Monthly Archives: Janeiro 2010

Angoulême 2010

A 37ª edição do Festival de Angoulême abre as portas amanhã. Para acompanhar aqui.

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O Combate Ilustrado

Foi muitas outras coisas, mas no que à ilustração e à banda desenhada diz respeito, o Combate foi espaço de experimentação e divulgação para muitos ilustradores da nossa praça. Amanhã, lança-se o livro O Combate Ilustrado, que reúne uma selecção de ilustrações e bandas desenhadas publicadas no jornal Combate ao longo de vinte e dois anos anos. O encontro é na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio (Rua da Achada, 11, perto da R. Madalena/Lg. Caldas). O livro já anda por algumas livrarias.

BD nas Bibliotecas de Lisboa

Os dados são revelados pelo Bibliotecário Anarquista: os empréstimos de livros de banda desenhada pela rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa cresceu de modo significativo. Diz o nosso bibliotecário:

5624 (cinco mil seiscentos e vinte e quatro) foi o número de bandas desenhadas, comics e mangás emprestadas pela Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa em 2009. A unidade que mais contribuiu foi a Bedeteca com 3146 exemplares emprestados, seguida da Biblioteca Municipal Central com 752 exemplares e da Orlando Ribeiro com 695. A “morder os calcanhares” surgem a Biblioteca Camões e a gloriosa biblioteca da Penha de França com 317 e 198 exemplares respectivamente. As últimas bibliotecas do ranking não revelo porque senão dão cabo de mim. Entretanto podemos observar a evolução do empréstimo de BD, nos últimos quatro anos, através da simples observação do gráfico aqui em cima.

E para quem possa ainda não saber, o cartão de leitors das BLX é totalmente gratuito.

Visita do Dia


Toshiyuki Fukuda

(SM)

Pedro Brito e João Fazenda

A GALERIA MUNDO FANTASMA, a GESTO COOPERATIVA CULTURAL e a CASA DA ANIMAÇÃO organizam um conjunto de iniciativas à volta da Banda Desenhada, do Cinema de Animação e da Ilustração, com os autores João Fazenda e Pedro Brito.

Na GALERIA MUNDO FANTASMA poderemos ver pranchas de bd destes dois autores oriundas das obras Pano Cru (Brito) e Loverboy (Fazenda), mas também Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos (de ambos). A inauguração será no próximo dia 30 de Janeiro pelas 17h00, com a presença dos autores.

Na mesma noite, pelas 22h00, na CASA DA ANIMAÇÃO serão exibidos alguns filmes de animação dos mesmos autores: entre outras, A Estrela de Gaspar e Sem dúvida, amanhã (de Brito) ou Algo Importante (de Fazenda e João Paulo Cotrim). Segue-se uma conversa com os autores.

E imediatamente a seguir (pelas 23h30) a GESTO COOPERATIVA CULTURAL inaugura uma exposição do premiado ilustrador João Fazenda (Ler, Público).

A iniciativa conjunta das três entidades permite conhecer diferentes facetas de dois jovens autores nacionais, e lança luz sobre pontos de contacto entre as suas diferentes facetas artísticas.

Leituras

Joe Sacco, Footnotes in Gaza, Metropolitan Books (2009)

(SFC)

Recortes: David Soares, Osvaldo Medina, Mário Freitas, Mucha, Kingpin Books

A METAMORFOSE DO MAL

Num panorama tão pouco variado como é o do mercado português de banda desenhada, a Kingpin Books começa a afirmar-se como porto seguro para a publicação de autores cujo trabalho, apesar de profissional e de qualidade, não tem interessado as grandes casas editoriais. Depois de A Fórmula da Felicidade, de Nuno Duarte e Osvaldo Medina, a editora publica agora Mucha, o muito aguardado regresso de David Soares à escrita para banda desenhada, acompanhado pelo desenho de Osvaldo Medina e pela arte-final de Mário Freitas.

Em diálogo assumido com Rhinocerós, de Èugene Ionesco, Mucha narra o momento em que Rusalka, uma camponesa polaca, se apercebe da transformação paulatina dos seus conterrâneos em moscas e o modo como essa transformação se espalha e normaliza. Desesperada pela grotesca metamorfose que contamina a aldeia, grávida e sem qualquer vislumbre de uma saída para a situação, a deambulação desordenada de Rusalka ganhará contornos de prisão a céu aberto. Hábil na criação de uma escalada de sufoco, o imaginário de David Soares encontra no traço expressionista de Medina e nas finalizações de Freitas um preto-e-branco perfeitamente harmonioso com a narrativa e fortemente marcado pela influência das clássicas bandas desenhadas de horror, que dispensavam a boa qualidade do papel e da impressão (ao contrário de Mucha) e ainda assim produziam efeitos potencialmente perturbadores, graças aos enquadramentos, ao domínio do chiaroscuro e ao efeito surpresa.

Se a metáfora do totalitarismo e dos seus modos insidiosos de se espalhar como se de uma benesse se tratasse é clara desde o início, tanto pelo comportamento das personagens como pela referência a Rhinocerós, o encontro de Rusalka com o exército nazi não deixa margem para dúvidas. Nessa sequência final e perigosamente catártica, a utilização do alemão nas falas não é um simples artifício, mas antes a confirmação de que para percepcionarmos o horror, e sobretudo para o sentirmos, não é imprescindível compreender as palavras que o integram. O artifício encontra-se no forçar de um ponto de vista para o leitor, agora mero espectador (Rusalka, supõe-se, entenderia as palavras dos alemães), e nem por isso menos responsável – mesmo sem o dom das línguas, permanece a dúvida quanto à ameaça que a epígrafe de Sófocles, na Antígona, lança na página que antecede a narrativa: “Estas coisas são de um futuro próximo”. Mais do que o zumbido contínuo e incomodativo das moscas, são estas palavras que ecoam em cada prancha de Mucha.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, nº86, Dez.09)