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Recortes: Um Lugar nos Olhos

Luís Manuel Gaspar, Um Lugar nos Olhos, Ao Norte

 

Os gestos minuciosos e as pequenas grandes preciosidades raramente encontram espaço no turbilhão agitado do mercado editorial. Acabam por encontrá-lo em gestos e preciosidades semelhantes, não deixando, assim, de chegar às páginas e ao formato livro. Um Lugar nos Olhos foi editado em jeito de catálogo, acompanhando a exposição que levou os trabalhos de Luís Manuel Gaspar a Viana do Castelo, pela mão da Associação Ao Norte. O livrinho, de capa mole e branca, reúne dezassete bandas desenhadas que o autor criou a partir de obras literárias portuguesas, de Vitorino Nemésio a Fernando Pessoa, passando por Raúl Brandão, Almada Negreiros ou Sophia de Mello Breyner. Não há trabalhos inéditos, mas só os leitores mais antigos da revista Ler ou da Viva Voz, entre outras publicações, guardariam memória impressa destas páginas.

O universo gráfico de Luís Manuel Gaspar alimenta-se da palavra literária, atribuindo-lhe sentidos que ecoam em pormenores meticulosos, figuras oníricas e imagens que, mesmo quando são literais, conferem ao verbo a certeza harmoniosa do seu justo significado. O traço fino, a tinta da china, e as cores densas e discretas, produzem vinhetas onde o detalhe é assombroso. Mas a minúcia de Gaspar não é artifício gratuito, nem realismo radical, e sim autêntica gramática visual, erguendo uma poética das formas e das cores que configura aquilo a que se poderia chamar, com justiça, uma obra ímpar. Quando posta em funcionamento, o que esta gramática produz não são poemas ilustrados com recurso à linguagem da banda desenhada, mas sim novas composições poéticas, desta vez não assentes unicamente no verbo, mas geneticamente compostas pelo texto original e a sua recriação, cruzando texto e imagem num único fôlego de ritmos e sentidos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no ActualExpresso, Dez. 2011)

Ao Norte: Vidas de Cinema

percutor angulo

Cinema e banda desenhada são frequentemente confundidos, aplicando-se à segunda termos e modos de leitura que dizem respeito ao primeiro. A confusão deve-se mais ao pouco rigor na utilização de instrumentos de análise da banda desenhada do que a um real paralelismo desta com o cinema, mas a partilha de planos de focalização e, muito mais importante, a relação entre texto e imagem em cada momento de visionamento/leitura tornam pertinente um olhar que relacione ambas as linguagens, sem que com isso se crie qualquer arrumação subsidiária entre elas. A Associação Ao Norte, que se dedica à animação cinematográfica e à manutenção de um cineclube em Viana do Castelo, criou, assim, uma colecção em formato de bolso intitulada ‘O Filme da Minha Vida’ onde cada volume convida um autor de banda desenhada ou um ilustrador a criar uma narrativa ou conjunto de imagens a partir de um filme por si escolhido. À edição de cada livro, sempre acompanhado por um texto introdutório (até agora, todos assinados por João Paulo Cotrim), segue-se uma exposição dos originais e a exibição do filme escolhido, com a presença do autor que o trabalhou em livro. O público destes encontros tem sido maioritariamente composto por alunos de escolas da região, no âmbito de disciplinas relacionadas com as artes, o audiovisual e a língua portuguesa, mas as sessões são abertas ao público em geral, que não tem deixado de comparecer.

Dirigida pelo artista plástico Tiago Manuel, a colecção parte de uma atitude de pesquisa, muito mais do que da simples curiosidade de ‘casar’ cinema e banda desenhada esperando que o resultado tenha interesse transversal. Essa atitude, visível nos textos introdutórios de Cotrim, extravasa a mera contextualização, contaminando os modos de trabalhar de cada artista convidado. Posta de parte a atitude fácil (e nada original) de recontar em vinhetas o que o filme contou no ecrã, os quatro autores já publicados encetaram caminhos diversos nas suas abordagens ao cinema. André Lemos, que inaugurou a colecção com O Percutor Harmónico, partiu de Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, seleccionando uma das cenas mais marcantes do filme (aquela em que Charles Bronson, acabado de sair do comboio, enfrenta três homens da pequena cidade, seguindo-se a interpretação, na harmónica, da conhecida melodia de Morricone) para a fragmentar em imagens de enorme força, que tiram partido da tintagem a negro que caracteriza o trabalho do autor. Daniel Lima, que escolheu O Deserto dos Tártaros, de Valerio Zurlini, para criar Epifanias do Inimigo Invisível, analisa momentos do filme através de uma pesquisa em torno dos efeitos do reflexo e da transparência, transpondo para o papel uma leitura que coloca questões sobre o modo de ver as imagens, em movimento ou plasmadas pela impressão. Jorge Nesbitt assina Sétimo Selo, a partir do filme homónimo de Ingmar Bergman, e plasma o momento do jogo com a Morte num diálogo intenso onde os silêncios ganham o peso das certezas inefáveis. E no mais recente número lançado, Ângulo Morto, João Fazenda desdobra Vertigo, de Hitchcock, em duas linhas narrativas que confluem para a resolução do enredo, trabalhando a oposição entre paisagem interior e exterior de um modo autónomo relativamente ao filme, mas nunca se perdendo do seu ponto de partida.

Os próximos títulos serão assinados por Filipe Abranches, Joana Figueiredo, Cristina Sampaio e Alice Geirinhas, confirmando a colecção da Ao Norte como um dos projectos mais interessantes e abrangentes da banda desenhada portuguesa contemporânea.

Sara Figueiredo Costa
(versão ligeiramente aumentada de um texto publicado na Ler, nº83, Set.09)