Monthly Archives: Janeiro 2011

Diários Gráficos em Almada

No próximo Sábado, dia 29, pelas 17 horas, no Museu da Cidade de Almada, inaugura-se a exposição Diários Gráficos em Almada. Não somos desenhadores perfeitos. São trinta desenhadores, centenas de cadernos originais e cerca de seiscentas imagens, para além de depoimentos dos autores e projecções onde pode acompanhar-se o processo de trabalho de três deles.


Antecipando a exposição, pode ver-se/ler-se o catálogo aqui.


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Angoulême 2011

Começou hoje. As exposições, os nomeados para os prémios e toda a informação para quem quer acompanhar o Festival de Angoulême à distância, aqui.

Júcifer na Dama Aflita

Júcifer na Dama Aflita, para ver até ao dia 26 de Fevereiro, no Porto.

Recortes: Paulo Monteiro, O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, Polvo

O Elogio da Leveza

Espalhado por revistas e fanzines de banda desenhada, o trabalho de Paulo Monteiro (n.1967) tem sido acessível apenas aos leitores de revistas e fanzines de banda desenhada. Neste volume reúnem-se cinco histórias já publicadas (no fanzine galego Barsowia ou em Café e Cigarros, uma edição da Bedeteca de Beja, onde o autor dirige o Festival Internacional de Banda Desenhada) e outras tantas inéditas, confirmando a solidez de um percurso que começou há já alguns anos, apesar da inconstância das suas aparições.

Criadas entre 2005 e 2010, as narrativas de Paulo Monteiro gravitam na órbita da memória, não enquanto instrumento de um qualquer exercício nostálgico, mas antes como elemento fundador das rotinas e dos afectos. Histórias de amor que contam mais do estado de enamoramento do que dos momentos que o enquadram, cartas enviadas de uma qualquer guerra, registos de momentos que vivem sobretudo das emoções experimentadas em cada gesto e uma introspecção que tanto se revela no olhar sobre o próprio corpo, em “Fico Com as Minhas Baratas” ou “Este Sou Eu”, como na dolorosa antecipação de uma fragilidade inevitável, em “Porque É Este o Meu Ofício”, uma história oferecida pelo protagonista ao seu pai.

Apesar de diversas na sua origem, as narrativas deste livro revelam uma forte unidade, desde logo gráfica, com um labor de figuração que alcança a excelência em vários momentos e com um traço que oscila entre a clareza da linha e a força da mancha de tinta, criando sombras e escuridão sempre que a luminosidade se espraia em demasia. E mesmo ao nível da composição e da representação figurativa, a memória é uma constante, das remissões para as Danças Macabras em “A Canção do Soldado” até aos elementos que convocam a figuração popular dos ex-votos em “O Enforcado”. Mas a unidade maior encontra-se no modo de abordar cada tema: no amor, na guerra ou na morte que há-de juntar-se à densa matéria das memórias, as narrativas de Paulo Monteiro respiram leveza, não a do ânimo, mas aquela de que falava Italo Calvino nas suas propostas para o milénio que haveria de ser o nosso, a leveza dos que se apoiam no peso do mundo para encontrarem na linguagem um modo de flutuar sobre as coisas.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Dez. 2010)

Sobre a Bedeteca de Lisboa

As notícias do apagamento da Bedeteca já circulam, depois de longos meses de uma destruição silenciosa de que só se apercebeu quem por lá passava regularmente. O problema não está na suposta ‘racionalização de recursos’, como diz a notícia do Diário Digital, citando o director municipal de cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Francisco da Motta Veiga; racionalizar recursos está muito bem, sobretudo em tempo de crise, mas aqui trata-se de apagar totalmente a autonomia de uma instituição que mantém uma actividade ímpar há vários anos, anulando quaisquer hipóteses de programação (coisa que já vem de há muito, com o fim do Salão Lisboa ou o encerramento da sala de exposições, com o fim do projecto editorial que ajudou a renovar a banda desenhada portuguesa, abrindo-a ao pensamento crítico e criando uma rede de contactos que originou muitos projectos relevantes, nacional e internacionalmente, e com o progressivo estrangulamento de uma autonomia que, era visível, permitia fazer muito com muito pouco, mercê do entusiasmo das pessoas que trabalharam na Bedeteca e da rede de apoio que foram construindo – e isso é que é racionalizar recursos, senhor director municipal.). O que agora se tornou público já ameaçava há muito tempo, e a crise há-de servir, como sempre, para os burocratas deste país darem cabo do que vai funcionando e deixando obra relevante, mesmo com poucos recursos. Perde-se a Bedeteca e com isso perde-se o acesso regular a exposições de banda desenhada de autor, ou de ilustradores que em poucos outros espaços serão visíveis, bem como a leitura de um fundo bibliográfico em suposto crescimento onde não pontuam apenas os Patinhas e os Astérix (sem desprestígio algum para ambos), a disponibilidade de uma equipa que sabe do que está a falar e com que matéria está a trabalhar, o espaço para o debate e o encontro em torno de autores, trabalhos, projectos e correntes que, lá fora, se desenvolvem dentro e fora de instituições, criando diálogos proveitosos, mas que aqui, pelos vistos, serão relegadas para outros planos. Tudo mercê da racionalização de recursos, esse chavão que não poupa dinheiro a ninguém e que vai destruindo coisas que valem a pena com o argumento de ser preciso acabar com as que não valem.

(SFC)

Recortes: Jacques Tardi, Adèle Blanc-Sec (vol.1), Ed. Asa

O Regresso de Uma Senhora

Não é a primeira vez que se edita Tardi em Portugal, nem sequer esta obra. Numa recorrência tão frequente no nosso mercado editorial de banda desenhada, a Asa regressa a Adèle Blanc-Sec depois da extinta Witloof o ter feito pela última vez há sete anos. Apesar disso, e tendo em conta a velocidade a que as novidades desaparecem das livrarias, o regresso de Tardi não é de desprezar.

Cultor de um traço que se poderia integrar na chamada linha-clara e de uma narrativa devedora dos grandes textos policiais e aventureiros da primeira metade do século passado, esta obra de Tardi, originalmente publicada a partir de 1976, integra-se no vasto universo da banda desenhada franco-belga de aventuras, sem que a sua herança se desvaneça na homogeneidade que alguns dos integrantes deste universo alimentam. Adèle é uma personagem com características tão perfeitas para um enredo de mistério que só as contradições da sua personalidade e o charme de uma certa rebeldia nos modos evitam que caia no cliché. Escritora free-lancer, sobretudo de livros relacionados com o mundo do crime, Adèle acaba por coleccionar uma agenda de contactos nada recomendável, sobretudo para uma senhora no início do século XX. Esse perfil e a sua incontrolável curiosidade, aliados ao semblante duro, à sagacidade do olhar e à imparável acção com que Tardi a plasmou, garantem-lhe uma aura próxima das primeiras sufragistas, sem o peso da reivindicação político-social, mas com a postura de quem derruba qualquer obstáculo.

Ambientado na Paris da primeira década do século passado, o primeiro volume destas aventuras (que reúne os dois primeiros volumes da série, Adèle e o Monstro e O Demónio da Torre Eiffel) estrutura-se em torno de duas intrigas envolvendo objectos históricos, o primeiro, um ovo de dinossauro que eclode misteriosamente vários milhões de anos depois, e o segundo, uma estatueta assíria à volta da qual uma seita parisiense se organiza. O argumento apresenta a clássica estrutura policial, com o desfecho definido pela intervenção da (anti)heroína Adèle, mas é prejudicado pela profusão de dados que obrigam a uma recapitulação constante, frequentemente pela voz de uma das personagens, num gesto narrativo algo forçado. Apesar disso, os cenários, a riqueza psicológica de Adèle e as reviravoltas narrativas em direcção à resolução de cada caso fazem desta uma obra merecedora de resgate de entre o infindável, e por vezes repetitivo, filão das aventuras com origem franco-belga.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Nov.2010)

Tinta nos Nervos

Tinta nos Nervos, uma exposição sobre banda desenhada portuguesa, inaugura na segunda-feira e pode ser vista até ao dia 27 de Março no Museu Berardo. Quem espera ‘fantasia juvenil’, ‘bonecada’ e ‘entretenimento para infantes’, tire daí a ideia. Para saberem mais, leiam o texto do Pedro Vieira de Moura, responsável pela exposição, aqui.