Category Archives: Textos Expresso

Recortes: David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo

palmasesquilo

David Soares e Pedro Serpa
Palmas Para o Esquilo
Kingpin Books

David Soares tem construído a sua obra em banda desenhada através de livros onde podemos identificar uma história, enquanto sequência de acontecimentos contados a partir de um determinado ponto de vista, mas onde o magma narrativo é essencialmente alimento para outras reflexões. Em Palmas Para o Esquilo, onde volta a trabalhar com o desenhador Pedro Serpa (de O Pequeno Deus Cego), Soares leva um pouco mais longe aquilo que já pode, ao fim de tantos livros, entender-se como um programa, elaborando uma história onde o registo ensaístico é eixo fundamental.

Duas linhas diegéticas correm em simultâneo, uma pela voz do narrador, outra pela acção concomitante de imagem e texto em balões de fala. Se a segunda é a que permite acompanhar a história do protagonista (internado naquilo que parece ser um manicómio), através de uma analepse que recua à sua infância e à origem de certas obsessões, a primeira é a que alimenta o gesto, visceral mas metódico, de reflectir sobre a loucura. Nessa reflexão, Soares faz desfilar teorias e arcanos, visões teológicas e interpretações psicanalíticas, sempre num discurso mais voltado para ser alavanca de pensamentos do que para impor conclusões sobre o tema. A linha clara de Pedro Serpa não oferece diálogo ou desafio, cumprindo com segurança e sem fulgor a construção narrativa de David Soares, mas essa fraqueza acaba por colocar do lado do argumento e da storyboard o ónus de força deste livro, oferecendo à arquitectura narrativa e ao seu conteúdo um palco iluminado onde podem brilhar as questões, o raciocínio e as dúvidas de Soares sobre o modo como nos relacionamos com o mundo e com o inferno que, de um modo civilizado ou, pelo contrário, desregrado, guardamos por entre as meninges.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso/Actual, Dez. 2013)

Dez livros de 2013

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Isto das listas, já se sabe, é um exercício vão de memória. Escolhem-se títulos que marcaram o ano nas leituras de cada um, mas fica sempre o temor de deixar de fora coisas muito mais interessantes, coisas que não lemos ou que pensamos ter lido há mais tempo. No Expresso, a tarefa é facilitada pelo facto de só escrever sobre banda desenhada, ilustração e territórios afins. Fica aqui a minha lista do ano que passou, mais o textinho que a acompanhava na edição do dia 28 de Dezembro do Actual (onde aproveitei os caracteres para fugir aos territórios habitais):

Carla Maia de Almeida, Irmão Lobo (Planeta Tangerina)
André da Loba, Bestial (Pato Lógico)
Mandana Sadat, O Jardim de Babaï (Bruaá)
Jean-Luc Fromental & Joelle Jolivet, 365 Pinguins (Orfeu Negro)
Aaron Frisch e Roberto Innocenti, A Menina de Vermelho (Kalandraka)
Francisco Sousa Lobo, O Desenhador Defunto/ The Dying Draughtsman (Chili Com Carne)
David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books)
Marcel Ruijters, Inferno (Mmmnnnrrrg)
André Diniz, Morro da Favela (Polvo)
Mariette Tosel, WC (Mmmnnnrrrg)

A edição de banda desenhada voltou a retrair-se, mantendo-se os projectos editoriais mais pequenos como último reduto dos livros que vale a pena levar de 2013. Chili Com Carne, Polvo e Kingpin Books salvaram a safra, mas ficou algum pessimismo no ar. No caso da ilustração e dos álbuns, a crise não foi decisiva, talvez porque o sector dito infantil é aquele que melhor se aguenta em tempos de precariedade. Quebrando a regra de só referir livros de BD, ilustração e territórios afins, com a inclusão habitual da categoria infantil-juvenil que serve mais à arrumação livreira do que a qualquer leitura, junto dois livros fora deste âmbito, ambos da Letra Livre, fundamentais para compreender a edição e os modos de trabalhar com livros: O Negócio dos Livros, de André Schiffrin e & etc, Uma Editora no Subterrâneo, coordenado por Paulo da Costa Domingos. Sem eles, o ano editorial ficaria incompleto.

Recortes: Morro da Favela

Morro_Favela

André Diniz (fotografias de Maurício Hora)
Morro da Favela
Polvo

A criação de discursos sobre as favelas, sejam de índole ficcional ou documental, cede muitas vezes ao registo da compaixão, ilustrando desgraças como se nada mais houvesse e afirmando um olhar onde a tolerância, esse sentimento tão sobrevalorizado como hediondo, acaba por transformar-se em pena. Para essa tipologia de discursos, André Diniz não oferece contribuições, procurando um registo mais quotidiano do que televisivo e definindo um olhar a partir de um filtro prévio, o olhar de Maurício Hora, fotógrafo nascido e criado no Morro da Providência. É dele a biografia que serve de matéria à narrativa de Morro da Favela, logo transformada em sinfonia do lugar quando Diniz lhe acrescenta os fragmentos de outras vidas, histórias de vizinhos e das suas famílias, os trabalhos precários, as discriminações quotidianas e os encontros com a polícia. Como diz o autor no prefácio, a vida numa favela é coisa que não existe, ou existe da mesma maneira que num bairro de classe média, uma aldeia rural, uma cidade pequena – não é diferente de qualquer outra comunidade e o ser favela não faz dela realidade homogénea ou com comportamento pré-definido.

Os recortes a negro sobre branco, angulosos e com forte contraste, convocam a encenação de um teatro de sombras, mas a ilusão de podermos assistir ao desenrolar de um enredo a partir da posição segura do espectador é desfeita pela perspicácia de um argumento que implica o leitor. É nesta proximidade entre personagens que sabemos reais e uma vida que podia ser a nossa que se constrói uma banda desenhada engenhosa no que à mise-en-page diz respeito e sem subterfúgios misericordiosos no que toca ao argumento, confirmando que ver, com os olhos ou a objectiva de uma câmara, é sempre mais do que olhar através de discursos prévios, preconceituosos e fechados.

 Sara Figueiredo Costa

(publicado no Expresso/Actual, Agosto 2013)

Recortes: Um balanço de 2012

O texto que saiu no Expresso (Actual), com o meu balanço de 2012 no capítulo da banda desenhada e da ilustração, era um pouco mais pequeno, mas publico aqui a versão sem limite de caracteres, bem como a lista dos dez livros que escolhi de entre os que foram publicados em Portugal no ano que passou:

Marco Mendes, Diário Rasgado, Mundo Fantasma/Turbina
Carlos Pinheiro e Nuno Sousa, Sobrevida, Imprensa Canalha
Marjane Satrapi, Persépolis, Contraponto
Paula Carballeira e Sonjia Danowski, O Princípio,Kalandraka
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, Ir e Vir, Planeta Tangerina
Anouck Boisrobert, Louis Rigaud e Sophie Strady, Na floresta da preguiça, Bruaá
Tatiana Salem Levy e Vera Tavares, Curupira Pirapora, Tinta da China
Ciryl Pedrosa, Portugal, Asa
Alison Bechdel, Fun Home, Contraponto
Benjamin Chaud, A Cantiga do Urso, Orfeu Negro

Só o futuro o dirá, e terá de o dizer contra a crise que tudo ameaça, mas este poderá ter sido o ano em que a banda desenhada voltou a ser publicada a pensar em leitores adultos e exigentes, e não exclusivamente em coleccionadores ou ‘bedéfilos’. Persépolis, a obra mais reconhecida de Marjane Satrapi, e Fun Home, de Alison Bechdel, saíram na Contraponto, uma chancela algo inesperada para o germinar de um catálogo que, a seguir esta linha, tem tudo para ser extraordinário. O volumoso Blankets, de Craig Thompson, chegou finalmente ao mercado português (com chancela Devir), ainda que envolto em encómios que dizem mais sobre algum desconhecimento do panorama da bd mundial do que sobre o próprio livro – um marco importante, sim, mas não propriamente uma obra-prima. A Asa apostou em Portugal, de Cyril Pedrosa, e marcou o ano com essa aposta.
A edição de pequena escala, entre aquilo a que chamam alternativos e projectos que não têm maior expressão comercial porque a dimensão do mercado não o permite, confirmou o seu papel. Marco Mendes publicou um livro essencial, a Polvo editou livros de Rui Lacas e Cyril Pedrosa (de certo modo, replicando os autores da Asa com livros menos destinados ao sucesso comercial, mas nem por isso menos pertinentes), a Imprensa Canalha voltou a apresentar uma selecção de luxo e vários projectos, quase todos fora do alcance do radar comercial e crítico, deixaram marcas duradouras neste ano que agora finda.

No capítulo dos álbuns e da ilustração, o ano voltou a ser memorável, facto que nada deve à quantidade de livros publicados num sector que terá menos motivos para se ressentir da crise do que outros, mas antes à construção criteriosa dos catálogos de algumas editoras, entre projectos muito recentes e outros já firmados. Para além das escolhas da lista, é importante registar o trabalho de editoras como a Bags of Books e a Tcharan, recentes, a Caminho e a Livros Horizonte, que permanece como referências imprescindíveis, a Pato Lógico, dividida entre o impresso e o digital, e a Boca, com o texto e a imagem a apoiarem audiolivros de excelência.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Expresso, suplemento Actual, Dezembro 2012)

Recortes: O Princípio

Paula Carballeira e Sonjia Danowski
O Princípio
Kalandraka
Tradução de Elisabete Ramos

No campo de concentração de Terezin, à semelhança do que aconteceu em muitos dos campos com que a infâmia nazi assinalou o século XX, um conjunto de desenhos feitos por crianças sobreviveu à matança. O testemunho que esses desenhos prestam confirma uma verdade difícil de assimilar: apesar do horror, a humanidade continua a ser humanidade e isso não só não ameniza o gesto bruto dos verdugos como confirma a dignidade das vítimas. O Princípio não decorre num campo de concentração nem em qualquer cenário com coordenadas suficientes para o situarmos num determinado contexto, mas o âmago da sua narrativa, em cujo arranque se lê “Uma vez houve uma guerra”, permite a convocação de momentos históricos concretos para uma leitura mais transversal. E se aqui nem texto nem imagens são criados por crianças, o universo encenado e o ponto de vista do olhar é o infantil, o que aproxima este discurso, ficcional e construído na relação entre o texto e as ilustrações hiper-realistas, das folhas soltas onde as crianças de Terezin registaram a sua visão da guerra e do holocausto.

A narrativa de O Princípio é simples: depois da guerra, uma família vê-se obrigada a viver no carro, com pouco e com medo. O passar do tempo revela outras famílias em situação semelhante e, por entre os escombros, com histórias que se partilham e com o regresso de gestos tão inatos como o de brincar, a vida recomeça a fazer sentido. A circularidade e a força verbal e pictórica com que as autoras contam esta história não é um tributo aos vendilhões do optimismo e do pensamento positivo, ao contrário do que o seu resumo podia fazer crer. A beleza dos gestos que permitem recomeçar não se regista sem a fragilidade dos medos e sem a constatação da brutalidade que antecede tudo isso, o que faz deste um ‘livro infantil’ atípico, se acreditarmos que os livros têm idade.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no suplemento Actual, Expresso, Jul. 2012)

Recortes: Um Lugar nos Olhos

Luís Manuel Gaspar, Um Lugar nos Olhos, Ao Norte

 

Os gestos minuciosos e as pequenas grandes preciosidades raramente encontram espaço no turbilhão agitado do mercado editorial. Acabam por encontrá-lo em gestos e preciosidades semelhantes, não deixando, assim, de chegar às páginas e ao formato livro. Um Lugar nos Olhos foi editado em jeito de catálogo, acompanhando a exposição que levou os trabalhos de Luís Manuel Gaspar a Viana do Castelo, pela mão da Associação Ao Norte. O livrinho, de capa mole e branca, reúne dezassete bandas desenhadas que o autor criou a partir de obras literárias portuguesas, de Vitorino Nemésio a Fernando Pessoa, passando por Raúl Brandão, Almada Negreiros ou Sophia de Mello Breyner. Não há trabalhos inéditos, mas só os leitores mais antigos da revista Ler ou da Viva Voz, entre outras publicações, guardariam memória impressa destas páginas.

O universo gráfico de Luís Manuel Gaspar alimenta-se da palavra literária, atribuindo-lhe sentidos que ecoam em pormenores meticulosos, figuras oníricas e imagens que, mesmo quando são literais, conferem ao verbo a certeza harmoniosa do seu justo significado. O traço fino, a tinta da china, e as cores densas e discretas, produzem vinhetas onde o detalhe é assombroso. Mas a minúcia de Gaspar não é artifício gratuito, nem realismo radical, e sim autêntica gramática visual, erguendo uma poética das formas e das cores que configura aquilo a que se poderia chamar, com justiça, uma obra ímpar. Quando posta em funcionamento, o que esta gramática produz não são poemas ilustrados com recurso à linguagem da banda desenhada, mas sim novas composições poéticas, desta vez não assentes unicamente no verbo, mas geneticamente compostas pelo texto original e a sua recriação, cruzando texto e imagem num único fôlego de ritmos e sentidos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no ActualExpresso, Dez. 2011)

Recortes: Javier Sáez Castán, O Lanche do Senhor Verde, Orfeu Negro

Há poucas coisas tão falaciosas como a ideia de simplicidade. E quando associada a outra falácia, a dos ‘livros infantis’, para além de falaciosa a ideia torna-se imprecisa. A narrativa de O Lanche do Senhor Verde assume esse risco, que não é exactamente um risco que afecte a fruição, na medida em que a depuração pictórica e a acuidade estética deste livro se sobrepõem a qualquer razia didáctico-pedagógica que se lhe queira colar. A linearidade com que se pode resumir o convite para lanchar que o Senhor Verde endereça a outros cinco Senhores, cada qual com a sua cor, e a descoberta colectiva que os cavalheiros fazem de um mundo polícromo, muito mais rico do que o mundo monocromático que cada um habita, contrasta com a miríade de pormenores, uns mais notórios, outros mais subtis, que transformam esta história num edifício gráfico-narrativo poderoso, capaz de aspirar à representação total do mundo sem nunca fugir da história individual que pretende contar.

O trabalho pictórico do autor, em diálogo visível com os universos de Magritte (imediatamente reconhecíveis no perfil das personagens, mas igualmente no uso da cor, da perspectiva e das linhas de fuga), coloca problemas nada simples, questionando a percepção humana e a sua necessidade de compartimentar aquilo que entende por real. Que o faça sem beliscar a legibilidade e a linearidade narrativa só confirma a grandiosidade do trabalho de Sáez Castán, que já conhecíamos como co-autor (com Miguel Murugarren) de um outro livro muito recomendável, igualmente da Orfeu Negro, Animalário Universal do Professor Revillod. Os ‘livros infantis’ podem ser uma falácia na sua designação, para não falar das suas possíveis definições e respectivas aplicações, mas se todas as infâncias convivessem com livros deste calibre o mundo seria, arrisco, um lugar muito mais interessante.

Sara Figueiredo Costa
(versão integral do texto publicado no Actual, Expresso, Set. 2011)