Monthly Archives: Junho 2011

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Recortes: Os Livros da Plana

Fundada no Porto, em 2007, por Luís Camanho e Ana Isabel Carvalho, a Plana Press é uma editora sem ambições de mercado mas com um enorme capital criativo e capaz de grandes investimentos na procura dos autores e dos trabalhos mais relevantes para a construção do seu catálogo. Dedicada à ilustração, à banda desenhada e aos muitos territórios que cruzam estas duas linguagens, a Plana Press nasceu da vontade de criar um projecto editorial que garantisse o acompanhamento de todo o processo de produção, desde o contacto com o autor até à venda do livro, passando pelas fases de impressão e acabamento. E a pequena dimensão da estrutura, para além de permitir esse acompanhamento, não impede os livros de chegarem aos leitores, seja através da venda directa, no site (http://planapress.org/), seja nas várias livrarias e galerias que fazem questão de os disponibilizar, do Porto a Lisboa, de Torres Vedras a Barcelona, passando por Braga e Berlim.

O modus operandi da Plana Press, pouco comum em tempo de concentrações económico-editoriais e livros virtuais, não deve tanto à nostalgia do objecto impresso e do cheiro a tinta das tipografias como à percepção de que é possível juntar o melhor de dois mundos, de um lado as técnicas de impressão que se aperfeiçoam desde os tempos de Guttenberg, e que permitem a criação de objectos únicos e tangíveis, do outro a velocidade da internet na criação de redes de divulgação, quebrando a dependência da distribuição nacional pelas livrarias e o problema de armazenar os livros por vender.

Nos quatro anos que leva de vida, a Plana Press já publicou obras colectivas, como Dandy, onde se encontram mais de trinta artistas nacionais e estrangeiros em torno da elegância e da malandragem do conceito homónimo, e várias individuais, sendo a mais recente de Christina Casnellie, ilustradora norte-americana que se estreou, deste modo, em Portugal, com o livro Bomboca. A decisão de publicar estes e outros livros relaciona-se sempre com o interesse pessoal dos editores, o que faz da Plana Press um catálogo de afinidades estéticas, fortemente definidas pela partilha de uma certa experimentação em torno de grafismos, linhas visuais e modos narrativos. O primeiro livro de Marco Mendes (Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas), um dos autores que importa acompanhar por entre a banda desenhada portuguesa contemporânea, os estudos em torno dos totems e dos pictogramas assinado pela colectiva Salão Coboi, o exercício narrativo a duas mãos, as de Júlio Dolbeth e Rui Santos, que resultou no volume Pandora Complexa, ou o caderno de esboços de Diogo Oliveira, Big Hands, Small Mobile, confirmam as linhas que a Plana Press procura explorar, tanto como a heterogeneidade das suas possibilidades. Entre a banda desenhada, a ilustração e a experimentação pictórica e narrativa, os livros da Plana podem ser, ainda, uma espécie de segredo bem guardado, mas a sua contribuição para a ebulição criativa e experimental em que uma parte dos autores contemporâneos vem navegando é inegável.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº101, Abr. 2011)

1ªs Conferências de Banda Desenhada

Nos dias 22 e 23 de Setembro o IFP – Institut Français du Portugal, em Lisboa, acolhe as 1ªs Conferências de Banda Desenhada, uma iniciativa do investigador de banda desenhada Pedro Vieira de Moura. Este encontro tem como objectivo apoiar a investigação consolidada em torno da banda desenhada e de outras áreas que lhe estão intrinsecamente associadas como a ilustração, a caricatura e o cartoon editorial, entre outras. As conferências serão um fórum de encontro e de troca de leituras sobre o tema que, para além de colocar perspectivas teóricas sobre o tema lado a lado, procura aproximar os vários investigadores portugueses de forma a criar uma massa crítica sobre banda desenhada em Portugal.

O primeiro passo para inscrever trabalhos para a avaliação da Comissão de Apreciação para serem apresentados nas Conferências de Banda Desenhada é realizar o envio dos papers através do e-mail bd@wakeup.com.pt até 1 de Julho. Os trabalhos seleccionados serão divulgados em blog.wakeup.com.pt no dia 29 de Julho.

1ªs Conferências de Banda Desenhada
Datas: 22 e 23 de Setembro de 2011
Local: IFP – Institut Français du Portugal, Lisboa
Envio de propostas até 1 de Julho
Divulgação dos ensaios seleccionados para apresentação: 29 de Julho
Mais informações: arianefeijo@wakeup.com.pt ou 914 958 958

 

Leituras

Milt Gross, Ele Foi Mau Para Ela, Libri Impressi

AAVV, Futuro Primitivo, Chili Com Carne

Aleksandar Zograf, Mundos em Segunda Mão, Mmmnnnrrrg

VII Festival Internacional de BD de Beja

Com o FIBDB já de portas fechadas, resta dizer que o balanço deste ano foi, como sempre tem sido, muito positivo. Exposições escolhidas com critério, pensadas para diferentes tipos de públicos e devidamente contextualizadas, programação diversificada, cruzando a banda desenhada com a leitura, os processos de edição e distribuição, feira do livro muito composta, com espaço para as editoras mais institucionalizadas e para os projectos ditos alternativos sem diferenças de condições ou localização, e um acolhimento caloroso, a confirmar que em Beja se está sempre muito bem.

Recortes: David Machado e João M. P. Lemos, A Mala Assombrada, Presença

Depois de um romance que questiona a fronteira entre verdade e verosimilhança (Deixem Falar as Pedras, D. Quixote), David Machado regressa ao registo habitualmente definido como ‘infantil’ com uma história onde se explora o medo e os modos de o enfrentar, mas onde a dita fronteira permanece como subtexto. A Mala Assombrada acompanha a odisseia de dois irmãos com atitudes opostas perante uma mala desconhecida, encontrada sobre o muro de uma casa abandonada. Entre o medo envergonhado do mais velho e a temeridade inexplicável do mais novo, David Machado constrói uma narrativa onde se reconhecem gestos e atitudes não exclusivamente infantis, mas cuja aceitação tende a esfumar-se com o passar dos anos.

O trabalho de João Lemos surge em estreito diálogo com o texto, o que confere ao livro uma unidade salutar (e nem sempre presente em livros com texto e imagem), mas isso não evita a cedência a um conjunto de tópicos visuais que persistem em boa parte das edições destinadas ao público infantil. Há páginas que ultrapassam essa mediania, sobretudo quando Lemos explora os ângulos menos óbvios e mais consentâneos com a visão necessariamente baixa de uma criança, quando joga com a presença ou a ausência de luz ou quando abre os planos para pormenores tão meticulosos como o da fechadura da mala que dá título ao livro, mas o registo banaliza-se sempre que surgem as personagens, caracterizadas pelas linhas arredondadas, os contornos marcados e as cores estandardizadas que podemos encontrar em tantos desenhos animados ou jogos infantis de computador. É um registo que não ilumina como devia o texto de Machado e que nem sequer faz justiça ao trabalho gráfico que João M.P. Lemos tem desenvolvido noutros espaços, ficando-se pela competência onde as expectativas apontavam para o deslumbramento.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Actual, Expresso, Maio 2011)