Monthly Archives: Setembro 2010

Recortes: Miguel Rocha, Hans, o Cavalo Inteligente, Polvo

No fim do século XIX, um cavalo tornou-se o centro das atenções na Europa. Ensinado por um professor que se dedicava à pesquisa em áreas como a frenologia e o comportamento animal, Hans foi exibido em muitos palcos, provocando furor com a sua capacidade de responder a perguntas de conteúdo matemático ou geográfico. Wilhelm von Osten, o professor, perguntava, e Hans respondia batendo com o casco no chão o número de vezes adequado. Em 1904, um estudo concluiu que, na verdade, Hans não sabia contar ou ler, ‘respondendo’ em função da ansiedade e da linguagem corporal de quem o interrogava. Não havia intrujice propositada, mas antes a crença colectiva (professor incluído) numa interpretação desfasada da verdade.

A partir de uma peça de Francisco Campos, levada à cena pelo Projecto Ruínas, Miguel Rocha transporta para o registo gráfico-narrativo alguns elementos da linguagem teatral, partindo do texto dramático sem a ele se submeter e colocando Hans, o cavalo, no centro de uma narrativa que confronta a verdade com aquilo que dela se espera. Enquadrado por um extra-texto essencial para uma leitura completa, onde se incluem as badanas, remetendo para outros números de variedades, e quatro páginas com anúncios de jornal que permitem assumir algumas continuações diegéticas, este ‘Drama Anatómico em Cinco Partes’ explora o espaço existente entre a crueza dos factos e o que deles se pode inferir, construindo uma narrativa onde as personagens se movem em função do que acreditam ser verdade, mesmo quando isso as coloca perante o abismo da inverosimilhança. Do lado de Hans, cuja ausência de inteligência perde importância perante uma fragilidade injusta, proporcionada pela exploração e pela violência com que é tratado, apenas o silêncio se escuta. Ainda que, numa única vinheta, Hans pareça falar, a certeza dessa impossibilidade é proporcional ao desejo de ouvi-lo da sua interlocutora. A cada acto, agigantam-se os gestos de bestialidade por parte de quantos gostariam de ver no animal aquilo que ao ser humano se supunha pertencer.

Com o recurso ao preto e branco, que Rocha domina no suporte digital com uma plasticidade que em nada deve aos carvões e às tintas, a narrativa engendra camadas, texturas e enquadramentos onde os primórdios da fotografia e a estética do cinema expressionista são elementos notoriamente convocados. Instaura-se, assim, uma marca de época que situa Hans no seu tempo, mesmo que a constante fragmentação e a manipulação dos factos em favor da dúvida lhe confiram uma sublime intemporalidade. Nesta história, até o cavalo parece estar certo de ser algo que não é.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Atual, do Expresso, Set. 2010)

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No El País, um artigo de Álvaro Pons dá conta dos recentes avanços da banda desenhada no universo dos leitores electrónicos de livros. Para ler aqui.

(SFC)

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