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Prémio Nacional de Ilustração

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Ana Biscaia é a vencedora da 17ª edição do Prémio Nacional de Ilustração, com o livro A Cadeira Que Queria Ser Sofá (texto de Clovis Levi , edição Lápis de Memória). Atribuído pela Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, o prémio teve como júri Adriana Baptista, professora na Escola Superior de Educação do Porto, Manuel San Payo, professor da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, artista plástico e ilustrador, e Cristina Grácio, em representação da DGLAB.

Para além do prémio, o júri atribuiu ainda duas menções especiais, uma a Tiago Manuel, pelo livro Mário de Sá-Carneiro: Antologia Poética (Kalandraka), e outra a André Letria, pelo livro Mar, com  texto de Ricardo Henriques (Pato Lógico).

(via Público on-line)

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Três exposições

Todas recomendáveis, todas fora de Lisboa.

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Madalena Matoso, na Gigões e Anantes (Aveiro).

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Tiago Manuel, na Mundo Fantasma (Porto).

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Marco Mendes, no Colégio das Artes (Coimbra).

Mário de Sá Carneiro ilustrado por Tiago Manuel

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A Antologia Poética de Mário de Sá Carneiro, com ilustrações de Tiago Manuel (edição da Kalandraka), lança-se hoje à noite, pelas 21h30, na Papa-Livros, e amanhã, pelas 16h30, na Gigões e Anantes.

Recortes: No País das Perversidades

Editado por ocasião dos 15 anos da Associação Cultural Ao Norte, fortemente ligada ao cinema, Sai do Meu Filme é a primeira narrativa visual assinada por Tiago Manuel, um intervalo entre as muitas ramificações do seu projecto heteronímico (onde pontuam vozes autorais como as de Terry Morgan, Max Tilman ou Tim Morris) e uma auto-ficção onde se cruzam as memórias da infância com as do cinema.

Cinco takes iniciais, sob a forma de pequenos textos emoldurados à maneira do cinema mudo, situam a narrativa nos primórdios da memória biográfica, relatando as tardes de domingo e os modos de fugir à missa, escapando ao castigo maternal e desfrutando, sem culpa apontada, das sessões de cinema no café local. Segue-se uma banda desenhada estruturada a partir do sonho, que acompanha a descida de um duende, habitante da “cabeça do pintor”, ao mundo das “infâncias esquecidas”. Na companhia de um palhaço onde a sombra de Charlie Chaplin acaba por revelar-se, o duende fará a sua travessia à imagem dos heróis de Vergílio ou de Dante, cruzando perigos, vislumbrando felicidades e aprendendo do mundo as lições necessárias. As remissões para a história do cinema cruzam-se com a memória individual, a memória da própria banda desenhada (os ecos de Sérgio Luiz e o seu Boneco Rebelde ou de Winsor McCay e Little Nemo estão à vista) e elementos que, pertencendo à auto-ficção que Tiago Manuel cria, não deixam de convocar alguns dos seus heterónimos (é o caso das figuras com cabeça de gaiola, prisioneiras do medo e incapazes de sonharem).

O contraste entre os elementos infantis que atravessam as imagens – brinquedos, visões oníricas, objectos falantes, diálogos simples – e o peso que a narrativa assume ao reportar para a infância enquanto território perdido e para as várias calamidades que afectam cada um dos círculos visitados assume uma certa perversidade lúdica e muito refinada que é marca de água do autor, quer em nome próprio, no seu trabalho artístico para além dos livros, quer nos heterónimos a que dá vida. Que isso resulte agora numa viagem dantesca, pejada de ecos cinematográficos, onde uma personagem de aspecto enternecedoramente infantil revolve a memória e olha de frente os vários círculos infernais, poderá provocar estranhamento nos que dependem de classificações temáticas e de género para se apropriarem de um livro, mas não desapontará os que acompanham de perto o trabalho deste autor (que, à maneira de Hitchcock, não deixa de fazer uma pequena aparição na sua própria narrativa).

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº94, Set.2010)

Ao Norte: Vidas de Cinema

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Cinema e banda desenhada são frequentemente confundidos, aplicando-se à segunda termos e modos de leitura que dizem respeito ao primeiro. A confusão deve-se mais ao pouco rigor na utilização de instrumentos de análise da banda desenhada do que a um real paralelismo desta com o cinema, mas a partilha de planos de focalização e, muito mais importante, a relação entre texto e imagem em cada momento de visionamento/leitura tornam pertinente um olhar que relacione ambas as linguagens, sem que com isso se crie qualquer arrumação subsidiária entre elas. A Associação Ao Norte, que se dedica à animação cinematográfica e à manutenção de um cineclube em Viana do Castelo, criou, assim, uma colecção em formato de bolso intitulada ‘O Filme da Minha Vida’ onde cada volume convida um autor de banda desenhada ou um ilustrador a criar uma narrativa ou conjunto de imagens a partir de um filme por si escolhido. À edição de cada livro, sempre acompanhado por um texto introdutório (até agora, todos assinados por João Paulo Cotrim), segue-se uma exposição dos originais e a exibição do filme escolhido, com a presença do autor que o trabalhou em livro. O público destes encontros tem sido maioritariamente composto por alunos de escolas da região, no âmbito de disciplinas relacionadas com as artes, o audiovisual e a língua portuguesa, mas as sessões são abertas ao público em geral, que não tem deixado de comparecer.

Dirigida pelo artista plástico Tiago Manuel, a colecção parte de uma atitude de pesquisa, muito mais do que da simples curiosidade de ‘casar’ cinema e banda desenhada esperando que o resultado tenha interesse transversal. Essa atitude, visível nos textos introdutórios de Cotrim, extravasa a mera contextualização, contaminando os modos de trabalhar de cada artista convidado. Posta de parte a atitude fácil (e nada original) de recontar em vinhetas o que o filme contou no ecrã, os quatro autores já publicados encetaram caminhos diversos nas suas abordagens ao cinema. André Lemos, que inaugurou a colecção com O Percutor Harmónico, partiu de Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, seleccionando uma das cenas mais marcantes do filme (aquela em que Charles Bronson, acabado de sair do comboio, enfrenta três homens da pequena cidade, seguindo-se a interpretação, na harmónica, da conhecida melodia de Morricone) para a fragmentar em imagens de enorme força, que tiram partido da tintagem a negro que caracteriza o trabalho do autor. Daniel Lima, que escolheu O Deserto dos Tártaros, de Valerio Zurlini, para criar Epifanias do Inimigo Invisível, analisa momentos do filme através de uma pesquisa em torno dos efeitos do reflexo e da transparência, transpondo para o papel uma leitura que coloca questões sobre o modo de ver as imagens, em movimento ou plasmadas pela impressão. Jorge Nesbitt assina Sétimo Selo, a partir do filme homónimo de Ingmar Bergman, e plasma o momento do jogo com a Morte num diálogo intenso onde os silêncios ganham o peso das certezas inefáveis. E no mais recente número lançado, Ângulo Morto, João Fazenda desdobra Vertigo, de Hitchcock, em duas linhas narrativas que confluem para a resolução do enredo, trabalhando a oposição entre paisagem interior e exterior de um modo autónomo relativamente ao filme, mas nunca se perdendo do seu ponto de partida.

Os próximos títulos serão assinados por Filipe Abranches, Joana Figueiredo, Cristina Sampaio e Alice Geirinhas, confirmando a colecção da Ao Norte como um dos projectos mais interessantes e abrangentes da banda desenhada portuguesa contemporânea.

Sara Figueiredo Costa
(versão ligeiramente aumentada de um texto publicado na Ler, nº83, Set.09)