Tag Archives: Pedro Serpa

Recortes: David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo

palmasesquilo

David Soares e Pedro Serpa
Palmas Para o Esquilo
Kingpin Books

David Soares tem construído a sua obra em banda desenhada através de livros onde podemos identificar uma história, enquanto sequência de acontecimentos contados a partir de um determinado ponto de vista, mas onde o magma narrativo é essencialmente alimento para outras reflexões. Em Palmas Para o Esquilo, onde volta a trabalhar com o desenhador Pedro Serpa (de O Pequeno Deus Cego), Soares leva um pouco mais longe aquilo que já pode, ao fim de tantos livros, entender-se como um programa, elaborando uma história onde o registo ensaístico é eixo fundamental.

Duas linhas diegéticas correm em simultâneo, uma pela voz do narrador, outra pela acção concomitante de imagem e texto em balões de fala. Se a segunda é a que permite acompanhar a história do protagonista (internado naquilo que parece ser um manicómio), através de uma analepse que recua à sua infância e à origem de certas obsessões, a primeira é a que alimenta o gesto, visceral mas metódico, de reflectir sobre a loucura. Nessa reflexão, Soares faz desfilar teorias e arcanos, visões teológicas e interpretações psicanalíticas, sempre num discurso mais voltado para ser alavanca de pensamentos do que para impor conclusões sobre o tema. A linha clara de Pedro Serpa não oferece diálogo ou desafio, cumprindo com segurança e sem fulgor a construção narrativa de David Soares, mas essa fraqueza acaba por colocar do lado do argumento e da storyboard o ónus de força deste livro, oferecendo à arquitectura narrativa e ao seu conteúdo um palco iluminado onde podem brilhar as questões, o raciocínio e as dúvidas de Soares sobre o modo como nos relacionamos com o mundo e com o inferno que, de um modo civilizado ou, pelo contrário, desregrado, guardamos por entre as meninges.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso/Actual, Dez. 2013)

Anúncios

Recortes: O Pequeno Deus Cego

David Soares e Pedro Serpa
O Pequeno Deus Cego
Kingpin Books

Quem acompanha o trabalho de David Soares (1976), não só os argumentos para banda desenhada mas igualmente os romances, sabe que o campo da História é terreno fértil para as suas narrativas. Em O Pequeno Deus Cego, é a China antiga que fornece as coordenadas, um local bem definido para um tempo que se supõe feudal, mas onde a ruralidade é a marca mais visível e a ligação entre Homem e terra o traço mais relevante. Em parceria com Pedro Serpa (1975), cujo desenho equilibra a linha clara com a profundidade de campo e a pormenorização que o argumento exige, David Soares cria uma banda desenhada marcada por referências simbólicas e com potencial para vários níveis de leitura.

A história tenebrosa de Sem-Olhos, o menino cego que a mãe mandou castrar à nascença para ser educado como uma menina, não destoa do cenário escolhido e dos elementos que ajudam a defini-lo. A referência à prática de mutilar os pés para que não cresçam e se adaptem aos delicados sapatos femininos exemplifica bem o quanto este argumento tira partido do contexto histórico e social da China antiga para construir o seu enredo, criando imagens tão fortes quanto harmoniosas em relação a esse contexto. Mas a história de Sem-Olhos é, antes de mais, uma alegoria em torno da ignorância e da urgência do seu antídoto, e como tal podia situar-se em qualquer tempo e contexto.

Acompanhando Sem-Olhos na busca pela verdade do seu passado, O Pequeno Deus Cego questiona o lugar e o destino de um ser tão insignificante naquilo a que chamamos Universo e coloca a personagem no papel clássico de quem passa das trevas para a luz – não falta o enfrentamento com um monstro das profundezas nem o auxílio de um velho sábio e de um animal simbólico. Que o faça entre paisagens orientais e mitos universais só reforça a habilidade de Soares para explorar a natureza humana a partir de tempos e lugares concretos, mas projectando as suas incertezas e os seus gestos mais memoráveis ao longo de um arco cronológico sem princípio nem fim.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº109, Jan.2012)

Amadora BD: O Pequeno Deus Cego

Daqui a pouco, às 15h30, o Amadora BD recebe a apresentação do livro O Pequeno Deus Cego, de David Soares e Pedro Serpa (edição Kingpin Books).