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Cor digital na ilustração

Até 15 de Dezembro estão abertas as inscrições para o workshop Uso e aplicação digital da cor na ilustração, orientado por Richard Câmara e a decorrer entre os dias 17 e 23 de Dezembro na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Inscrições e informações aqui.

Leituras do dia I: Roteiro da ilustração portuense

No P3, o novo projecto informativo do Público, traça-se o percurso pelos pontos mais importantes da ilustração no Porto. Galerias, livrarias, escolas e pontos de encontro, vem tudo no mapa. Para ler aqui e acompanhar nos próximos dias.

Samuel Mahaffy de Sousa Rodrigues Sampaio e Melo, Lendas e Toadas do Nosso Povo Singelo, Ed. Caminho

(Selec. e intr. de Ana Saldanha; ilustr. de Daniel Silvestre e Silva)

lendastoadas

Apesar da inclusão deste volume na colecção infanto-juvenil da Caminho, o trabalho de selecção e edição e a natureza destas Lendas e Toadas do Nosso Povo Singelo remetem-no, em rigor, para o plano da etnografia e da ‘literatura tradicional’.

Samuel Mahaffy de Sousa Rodrigues Sampaio e Melo publicou, em 1907, uma recolha de lendas e contos tradicionais cuja fortuna não teve o alcance de trabalhos semelhantes feitos por Teófilo Braga ou Adolfo Coelho, mas que reunia material relevante para a fixação de um corpus representativo da tradição poética e narrativa popular. Ana Saldanha corrige essa sombra de esquecimento ao recuperar o volume, seleccionando onze textos e assinando uma introdução esclarecedora sobre o trabalho do autor e o contexto de recolha e divulgação da chamada ‘literatura popular’ entre os séculos XIX e XX.

Os textos seleccionados atestam a presença de temas e motivos frequentes neste tipo de literatura, como o convívio entre homens e lobos, a aparência enganadora da beleza, a passagem ritualizada do tempo ou a iniciação dos heróis. E apesar de fieis aos temas e às narrativas recolhidas, os textos reflectem igualmente a marca autoral daquele que os recolheu, quer ao nível da fixação, quer na tentação de registar como tradicional e ‘autóctone’ material que, na verdade, pertence a outras tradições (como acontece com a sequência intitulada “Liméricas”, claramente importada das Limericks de origem irlandesa).

A escolha de Daniel Silvestre e Silva para a ilustração do volume foi providencial. O domínio do pequeno traço a tinta e da sua potencialidade enquanto criador de volumes e contrastes luminosos assegura imagens fortes, que ampliam pormenores textuais relevantes e configuram símbolos e ambientes para além da expressão verbal. Que essa relação entre texto e imagem se consume numa linha genealógica que remonta às gravuras em voga na ilustração para a infância do séc. XIX e inícios do XX e que, para além disso, se harmonize perfeitamente com os esboços deixados por Samuel Mahaffy para as ilustrações do seu livro só confirma a providência.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Actual, do Expresso, Set. 09)