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Mariana Lopes Viegas, a Tia Nita (1918-2013)

formiga

Morreu Mariana Lopes Viegas, conhecida no meio editorial e da banda desenhada como Tia Nita. Irmã de António Cardoso Lopes Jr., o Tiotónio, Mariana Viegas conviveu de perto com o universo dos jornais e revistas de banda desenhada, nomeadamente com O Mosquito, tendo sido a responsável pelo suplemento A Formiga, destinado às leitoras, que esta publicação incluiu durante cento e oitenta edições.

Em jeito de homenagem, republico o texto que escrevi sobre A Formiga, para a exposição dedicada a O Mosquito que o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem realizou em Outubro de 2006, altura em que tive oportunidade de trocar algumas ideias com a própria Tia Nita, sempre de uma simpatia e uma disponibilidade totais.

O INSECTO MAIS NOVO DA FAMÍLIA MOSQUITO

Sara Figueiredo Costa

Sete décadas passadas sobre o início da publicação de um dos mais importantes periódicos da banda desenhada portuguesa, importa recordar as suas múltiplas contribuições para a edição e divulgação de banda desenhada e igualmente para o desenvolvimento do jornalismo infanto-juvenil, se assim lhe podemos chamar, português. Sede de aprendizagens jornalísticas várias, O Mosquito foi também o ponto de partida para uma outra publicação, sua suplementar, mas com características que a tornaram única no panorama editorial da época. Dirigida por Mariana Lopes Viegas, A Formiga começou a ser publicada no número 443 d’O Mosquito, em 22 de Setembro de 1943 e saiu, com periodicidades diferentes, até à 180ª edição, no número 888 d’O Mosquito, em 27 de Dezembro de 1947. Mas recuemos um pouco, antes de resumirmos de modo tão seco uma história com tanto conteúdo.

Jornal mais do agrado do público masculino que do feminino, na altura habituado ou, melhor dizendo, apenas autorizado, a histórias de encantar e conselhos sobre lavoures, o Mosquito decide albergar um “semanário para as meninas”, como se lia na capa de cada edição. A convite de António Cardoso Lopes, mais conhecido do público por Tiotónio, Mariana Simões Lopes, sua irmã, assumirá a identidade de Tia Nita e ficará responsável pela direcção do suplemento. Numa época em que o jornalismo não era espaço considerado adequado para as supostamente delicadas ‘almas femininas’, e em que as responsabilidades de direcção eram uma verdadeira miragem para qualquer mulher, esta é a primeira característica d’A Formiga que importa assinalar.

A segunda característica que quero aqui destacar é o modo como Tia Nita se entrega à organização editorial do jornal, definindo secções e colaborações com um savoir faire característico de quem sempre teve o jornalismo como profissão e quotidiano. E apesar de o percurso académico de Mariana Cardoso Lopes não ter, até à data da primeira edição d’A Formiga, passado pelo jornalismo, a verdade é que a família Cardoso Lopes sempre nutriu um enorme fascínio pelo ofício. A criação de jornais, efémeros e amadores, mas muito completos, fazia parte dos passatempos preferidos dos irmãos Lopes durante a infância e a juventude, como nos conta a própria Tia Nita numa ‘Autobiografia’ entregue à Tertúlia BD em Maio de 1993: “Quando nas férias nos juntávamos todos, mais disponíveis, tínhamos um jornal feito à mão – ‘A Bóia’ – onde cada um colaborava segundo os seus gostos, habilidades e inspiração”1.

Logo no primeiro número d’A Formiga, Tia Nita dirige-se às leitoras de modo directo, desafiando-as a escreverem-lhe cartas e partilharem com ela sonhos e preocupações: “Escrevam-me a ‘conversar comigo’, como se o fizessem convosco mesmas”. Estava criada a personagem e os resultados foram visíveis imediatamente a seguir, na segunda edição do suplemento, com a Tia Nita a responder a várias cartas das suas ‘sobrinhas’, numa rubrica que se tornaria parte imprescindível d’A Formiga e que ajudaria a definir uma das personagens mais características do meio da banda desenhada portuguesa no período áureo dos jornais infanto-juvenis.

Para além da secção das cartas, A Formiga publicava banda desenhada, contos, jogos e passatempos, onde se incluíam os famosos moldes de roupa para boneca, e algumas rubricas que se tornaram famosas na época, como o “Diário de Bélita”, que pretendia reflectir o quotidiano de uma menina e que constitui, lido atentamente nos dias de hoje, um excelente elemento de reflexão sobre o modo como se ficciona e padroniza exageradamente a mente e as capacidades das crianças a quem se dirigem os textos de literatura infanto-juvenil.

Pelas páginas de banda desenhada d’A Formiga passaram autores como J. Cortez, o ‘clã’ Blasco, Artur Correia ou Eduardo Teixeira Coelho. Três histórias se destacaram neste espaço que, não rivalizando com O Mosquito, publicou alguns momentos memoráveis da história da banda desenhada portuguesa: “A Moura e o Dragão” e “A Moura e a Fonte” (duas das três histórias da chamada ‘Trilogia das Mouras’), com texto de Artur Correia e desenho de Eduardo Teixeira Coelho e a “Anita Pequenita”, do espanhol Jesus Blasco, colaborador frequente d’O Mosquito.

O tom que atravessa as páginas d’ A Formiga remete, sem destoar, para o imaginário esperado e permitido às meninas da época: algumas transgressões à realidade, com a fantasia possível a convocar duendes faladores que vêm de visita, animais com capacidades inverosímeis, personagens como a Anita Pequenita, aventureira nascida num sino de prata e meninas sempre prontas a dedicarem-se aos passatempos que lhes estão destinados. No entanto, há momentos em que essas transgressões se adensam, criando imaginários que talvez já não fossem tanto do agrado dos zelotes da moral e dos costumes das meninas da década de quarenta do século passado, mas que certamente terão feito as delícias dessas mesmas meninas, com pouco ou nenhum acesso a outros discursos ficcionais que não os que as mães e restante família decretavam aceitáveis. As aventuras da “Anita Pequenita” são o exemplo mais claro disso, com momentos a raiar o terror gore (para os padrões da altura, entenda-se) e com algumas situações em que a fantasia infantil bem comportada cede lugar à quase alucinação (a este propósito veja-se o texto que António Dias de DEUS dedicou à “Anita Pequenita” no volume O Mosquito – 60º Aniversário, 1996).

Ofuscada pelo peso e importância inegáveis d’O Mosquito, A Formiga não tem tido, creio, a atenção que realmente merece quando se olha para o percurso dos jornais juvenis ao longo do século XX português. Se isso se deve à curta vida da publicação, ao facto de se dirigir a um público ao qual as publicações de banda desenhada deram pouca importância ou à circunstância de estarmos perante uma publicação subsidiária em relação a uma outra, ainda por cima referência cimeira dos jornais juvenis portugueses, é pergunta para a qual não tenho resposta. Talvez se deva a todas estas razões, em menor ou menor grau, mas o que importa destacar é que talvez as comemorações dos setenta anos do glorioso Mosquito venham a contribuir para corrigir esse erro.

1 Agradecemos a Mariana Lopes Viegas a disponibilização deste e de outros documentos que nos ajudaram a reconstituir alguns dos episódios fundamentais na vida d’A Formiga.

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Maria Keil (1914-2012)


Auto-retrato, Maria Keil (1941)

Maria Keil morreu ontem, aos 97 anos. Deixa uma obra tão extensa quanto importante, entre quadros, azulejos e livros, muitos livros.

Maurice Sendak (1928-2012)

Foi, sem margem para dúvidas, um dos autores mais canónicos do século XX no que toca à chamada literatura infantil. Em boa verdade, o melhor seria dizer que foi um dos autores mais canónicos do século XX e que escreveu e ilustrou livros para crianças, ou livros que as crianças podem ler, ou livros que são leitura aconselhável para qualquer pessoa, independentemente da idade. Com Where the Wild Things Are, publicado em 1963, lançou o debate sobre o que é leitura apropriada para os mais pequenos, enfurecendo algumas mentes conservadoras que viam a infância como o lugar de todas as purezas morais e não achavam bem que se as confrontasse com os seus medos. Morreu aos 83 anos e as homenagens multiplicam-se por todo o mundo.

No Guardian e no New York Times há dossiers sobre a vida e a obra de Sendak que merecem leitura atenta.

(fotografia de James Keyser/Time & Life Pictures/Getty Images; post em ‘stereo’ com o Cadeirão Voltaire)

Jean Giraud/Moebius (1938-2012)

Morreu Jean Giraud, um dos autores mais prolíficos da banda desenhada europeia e dono de um alter-ego igualmente reconhecido, Moebius. A notícia vem no Le Monde.


Jean Giraud em entrevista a Frédérique Grolleau


Jean Giraud, Claire Bretecher, Jean Gotlib e Philippe Druillet no programa Tac au Tac (1975)

Ronald Searle (1920-2012)


(Fotografia de Eamonn McCabe/Guardian)

Ronald Searle, autor prolífico que ficará para sempre identificado com a criação de St Trinian’s, morreu esta semana, aos 91 anos. O Guardian dedica-lhe um dossier que pode ser visto/lido aqui.

Harvey Pekar (1939-2010)

Harvey Pekar morreu esta noite, aos 70 anos (a notícia vem no Cleveland Metro e já chegou ao Público).

José Antunes (1937-2010)

O Público noticia hoje a morte de José Antunes, autor com obra dispersa por várias publicações e, para além da banda desenhada, responsável por muitas capas de livros e outras edições. Para ler aqui.