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Apontamentos: Time Life-Life Time

timelife

Apesar da crise anunciada (e confirmada pelos números de vendas), a imprensa ainda é um dos registos mais fortes da memória colectiva cronologicamente mais próxima. E, não desmerecendo o peso que algumas capas de jornais ocupam nessa memória, são as revistas que melhor cumprem a função de registo fragmentado, não tanto pelo facto de serem a cores (alguns jornais também o são), mas sobretudo pela sua maior portabilidade e pelo carácter menos efémero que as suas técnicas de impressão e materiais lhes garantem. Parecendo que não, é mais fácil guardar revistas e conseguir que se mantenham em boas condições de conservação, o que permite alguns encontros felizes vários anos mais tarde com colecções esquecidas em casas de pais ou avós e a rememoração de determinados períodos históricos a partir das imagens e dos textos nelas contidos, facto mais difícil de realizar com os jornais, pelo menos num contexto doméstico, e é esse o contexto relevante neste livro.

Em Time Life- Life Time, Luís Henriques utiliza dois títulos incontornáveis da imprensa mundial, Time e Life, para criar o seu próprio registo, atribuindo ao nome das publicações o peso do seu valor semântico (Tempo e Vida) pelo acto de as seleccionar e reinterpretar. A reprodução das capas escolhidas, sem alterações de fundo na estrutura e na composição dos originais (que, atente-se, não são originais no sentido rigoroso da palavra, já que qualquer exemplar que compramos de uma revista é uma reprodução, um elemento de entre muitos saídos de uma máquina que multiplicou ‘cópias’ da matriz), incorpora pequenos pormenores que, situados num nível que é o da própria passagem do tempo, acrescem as imagens de uma espécie de pátina assinalada por marcas, minúsculos borrões de tinta a remeterem para as manchas de pó ou humidade que qualquer papel vai adquirindo com o tempo, e igualmente para as diferentes matizes que o olhar sobre elas vai ganhando conforme a distância e o surgimento de novos dados sobre o evento representado se vão insinuando. Assim também com as capas de Luís Henriques. A edição deste volume, mais um dos belos exemplares saídos das prensas improváveis de que a Opuntia Books se socorre, poderá surgir aos mais distraídos como uma simples reprodução desenhada de capas da Time da da Life, e não haverá logro maior na sua leitura.

A selecção das capas adquire sentidos à medida que a sua sequencia se perfila. Não de um modo óbvio na relação com a história recente, já que a presença de personagens marcantes e momentos de viragem global não é predominante, apesar da aparição de Bush ou do Ayatollah Khomeini, mas antes através de uma modulação pessoal, que inclui momentos banais (como a capa da Life com a fotografia da responsável por um centro de juventude nos EUA, que poderá ter angariado mais leitores pela sua figura em fato de banho do que pelo tema em si), temas que foram notícia bombástica no passado e que agora se retomam (a gripe) ou factualidades da ordem do sociológico que foram notícia porque a máquina jornalística assim o definiu (caso da capa da Time sobre o interesse dos norte-americanos pelo budismo), validando-os enquanto fenómeno e aumentando, com essa validação, o próprio fenómeno. Não é uma história com maiúscula académica que aqui se desfia, mas antes uma sucessão de flashes, desordenados cronologicamente, com sentidos por vezes adquiridos pela colocação em sequência (a imagem de uma explosão atómica, na capa da Life, antecede a capa da Time dedicada ao Yoga, e é apenas um dos exemplos onde o comentário, a ironia ou a sugestão de uma reflexão se impõem) e sempre garantidos pela mediação do olhar para a história através de um elemento tão poderoso e revelador como a imprensa. Revistas com as características editoriais da Time e da Life não registam apenas, ainda que também o façam, os grandes momentos de viragem ou as figuras que serão lembradas nos manuais durante as próximas décadas; registam igualmente tendências, curiosidades, ansiedades e esperanças que nos definem os interesses e, de algum modo, a identidade, a cultura, a noção de comunidade, mais ou menos global. E esse é o exercício que Luís Henriques empreende neste livrinho, singelo e certamente fadado a uma recepção restrita (não só pelos seus 100 únicos exemplares, mas sobretudo pela ausência de canais institucionalizados que sobre ele queiram escrever e reflectir, o que o colocará a par de uma mão-cheia de obras recentes e relevantes no panorama da ilustração e da banda desenhada às quais a crítica pouca atenção devotou), mas sem dúvida um objecto pleno de sentidos e motivos de reflexão.

Nota: os interessados em comprar o livro devem contactar a editora através do e-mail opuntia.syndrome@gmail.com. Os originais de Luís Henriques estão expostos na Chili (Rua dos Fanqueiros, 174, 1ºesq., em Lisboa), até ao dia 24 de Julho e também aí o livro poderá ser comprado.

(SFC)

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Apontamentos: Gambuzine #1

Já não é exactamente uma novidade, mas essa é uma das vantagens dos blogs relativamente à imprensa: não termos de sujeitar o que se escreve à ditadura da actualidade acabadinha de chegar às bancas. E neste caso, a coisa vê-se reforçada, porque a publicação de que me ocupo nem sequer passa pelas bancas (se exceptuarmos as bancas de feiras de livros e fanzines, imagino).

gambuzine

Projecto de Teresa Câmara Pestana que animou as lides da banda desenhada e dos fanzines há anos atrás, o Gambuzine regressou agora com uma nova série, anual, com impressão mais cuidada e um considerável aumento no número de páginas, que se mantêm no preto e branco de sempre. E insiste-se no pormenor material porque ele é o grande diferenciador relativamente à primeira série, já que o espírito se mantém: autores de diferentes países, com interesses, traços e programas heterogéneos juntam-se num mesmo momento, numa plataforma comum que os reúne, edita e torna públicos para quem quiser conhecer o seu trabalho.
Numa leitura mais crítica, o resultado é desigual e nem de outro modo poderia ser. Mas essa desigualdade, visível tanto no aspecto técnico de alguns traços como no modo de concretizar e expressar as ideias que se organizaram para um determinado trabalho, acaba por ser uma inevitabilidade em projectos como este, tornando-se mais importante a fruição de um número considerável de trabalhos vindos de autores de vários pontos do globo e com vontades e modos de expressão muito diversos do que a análise pura e dura da individualidade de cada contribuição. Claro que essa individualidade existe, nunca se diluindo por completo no colectivo, mas parece-me que o aspecto mais importante do Gambuzine é o trabalho colectivo, centrado na pessoa de Teresa Câmara Pestana (que também publica trabalhos seus), de dar a ler uma mão cheia de autores unidos por uma certa visão do mundo, desencantada, em muitos casos, mas ainda assim comprometida, pelo menos com o olhar crítico, algumas vezes com confrontos que se percebem políticos ou com propostas mais radicais.

O Gambuzine pode ser adquirido através do e-mail: gambuzine@hotmail.com
E quem passar por Beja este fim de semana, talvez o encontre nas bancas de fanzines.

(SFC)