Category Archives: Banda Desenhada

Angoulême 2014

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A 41ª edição do Festival de la Bande Dessinée d’Angoulême começa amanhã. Quem não estiver por terras francesas pode acompanhar as novidades no site do festival.

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Livros que vieram com o Natal

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Joe Sacco, The Great War (Jonathan Cape, 2013)

Recortes: David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo

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David Soares e Pedro Serpa
Palmas Para o Esquilo
Kingpin Books

David Soares tem construído a sua obra em banda desenhada através de livros onde podemos identificar uma história, enquanto sequência de acontecimentos contados a partir de um determinado ponto de vista, mas onde o magma narrativo é essencialmente alimento para outras reflexões. Em Palmas Para o Esquilo, onde volta a trabalhar com o desenhador Pedro Serpa (de O Pequeno Deus Cego), Soares leva um pouco mais longe aquilo que já pode, ao fim de tantos livros, entender-se como um programa, elaborando uma história onde o registo ensaístico é eixo fundamental.

Duas linhas diegéticas correm em simultâneo, uma pela voz do narrador, outra pela acção concomitante de imagem e texto em balões de fala. Se a segunda é a que permite acompanhar a história do protagonista (internado naquilo que parece ser um manicómio), através de uma analepse que recua à sua infância e à origem de certas obsessões, a primeira é a que alimenta o gesto, visceral mas metódico, de reflectir sobre a loucura. Nessa reflexão, Soares faz desfilar teorias e arcanos, visões teológicas e interpretações psicanalíticas, sempre num discurso mais voltado para ser alavanca de pensamentos do que para impor conclusões sobre o tema. A linha clara de Pedro Serpa não oferece diálogo ou desafio, cumprindo com segurança e sem fulgor a construção narrativa de David Soares, mas essa fraqueza acaba por colocar do lado do argumento e da storyboard o ónus de força deste livro, oferecendo à arquitectura narrativa e ao seu conteúdo um palco iluminado onde podem brilhar as questões, o raciocínio e as dúvidas de Soares sobre o modo como nos relacionamos com o mundo e com o inferno que, de um modo civilizado ou, pelo contrário, desregrado, guardamos por entre as meninges.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso/Actual, Dez. 2013)

Dez livros de 2013

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Isto das listas, já se sabe, é um exercício vão de memória. Escolhem-se títulos que marcaram o ano nas leituras de cada um, mas fica sempre o temor de deixar de fora coisas muito mais interessantes, coisas que não lemos ou que pensamos ter lido há mais tempo. No Expresso, a tarefa é facilitada pelo facto de só escrever sobre banda desenhada, ilustração e territórios afins. Fica aqui a minha lista do ano que passou, mais o textinho que a acompanhava na edição do dia 28 de Dezembro do Actual (onde aproveitei os caracteres para fugir aos territórios habitais):

Carla Maia de Almeida, Irmão Lobo (Planeta Tangerina)
André da Loba, Bestial (Pato Lógico)
Mandana Sadat, O Jardim de Babaï (Bruaá)
Jean-Luc Fromental & Joelle Jolivet, 365 Pinguins (Orfeu Negro)
Aaron Frisch e Roberto Innocenti, A Menina de Vermelho (Kalandraka)
Francisco Sousa Lobo, O Desenhador Defunto/ The Dying Draughtsman (Chili Com Carne)
David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books)
Marcel Ruijters, Inferno (Mmmnnnrrrg)
André Diniz, Morro da Favela (Polvo)
Mariette Tosel, WC (Mmmnnnrrrg)

A edição de banda desenhada voltou a retrair-se, mantendo-se os projectos editoriais mais pequenos como último reduto dos livros que vale a pena levar de 2013. Chili Com Carne, Polvo e Kingpin Books salvaram a safra, mas ficou algum pessimismo no ar. No caso da ilustração e dos álbuns, a crise não foi decisiva, talvez porque o sector dito infantil é aquele que melhor se aguenta em tempos de precariedade. Quebrando a regra de só referir livros de BD, ilustração e territórios afins, com a inclusão habitual da categoria infantil-juvenil que serve mais à arrumação livreira do que a qualquer leitura, junto dois livros fora deste âmbito, ambos da Letra Livre, fundamentais para compreender a edição e os modos de trabalhar com livros: O Negócio dos Livros, de André Schiffrin e & etc, Uma Editora no Subterrâneo, coordenado por Paulo da Costa Domingos. Sem eles, o ano editorial ficaria incompleto.

Amadora BD 2013

AmadoraBD2013

A 24ª edição do festival de banda desenhada da Amadora, Amadora BD, abre hoje as portas. Às 18h30 inaugura-se a exposição que homenageia Geraldes Lino, na Galeria Municipal Artur Bual (Geraldes Lino, militante da BD e dos fanzines), e às 21h30 abrem-se as portas do Fórum Luís de Camões, na Brandoa, onde se localiza o espaço central do festival (com exposições de Ricardo Cabral, o autor português em destaque na edição deste ano – e cuja exposição tive o prazer de comissariar – , David Soares, Fernando Relvas ou Yoshiyasu Tamura, exposições dedicadas ao Super-Homem, a Spirou e aos Mutts, uma exposição sobre o trabalho de seis autores brasileiros contemporâneos e várias outras sobre trabalhos recentes de autores publicados e premiados ao longo do último ano).

A imagem gráfica do Amadora BD 2013 resulta de uma ilustração assinada por Ricardo Cabral e trabalhada em conjunto com o GBNT – gabinete de design e este processo terá igualmente uma exposição explicativa no Fórum Luís de Camões.

A programação completa do Amadora BD pode ser consultada aqui.

Toma lá 500 paus e faz uma BD

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Já se conhece a decisão do júri do concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD!, lançado pela associação Chili Com Carne com vista à publicação de um livro. Francisco Sousa Lobo foi o autor escolhido com o projecto The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros, que há-de ganhar a forma de livro ao longo do próximo ano. As primeiras páginas já podem ser vistas aqui.

 

Mariana Lopes Viegas, a Tia Nita (1918-2013)

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Morreu Mariana Lopes Viegas, conhecida no meio editorial e da banda desenhada como Tia Nita. Irmã de António Cardoso Lopes Jr., o Tiotónio, Mariana Viegas conviveu de perto com o universo dos jornais e revistas de banda desenhada, nomeadamente com O Mosquito, tendo sido a responsável pelo suplemento A Formiga, destinado às leitoras, que esta publicação incluiu durante cento e oitenta edições.

Em jeito de homenagem, republico o texto que escrevi sobre A Formiga, para a exposição dedicada a O Mosquito que o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem realizou em Outubro de 2006, altura em que tive oportunidade de trocar algumas ideias com a própria Tia Nita, sempre de uma simpatia e uma disponibilidade totais.

O INSECTO MAIS NOVO DA FAMÍLIA MOSQUITO

Sara Figueiredo Costa

Sete décadas passadas sobre o início da publicação de um dos mais importantes periódicos da banda desenhada portuguesa, importa recordar as suas múltiplas contribuições para a edição e divulgação de banda desenhada e igualmente para o desenvolvimento do jornalismo infanto-juvenil, se assim lhe podemos chamar, português. Sede de aprendizagens jornalísticas várias, O Mosquito foi também o ponto de partida para uma outra publicação, sua suplementar, mas com características que a tornaram única no panorama editorial da época. Dirigida por Mariana Lopes Viegas, A Formiga começou a ser publicada no número 443 d’O Mosquito, em 22 de Setembro de 1943 e saiu, com periodicidades diferentes, até à 180ª edição, no número 888 d’O Mosquito, em 27 de Dezembro de 1947. Mas recuemos um pouco, antes de resumirmos de modo tão seco uma história com tanto conteúdo.

Jornal mais do agrado do público masculino que do feminino, na altura habituado ou, melhor dizendo, apenas autorizado, a histórias de encantar e conselhos sobre lavoures, o Mosquito decide albergar um “semanário para as meninas”, como se lia na capa de cada edição. A convite de António Cardoso Lopes, mais conhecido do público por Tiotónio, Mariana Simões Lopes, sua irmã, assumirá a identidade de Tia Nita e ficará responsável pela direcção do suplemento. Numa época em que o jornalismo não era espaço considerado adequado para as supostamente delicadas ‘almas femininas’, e em que as responsabilidades de direcção eram uma verdadeira miragem para qualquer mulher, esta é a primeira característica d’A Formiga que importa assinalar.

A segunda característica que quero aqui destacar é o modo como Tia Nita se entrega à organização editorial do jornal, definindo secções e colaborações com um savoir faire característico de quem sempre teve o jornalismo como profissão e quotidiano. E apesar de o percurso académico de Mariana Cardoso Lopes não ter, até à data da primeira edição d’A Formiga, passado pelo jornalismo, a verdade é que a família Cardoso Lopes sempre nutriu um enorme fascínio pelo ofício. A criação de jornais, efémeros e amadores, mas muito completos, fazia parte dos passatempos preferidos dos irmãos Lopes durante a infância e a juventude, como nos conta a própria Tia Nita numa ‘Autobiografia’ entregue à Tertúlia BD em Maio de 1993: “Quando nas férias nos juntávamos todos, mais disponíveis, tínhamos um jornal feito à mão – ‘A Bóia’ – onde cada um colaborava segundo os seus gostos, habilidades e inspiração”1.

Logo no primeiro número d’A Formiga, Tia Nita dirige-se às leitoras de modo directo, desafiando-as a escreverem-lhe cartas e partilharem com ela sonhos e preocupações: “Escrevam-me a ‘conversar comigo’, como se o fizessem convosco mesmas”. Estava criada a personagem e os resultados foram visíveis imediatamente a seguir, na segunda edição do suplemento, com a Tia Nita a responder a várias cartas das suas ‘sobrinhas’, numa rubrica que se tornaria parte imprescindível d’A Formiga e que ajudaria a definir uma das personagens mais características do meio da banda desenhada portuguesa no período áureo dos jornais infanto-juvenis.

Para além da secção das cartas, A Formiga publicava banda desenhada, contos, jogos e passatempos, onde se incluíam os famosos moldes de roupa para boneca, e algumas rubricas que se tornaram famosas na época, como o “Diário de Bélita”, que pretendia reflectir o quotidiano de uma menina e que constitui, lido atentamente nos dias de hoje, um excelente elemento de reflexão sobre o modo como se ficciona e padroniza exageradamente a mente e as capacidades das crianças a quem se dirigem os textos de literatura infanto-juvenil.

Pelas páginas de banda desenhada d’A Formiga passaram autores como J. Cortez, o ‘clã’ Blasco, Artur Correia ou Eduardo Teixeira Coelho. Três histórias se destacaram neste espaço que, não rivalizando com O Mosquito, publicou alguns momentos memoráveis da história da banda desenhada portuguesa: “A Moura e o Dragão” e “A Moura e a Fonte” (duas das três histórias da chamada ‘Trilogia das Mouras’), com texto de Artur Correia e desenho de Eduardo Teixeira Coelho e a “Anita Pequenita”, do espanhol Jesus Blasco, colaborador frequente d’O Mosquito.

O tom que atravessa as páginas d’ A Formiga remete, sem destoar, para o imaginário esperado e permitido às meninas da época: algumas transgressões à realidade, com a fantasia possível a convocar duendes faladores que vêm de visita, animais com capacidades inverosímeis, personagens como a Anita Pequenita, aventureira nascida num sino de prata e meninas sempre prontas a dedicarem-se aos passatempos que lhes estão destinados. No entanto, há momentos em que essas transgressões se adensam, criando imaginários que talvez já não fossem tanto do agrado dos zelotes da moral e dos costumes das meninas da década de quarenta do século passado, mas que certamente terão feito as delícias dessas mesmas meninas, com pouco ou nenhum acesso a outros discursos ficcionais que não os que as mães e restante família decretavam aceitáveis. As aventuras da “Anita Pequenita” são o exemplo mais claro disso, com momentos a raiar o terror gore (para os padrões da altura, entenda-se) e com algumas situações em que a fantasia infantil bem comportada cede lugar à quase alucinação (a este propósito veja-se o texto que António Dias de DEUS dedicou à “Anita Pequenita” no volume O Mosquito – 60º Aniversário, 1996).

Ofuscada pelo peso e importância inegáveis d’O Mosquito, A Formiga não tem tido, creio, a atenção que realmente merece quando se olha para o percurso dos jornais juvenis ao longo do século XX português. Se isso se deve à curta vida da publicação, ao facto de se dirigir a um público ao qual as publicações de banda desenhada deram pouca importância ou à circunstância de estarmos perante uma publicação subsidiária em relação a uma outra, ainda por cima referência cimeira dos jornais juvenis portugueses, é pergunta para a qual não tenho resposta. Talvez se deva a todas estas razões, em menor ou menor grau, mas o que importa destacar é que talvez as comemorações dos setenta anos do glorioso Mosquito venham a contribuir para corrigir esse erro.

1 Agradecemos a Mariana Lopes Viegas a disponibilização deste e de outros documentos que nos ajudaram a reconstituir alguns dos episódios fundamentais na vida d’A Formiga.