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Recortes: Morro da Favela

Morro_Favela

André Diniz (fotografias de Maurício Hora)
Morro da Favela
Polvo

A criação de discursos sobre as favelas, sejam de índole ficcional ou documental, cede muitas vezes ao registo da compaixão, ilustrando desgraças como se nada mais houvesse e afirmando um olhar onde a tolerância, esse sentimento tão sobrevalorizado como hediondo, acaba por transformar-se em pena. Para essa tipologia de discursos, André Diniz não oferece contribuições, procurando um registo mais quotidiano do que televisivo e definindo um olhar a partir de um filtro prévio, o olhar de Maurício Hora, fotógrafo nascido e criado no Morro da Providência. É dele a biografia que serve de matéria à narrativa de Morro da Favela, logo transformada em sinfonia do lugar quando Diniz lhe acrescenta os fragmentos de outras vidas, histórias de vizinhos e das suas famílias, os trabalhos precários, as discriminações quotidianas e os encontros com a polícia. Como diz o autor no prefácio, a vida numa favela é coisa que não existe, ou existe da mesma maneira que num bairro de classe média, uma aldeia rural, uma cidade pequena – não é diferente de qualquer outra comunidade e o ser favela não faz dela realidade homogénea ou com comportamento pré-definido.

Os recortes a negro sobre branco, angulosos e com forte contraste, convocam a encenação de um teatro de sombras, mas a ilusão de podermos assistir ao desenrolar de um enredo a partir da posição segura do espectador é desfeita pela perspicácia de um argumento que implica o leitor. É nesta proximidade entre personagens que sabemos reais e uma vida que podia ser a nossa que se constrói uma banda desenhada engenhosa no que à mise-en-page diz respeito e sem subterfúgios misericordiosos no que toca ao argumento, confirmando que ver, com os olhos ou a objectiva de uma câmara, é sempre mais do que olhar através de discursos prévios, preconceituosos e fechados.

 Sara Figueiredo Costa

(publicado no Expresso/Actual, Agosto 2013)

Recortes: Dois livros de Cyril Pedrosa

ESCAVAR RAÍZES

A empatia fará com que se veja Portugal (Asa) como um livro sobre o regresso às origens, e de certa forma é disso que se trata, ainda que o peso dessas origens não passe tanto pela nacionalidade, e sim pela família enquanto elemento fulcral para a definição de uma identidade. Simon Muchat, o narrador cujas semelhanças biográficas com Cyril Pedrosa permitem o abuso de o ler como alter-ego, é um jovem francês descendente de portugueses e o início da história encontra-o perdido entre uma relação amorosa condenada e a indefinição sobre o que fazer da vida. Essa terra de ninguém emocional leva-o a uma aproximação à família, em França, e é no convívio com os outros que começa a ganhar forma um olhar menos centrado no seu umbigo e a consequente vontade de perceber as histórias alheias. Nesse vórtice identitário, surge a vontade de conhecer Portugal, terra dos avós, e a viagem que acaba por transformar-se em estada prolongada será a matéria com que Simon moldará um novo olhar sobre si e os outros. O traço, equilibrando a definição pormenorizada e o registo de esboço, trabalha com dedicação as cores aguareladas, definindo predominâncias de um tons em função do episódio narrativo.

pedrosaportugal Pedrosasombras

Editado quase ao mesmo tempo que Portugal, o livro Três Sombras (Polvo) é anterior, tendo sido publicado em França em 2007. A preto e branco, o traço deixa reconhecer marcas que Pedrosa tem mantido, sobretudo ao nível dos apontamentos gráficos (nuvens, vestígios de movimento, etc), mas a modelação de personagens e cenários é menos sinuosa e mais arredondada, em consonância com o tom feérico da narrativa. A vida de uma família de camponeses é abalada por um oráculo que dita a morte do filho do casal, e esse é o ponto de partida para a fuga atribulada que pai e filho empreenderão, tentando contrariar o destino. Na sua aparente simplicidade, Três Sombras é uma narrativa densa, carregada de simbolismo e de referências arquetípicas onde não faltam as parcas, mas é sobretudo uma reflexão sobre o destino, a morte e o modo como os seres humanos sempre oscilaram entre a consciência da sua finitude e a vontade de lutar contra os ‘deuses’ para a impedir.

As diferenças entre os dois livros são notórias, no tipo de narrativa e no modo de a configurar gráfica e plasticamente, mas une-os um trabalho de introspecção sobre as pequenas tragédias individuais enquanto característica definidora do colectivo a que chamamos humanidade. E desse ponto de vista, os dois livros confirmam Pedrosa como um autor que importa acompanhar.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº120, Jan.2013)

Recortes: Paulo Monteiro, O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, Polvo

O Elogio da Leveza

Espalhado por revistas e fanzines de banda desenhada, o trabalho de Paulo Monteiro (n.1967) tem sido acessível apenas aos leitores de revistas e fanzines de banda desenhada. Neste volume reúnem-se cinco histórias já publicadas (no fanzine galego Barsowia ou em Café e Cigarros, uma edição da Bedeteca de Beja, onde o autor dirige o Festival Internacional de Banda Desenhada) e outras tantas inéditas, confirmando a solidez de um percurso que começou há já alguns anos, apesar da inconstância das suas aparições.

Criadas entre 2005 e 2010, as narrativas de Paulo Monteiro gravitam na órbita da memória, não enquanto instrumento de um qualquer exercício nostálgico, mas antes como elemento fundador das rotinas e dos afectos. Histórias de amor que contam mais do estado de enamoramento do que dos momentos que o enquadram, cartas enviadas de uma qualquer guerra, registos de momentos que vivem sobretudo das emoções experimentadas em cada gesto e uma introspecção que tanto se revela no olhar sobre o próprio corpo, em “Fico Com as Minhas Baratas” ou “Este Sou Eu”, como na dolorosa antecipação de uma fragilidade inevitável, em “Porque É Este o Meu Ofício”, uma história oferecida pelo protagonista ao seu pai.

Apesar de diversas na sua origem, as narrativas deste livro revelam uma forte unidade, desde logo gráfica, com um labor de figuração que alcança a excelência em vários momentos e com um traço que oscila entre a clareza da linha e a força da mancha de tinta, criando sombras e escuridão sempre que a luminosidade se espraia em demasia. E mesmo ao nível da composição e da representação figurativa, a memória é uma constante, das remissões para as Danças Macabras em “A Canção do Soldado” até aos elementos que convocam a figuração popular dos ex-votos em “O Enforcado”. Mas a unidade maior encontra-se no modo de abordar cada tema: no amor, na guerra ou na morte que há-de juntar-se à densa matéria das memórias, as narrativas de Paulo Monteiro respiram leveza, não a do ânimo, mas aquela de que falava Italo Calvino nas suas propostas para o milénio que haveria de ser o nosso, a leveza dos que se apoiam no peso do mundo para encontrarem na linguagem um modo de flutuar sobre as coisas.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Dez. 2010)

Dois livros

Amanhã, no Amadora BD, lançam-se dois livros: às 15h30, NewBorn – 10 Dias no Kosovo, de Ricardo Cabral (Asa), e às 16h00, O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, de Paulo Monteiro (Polvo).

Recortes: Miguel Rocha, Hans, o Cavalo Inteligente, Polvo

No fim do século XIX, um cavalo tornou-se o centro das atenções na Europa. Ensinado por um professor que se dedicava à pesquisa em áreas como a frenologia e o comportamento animal, Hans foi exibido em muitos palcos, provocando furor com a sua capacidade de responder a perguntas de conteúdo matemático ou geográfico. Wilhelm von Osten, o professor, perguntava, e Hans respondia batendo com o casco no chão o número de vezes adequado. Em 1904, um estudo concluiu que, na verdade, Hans não sabia contar ou ler, ‘respondendo’ em função da ansiedade e da linguagem corporal de quem o interrogava. Não havia intrujice propositada, mas antes a crença colectiva (professor incluído) numa interpretação desfasada da verdade.

A partir de uma peça de Francisco Campos, levada à cena pelo Projecto Ruínas, Miguel Rocha transporta para o registo gráfico-narrativo alguns elementos da linguagem teatral, partindo do texto dramático sem a ele se submeter e colocando Hans, o cavalo, no centro de uma narrativa que confronta a verdade com aquilo que dela se espera. Enquadrado por um extra-texto essencial para uma leitura completa, onde se incluem as badanas, remetendo para outros números de variedades, e quatro páginas com anúncios de jornal que permitem assumir algumas continuações diegéticas, este ‘Drama Anatómico em Cinco Partes’ explora o espaço existente entre a crueza dos factos e o que deles se pode inferir, construindo uma narrativa onde as personagens se movem em função do que acreditam ser verdade, mesmo quando isso as coloca perante o abismo da inverosimilhança. Do lado de Hans, cuja ausência de inteligência perde importância perante uma fragilidade injusta, proporcionada pela exploração e pela violência com que é tratado, apenas o silêncio se escuta. Ainda que, numa única vinheta, Hans pareça falar, a certeza dessa impossibilidade é proporcional ao desejo de ouvi-lo da sua interlocutora. A cada acto, agigantam-se os gestos de bestialidade por parte de quantos gostariam de ver no animal aquilo que ao ser humano se supunha pertencer.

Com o recurso ao preto e branco, que Rocha domina no suporte digital com uma plasticidade que em nada deve aos carvões e às tintas, a narrativa engendra camadas, texturas e enquadramentos onde os primórdios da fotografia e a estética do cinema expressionista são elementos notoriamente convocados. Instaura-se, assim, uma marca de época que situa Hans no seu tempo, mesmo que a constante fragmentação e a manipulação dos factos em favor da dúvida lhe confiram uma sublime intemporalidade. Nesta história, até o cavalo parece estar certo de ser algo que não é.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Atual, do Expresso, Set. 2010)