Monthly Archives: Fevereiro 2012

Recortes: Um Lugar nos Olhos

Luís Manuel Gaspar, Um Lugar nos Olhos, Ao Norte

 

Os gestos minuciosos e as pequenas grandes preciosidades raramente encontram espaço no turbilhão agitado do mercado editorial. Acabam por encontrá-lo em gestos e preciosidades semelhantes, não deixando, assim, de chegar às páginas e ao formato livro. Um Lugar nos Olhos foi editado em jeito de catálogo, acompanhando a exposição que levou os trabalhos de Luís Manuel Gaspar a Viana do Castelo, pela mão da Associação Ao Norte. O livrinho, de capa mole e branca, reúne dezassete bandas desenhadas que o autor criou a partir de obras literárias portuguesas, de Vitorino Nemésio a Fernando Pessoa, passando por Raúl Brandão, Almada Negreiros ou Sophia de Mello Breyner. Não há trabalhos inéditos, mas só os leitores mais antigos da revista Ler ou da Viva Voz, entre outras publicações, guardariam memória impressa destas páginas.

O universo gráfico de Luís Manuel Gaspar alimenta-se da palavra literária, atribuindo-lhe sentidos que ecoam em pormenores meticulosos, figuras oníricas e imagens que, mesmo quando são literais, conferem ao verbo a certeza harmoniosa do seu justo significado. O traço fino, a tinta da china, e as cores densas e discretas, produzem vinhetas onde o detalhe é assombroso. Mas a minúcia de Gaspar não é artifício gratuito, nem realismo radical, e sim autêntica gramática visual, erguendo uma poética das formas e das cores que configura aquilo a que se poderia chamar, com justiça, uma obra ímpar. Quando posta em funcionamento, o que esta gramática produz não são poemas ilustrados com recurso à linguagem da banda desenhada, mas sim novas composições poéticas, desta vez não assentes unicamente no verbo, mas geneticamente compostas pelo texto original e a sua recriação, cruzando texto e imagem num único fôlego de ritmos e sentidos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no ActualExpresso, Dez. 2011)

Amanhã, no CNBDI

Amanhã, pelas 21h00, o Centro Nacional de BD e Imagem (Amadora) recebe mais uma edição do ‘Às Quintas falamos de BD’:

No dia 23 de Fevereiro, pelas 21h00, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem terá lugar mais uma edição de Às Quintas Falamos de BD, com o encontro Por Esta Peregrinação Acima que conta com a participação do músico e compositor Fausto Bordalo Dias, do autor de BD José Ruy, e da jornalista Ana Margarida Carvalho.
 
Na ocasião será exibido um poema sinfónico, uma adaptação em vídeo das pranchas do álbum Fernão Mendes Pinto e a sua Peregrinação, de José Ruy, com música de Por Este Rio Acima, de Fausto Bordalo Dias.

Workshop de ilustração com tratamento digital

As inscrições estão abertas. Mais informações aqui, no blog de Richard Câmara (que orientará o workshop) e aqui.

Recortes: O Pequeno Deus Cego

David Soares e Pedro Serpa
O Pequeno Deus Cego
Kingpin Books

Quem acompanha o trabalho de David Soares (1976), não só os argumentos para banda desenhada mas igualmente os romances, sabe que o campo da História é terreno fértil para as suas narrativas. Em O Pequeno Deus Cego, é a China antiga que fornece as coordenadas, um local bem definido para um tempo que se supõe feudal, mas onde a ruralidade é a marca mais visível e a ligação entre Homem e terra o traço mais relevante. Em parceria com Pedro Serpa (1975), cujo desenho equilibra a linha clara com a profundidade de campo e a pormenorização que o argumento exige, David Soares cria uma banda desenhada marcada por referências simbólicas e com potencial para vários níveis de leitura.

A história tenebrosa de Sem-Olhos, o menino cego que a mãe mandou castrar à nascença para ser educado como uma menina, não destoa do cenário escolhido e dos elementos que ajudam a defini-lo. A referência à prática de mutilar os pés para que não cresçam e se adaptem aos delicados sapatos femininos exemplifica bem o quanto este argumento tira partido do contexto histórico e social da China antiga para construir o seu enredo, criando imagens tão fortes quanto harmoniosas em relação a esse contexto. Mas a história de Sem-Olhos é, antes de mais, uma alegoria em torno da ignorância e da urgência do seu antídoto, e como tal podia situar-se em qualquer tempo e contexto.

Acompanhando Sem-Olhos na busca pela verdade do seu passado, O Pequeno Deus Cego questiona o lugar e o destino de um ser tão insignificante naquilo a que chamamos Universo e coloca a personagem no papel clássico de quem passa das trevas para a luz – não falta o enfrentamento com um monstro das profundezas nem o auxílio de um velho sábio e de um animal simbólico. Que o faça entre paisagens orientais e mitos universais só reforça a habilidade de Soares para explorar a natureza humana a partir de tempos e lugares concretos, mas projectando as suas incertezas e os seus gestos mais memoráveis ao longo de um arco cronológico sem princípio nem fim.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº109, Jan.2012)