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Recortes: David Soares, Osvaldo Medina, Mário Freitas, Mucha, Kingpin Books

A METAMORFOSE DO MAL

Num panorama tão pouco variado como é o do mercado português de banda desenhada, a Kingpin Books começa a afirmar-se como porto seguro para a publicação de autores cujo trabalho, apesar de profissional e de qualidade, não tem interessado as grandes casas editoriais. Depois de A Fórmula da Felicidade, de Nuno Duarte e Osvaldo Medina, a editora publica agora Mucha, o muito aguardado regresso de David Soares à escrita para banda desenhada, acompanhado pelo desenho de Osvaldo Medina e pela arte-final de Mário Freitas.

Em diálogo assumido com Rhinocerós, de Èugene Ionesco, Mucha narra o momento em que Rusalka, uma camponesa polaca, se apercebe da transformação paulatina dos seus conterrâneos em moscas e o modo como essa transformação se espalha e normaliza. Desesperada pela grotesca metamorfose que contamina a aldeia, grávida e sem qualquer vislumbre de uma saída para a situação, a deambulação desordenada de Rusalka ganhará contornos de prisão a céu aberto. Hábil na criação de uma escalada de sufoco, o imaginário de David Soares encontra no traço expressionista de Medina e nas finalizações de Freitas um preto-e-branco perfeitamente harmonioso com a narrativa e fortemente marcado pela influência das clássicas bandas desenhadas de horror, que dispensavam a boa qualidade do papel e da impressão (ao contrário de Mucha) e ainda assim produziam efeitos potencialmente perturbadores, graças aos enquadramentos, ao domínio do chiaroscuro e ao efeito surpresa.

Se a metáfora do totalitarismo e dos seus modos insidiosos de se espalhar como se de uma benesse se tratasse é clara desde o início, tanto pelo comportamento das personagens como pela referência a Rhinocerós, o encontro de Rusalka com o exército nazi não deixa margem para dúvidas. Nessa sequência final e perigosamente catártica, a utilização do alemão nas falas não é um simples artifício, mas antes a confirmação de que para percepcionarmos o horror, e sobretudo para o sentirmos, não é imprescindível compreender as palavras que o integram. O artifício encontra-se no forçar de um ponto de vista para o leitor, agora mero espectador (Rusalka, supõe-se, entenderia as palavras dos alemães), e nem por isso menos responsável – mesmo sem o dom das línguas, permanece a dúvida quanto à ameaça que a epígrafe de Sófocles, na Antígona, lança na página que antecede a narrativa: “Estas coisas são de um futuro próximo”. Mais do que o zumbido contínuo e incomodativo das moscas, são estas palavras que ecoam em cada prancha de Mucha.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, nº86, Dez.09)

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Antecipação: Mucha, David Soares e Osvaldo Medina

O livro só sai em Outubro, com a chancela da Kingpin Books, mas já há quatro pranchas que podem ser vistas no blog de David Soares. Mucha tem argumento de David Soares, desenho de Osvaldo Medina e arte-finalização de Mário Freitas.

Mucha01copy(reprodução de uma das pranchas disponíveis no blog Cadernos de Daath)

(SFC)