuidade associada à ideia de que a guerra faz parar o mundo (como se o mundo não estivesse permanentemente em guerra, independentemente dos espaços que a acolhem) até à constatação, logo nas primeiras pranchas, de que os que não morrem persistem, mesmo durante a guerra (sobretudo durante a guerra). É nessa descoberta que NewBorn encontra a harmonia do seu registo.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Actual, Expresso, 4 Dez. 2010)

Anúncios

Dois livros

Amanhã, no Amadora BD, lançam-se dois livros: às 15h30, NewBorn – 10 Dias no Kosovo, de Ricardo Cabral (Asa), e às 16h00, O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, de Paulo Monteiro (Polvo).

Posta Restante

Amanhã, pelas 16h, a Casa-Museu Manuel Teixeira Gomes (em Portimão) inaugura a exposição Posta Restante – As viagens do Escritor Presidente. À mesma hora, serão lançados dois álbuns de banda desenhada sobre Portimão: A Noiva Que o Rio Disputa no Mar, de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha, e Portimão : Como Se Faz uma Cidade, com participações de Alex Gozblau, Daniel Lima, Filipe Abranches, Jorge Mateus, Pedro Brito, Ricardo Cabral, Susa Monteiro e Zé Manel.

Recortes: Ricardo Cabral, Israel Sketchbook, Ed. Asa

VIAGEM EM CONSTRUÇÃO

Depois de Everest, a banda desenhada que narrava a expedição do alpinista João Garcia ao topo dos Himalaias, Ricardo Cabral assina agora um livro de viagens onde as imagens, na sua aparência de simples registos de passagem, se revelam matéria primordial para uma narrativa.

O título aponta uma direcção que não deve ser assumida na sua acepção mais imediata. Um sketchbook costuma reunir desenhos não necessariamente terminados, esboços que resultam da observação de algo (por vezes associado a uma viagem) e que tendem a permanecer como apontamentos, sem que a publicação (também no sentido de ‘tornar público’) seja o seu objectivo primeiro. Mas se Israel Sketchbook começou por ser uma série de desenhos feitos in loco por Ricardo Cabral, a sua passagem a livro fez-se acompanhar da construção de uma história, transformando o gesto inicial de registar imagens e ambientes numa narrativa, perfeitamente enquadrável no território da banda desenhada, não apenas porque os seus desenhos compõem uma sequência, mas igualmente porque essa sequência se estrutura a partir da relação intrínseca entre texto e imagem.

Partindo de Telavive, o narrador vai registando os cenários onde passa algum tempo, as pessoas que com ele se cruzam e os episódios em que se vê envolvido: praças, sinagogas, casas de amigos ou restaurantes de fast-food, mas também cenários mais intimidatórios, como a Faixa de Gaza ou os postos de controlo. Sem roteiro prévio, visita outras cidades, sozinho ou acompanhado por M., a rapariga que entretanto conhece em Safed, e as impressões da viagem vão construindo um percurso à medida que este se desenvolve, uma simultaneidade que faz da própria narrativa um itinerário, com as etapas definidas por separadores que começam como um esboço e terminam coloridos e com todos os pormenores assinalados, inclusive os cartográficos, que se vão revelando à medida que a viagem avança.

Os desenhos, traçados a preto e branco durante a viagem e posteriormente coloridos, por vezes com recurso a fotografias (informação dada na introdução), ocupam sempre duas páginas, configurando pranchas sumptuosas, onde a riqueza do pormenor, a definição das tonalidades dentro de um espectro reduzido de cores e os jogos de luz confirmam aquilo que Everest já tinha esboçado, mas agora de um modo mais livre relativamente ao processo de construção narrativa. Longe de condicionalismos de forma ou de estruturação, Israel Sketchbook contém todas as qualidades que fazem de uma viagem um livro memorável.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, nº85, Nov. 09)

Nota: na Ler deste mês escrevo sobre Mucha, de David Soares, Osvaldo Medina e Mário Freitas (Kingpin Books)

FIBDA 2009: Ricardo Cabral

Ontem, no auditório do FIBDA, apresentou-se o novo livro de Ricardo Cabral, Israel Sketchbook que é, falando rapidamente e sem tempo para desenvolvimentos, um livro extraordinário (os desenvolvimentos seguem na edição de Novembro da Ler, onde assino um texto sobre o livro).

cabralapres

Maria José Pereira, Ricardo Cabral e João Vasco Almeida na apresentação de Israel Sketchbook (Edições Asa).

Perto do auditório, no piso -1 do Fórum Luís de Camões, podem ver-se alguns dos esboços que Ricardo Cabral elaborou durante a sua estada em Israel e que foram, já de regresso a Portugal, o ponto de partida para a estruturação da narrativa que culminou no livro que agora chegou às livrarias.

cabral1

cabral2

(SFC)