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Recortes: QUIM E MANECAS À CONQUISTA DA MODERNIDADE

Stuart Carvalhais, Quim e Manecas 1915-1918, Tinta da China

Com os primeiros passos da República portuguesa e o eclodir da I Guerra, as páginas da imprensa periódica transbordaram de caricaturas satíricas e registos irónicos dedicados à agitação política e à incerteza geo-estratégica da época. É nesse contexto, em 1915, que surgem as primeiras aventuras de “Quim e Manecas”, de Stuart Carvalhais, n’O Século Cómico (suplemento do jornal O Século), inicialmente intituladas “Quim, Manecas e o seu cão Piloto”, e se o pouco reconhecimento de que a banda desenhada tem no chamado meio cultural não permite perceber que género de revolução se deu com o surgimento dos dois personagens, a leitura das suas pranchas, agora publicadas pela Tinta da China, com introdução e notas de João Paulo de Paiva Boléo, chegará para resolver o assunto.

Quim e Manecas são herdeiros dos pioneiros da banda desenhada europeia, de Töpffer e Hoffmann aos artistas da mítica revista Punch, bem como dos funnies que a imprensa norte-americana publicava com regularidade. Estão lá as estruturas típicas dos gags, a complementaridade equilibrada entre imagem e verbo e até a influência de Yellow Kid na aparência e no movimento de Manecas, mas está sobretudo a genialidade de Stuart, que empurrou uma linguagem ainda em formação em direcção ao seu futuro e a usou para retratar um país a partir de um olhar tão popular e doméstico como cosmopolita.

A estrutura mais comum nestas curtas narrativas, e aquela que inaugura o estilo de Quim e Manecas, assenta nas partidas que os dois personagens aplicam indiscriminadamente – o gato ou o cão, os guardas republicanos ou os ‘talassos’, a Dona Leocádia ou os boches são algumas das vítimas, sempre com diatribes escolhidas a preceito. Essa estrutura permite um reconhecimento que se torna relevante quando sabemos que as aventuras eram publicadas separadamente, continuando no número seguinte do jornal, tanto como ajuda a caracterizar a personalidade de Quim e Manecas, duas crianças que brincam à solta pelas ruas, escolhendo as brincadeiras com ingenuidade inversamente proporcional ao sadismo das suas partidas e à maturidade das suas ideias e comentários. Apesar da inclusão no suplemento infantil, o humor de Stuart não tem como principal receptor as crianças, que poderiam degustar (ou invejar) as tropelias mas dificilmente perceberiam os comentários de teor político-social, e esses são uma parte considerável do património desta série. Mas Stuart não reduz Quim e Manecas à chalaça das partidas, envolvendo-os nos acontecimentos que marcavam o país e o mundo, quando os faz prisioneiros dos alemães ou combatentes nas trincheiras dos Aliados, quando os coloca no cenário arruaceiro dos confrontos entre facções republicanas ou quando os promove a inspectores da secreta procurando resolver o Crime do Barreiro, e dando-lhes voz para comentar, com o mesmo grau de interesse, os seus dissabores quotidianos de crianças e as grandes questões nacionais através de uma parafernália de recursos verbais que cruzam o calão popular de Lisboa com a suposta erudição do latim macarrómico, o jargão republicano com provérbios e adágios. E depois há as invenções de Manecas, momentos sublimes de delírio tecnológico (a lembrar, como refere Paiva Boléo, as engenhocas de Heat Robinson, que se publicava por cá na Ilustração Portuguesa) em que se cruzam a imaginação sem limites e com o seu quê de diabólico do personagem com as possibilidades narrativas que cada maquineta permite. Veja-se o motor a gato e rato que resolve a crise do carvão e merece condecoração pelo próprio Afonso Costa, o avião transformado em cana de pesca que prende vários alemães pelo nariz ou a lupa gigante que incendeia Berlim.


A leitura de Quim e Manecas confirma que a grande inovação de Stuart remete para a linguagem da banda desenhada e para o modo de utilizar os seus recursos, mesmo que sejam o humor e um certo retrato de época a ficar gravados na memória. Como pode ler-se na introdução de Paiva Boléo, “tendo presente a lição americana (que era necessariamente conhecida), e muito antes da maturidade que a BD europeia só atingiria nos anos 1930, surge uma BD com uma qualidade gráfica, uma leveza e desenvoltura, uma modernidade que se revela no ritmo, no humor e até na utilização de balões que na europa, de forma consistente, nunca se vira nem veria por uma década ainda.” (p.22) De facto, a graciosidade da progressão diegética, o modo como Stuart lida com as contigências do espaço, atribuindo às falas (primeiro em balões, depois em legenda) um papel crucial na composição narrativa, e o contraste entre a ingenuidade infantil dos personagens e a sua atitude impetuosa e desbocada fazem de Quim e Manecas protagonistas de primeira linha da banda desenhada portuguesa e europeia. A essas características junta-se a harmonia na combinação de um traço que retoma a produção de outras escolas de banda desenhada com elementos que avançam com nitidez pelas linhas do Modernismo e das suas primeiras expressões, mesmo que Manecas se divirta a replicar o Futurismo num poema que não só é gozado por Quim como ainda contribui para a derrocada de uma mercearia lisboeta.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº99, Fev.2011

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Boas notícias:

Deve estar quase a chegar às livrarias. A edição é da Tinta da China, a organização, a introdução e o glossário são de João Paulo de Paiva Boléo.

Recortes: Heróis de Lisboa


(Filipe Melo e Juan Cavia, As Incríveis Aventuras de Dog Mendoza e Pizza Boy, Tinta da China)

Com um panorama editorial tão pobre como é o da banda desenhada em Portugal, há livros que podiam surgir com estrondo e que correm o risco de passar despercebidos. A injustiça pode bem acometer As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy, mas não será por falta de aviso. Filipe Melo, conhecido pela realização do primeiro filme de zombies feito em Portugal (I’ll See You in My Dreams) e pela sua prestação no jazz, estruturou um argumento digno da melhor tradição pulp fiction, prestando homenagem a momentos icónicos do cinema mais comercial das últimas décadas e a toda uma parafernália de referências da cultura pop, entre bandas desenhadas de prestígio duvidoso e clichés narrativos importados da melhor tradição hollywoodesca. E a parceria com Juan Cavia, o argentino que assina o desenho, concretizou de modo certeiro a criação dos ambientes escuros que definem a narrativa e garantiu uma harmonia sem a qual o ritmo, a definição dos personagens e a ironia dificilmente teriam resultado.

A figura do detective privado do oculto, Dog Mendonça, não esconde as influências de Hellboy, de Mike Mignola, e até de Constantine Hellblazer, personagens reconhecidas no universo dos comics norte-americanos, aqui agilmente misturadas com os ambientes (e as improbabilidades) de filmes como Regresso ao Futuro ou As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim. A sua missão de ajudar Pizzaboy a recuperar a moto que lhe foi roubada, aceite, como é de bom tom nestas coisas, um pouco contra vontade, rapidamente se transforma numa demanda heróica para salvar as crianças misteriosamente desaparecidas em Lisboa. Daí para a conspiração nazi que se esconde nos esgotos da capital, com uma galeria de monstruosidades, nem sempre maléficas, a incrementarem o caos de referências, é um salto que Melo e Cavia sabem dar à medida de uma paródia que se leva a sério, respeitando os contornos dos muitos géneros que convoca sem nunca deixar cair o movimento de suspensão em direcção ao desenlace.

Com um espectro de géneros tão amplo como o de qualquer outra linguagem, a banda desenhada tem produzido monumentos estético-narrativos com a mesma elegância com que produz lixo de entretenimento, sem que, muitas vezes, o ‘radar crítico’ de que falou Art Spiegelman os distinga. Com Dog Mendonça e Pizza Boy o patamar é outro, longe da elevação estética de algumas obras já canónicas, mas seguramente num espaço onde a inteligência se faz pastiche e a auto-ironia ganha fôlegos de lei universal.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº90, Abr. 2010)