Monthly Archives: Janeiro 2013

Angoulême 2013

angouleme40

A 40ª edição do Festival de Angoulême começa hoje. Quem não pôde ir até França, pode acompanhar tudo aqui.

ABC da Edição Digital

navespecial

Na passada segunda-feira, o auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian recebeu a primeira conferência sobre edição digital de livros para crianças, uma organização da Nave Especial, projecto que junta a editora Pato Lógico e a Biodroid. Seis painéis e três apresentações individuais preencheram o programa, perante uma sala cheia que ajudou a confirmar a urgência de debater o tema – o mercado português do livro digital para crianças é ainda residual mas a vontade de muitos agentes ocuparem o seu espaço nele é cada vez mais evidente.

O balanço do dia de debate é claramente positivo. Percebeu-se o muito que ainda há para discutir e ficou no ar uma certa sensação de tudo estar ainda a começar, pelo menos no mercado português, onde os exemplos de livros para crianças em suporte digital, sobretudo os chamados enhanced books, são poucos. Perceber o muito que há para discutir e o pouco material que temos à mão para o fazer é, no entanto, um bom começo. Cruzar saberes e experiências tão diferentes como a relação dos autores com o universo digital, as práticas empresariais de companhias associadas à produção de tecnologia para os livros digitais ou o estudo da leitura e da recepção destes novos livros foi um dos aspectos mais positivos da conferência, porque abriu o horizonte de debate, em vez de o encerrar numa só perspectiva, gesto sempre pobre se o que se quer é perceber o quadro geral.

O grande mérito desta conferência foi constatar a necessidade de discussão. O mundo digital está aí, há já algum tempo, e percebê-lo (quer para efeitos de análise, quer para agir dentro dele, através da edição de livros, da criação de mecanismos reguladores das várias questões envolvidas na edição em plena era glonal ou da produção de tecnologia) é meio caminho andado para animar um mercado que, em Portugal, é ainda diminuto. Os escritores, ilustradores, designers e editores que queiram lançar-se neste admirável mundo novo têm tudo a ganhar com o conhecerem-no a fundo, sem os soundbytes que dizem que o livro impresso vai acabar, ou os que dizem que a juventude está perdida porque passa o dia a olhar para um écrã. Os que já lá estão não desmentem esse ganho. Se pudermos juntar toda a gente, dos envolvidos na cadeia de produção do livro aos agentes que dominam a tecnologia e a programação necessárias para a sua criação em ambiente digital, passando pelos mediadores, pelos críticos, pelos divulgadores, pelos investigadores de várias áreas necessariamente cruzadas, então estaremos prontos para abraçar o desafio de trabalhar num ambiente novo, tão cheio de desafios como o paradigma que conhecemos desde Gutenberg e com a vantagem de não termos de escolher entre ambos. O ABC da Edição Digital confirmou-o e, tendo em conta o entusiasmo posto na organização e a vontade de contar com gente tão diferente para a sua concretização, há-de continuar a confirmá-lo.

No campo do que correu mal, há que apontar a gestão do tempo. Digamos que um dia de debate para tantas intervenções não foi a melhor solução, mesmo para o arranque de um projecto que se quer de continuidade. Dez minutos por intervenção tiveram duas consequências: quem cumpriu o tempo viu-se obrigado a não desenvolver raciocínios e ideias que mereciam mais explanação para se tornarem claros e para motivarem um debate mais informado, quem não cumpriu ajudou a atrasar todos os painéis (e disso me queixo também porque falei no último painel antes do almoço, já com mais de uma hora de atraso, e parece-me que o que podia ter sido uma boa conversa sobre as especificidades do digital no campo da crítica e da divulgação jornalística acabou por ser uma conversa rápida e superficial sobre o assunto, a correr para apanhar o almoço antes que toda a conferência se estendesse pela noite dentro). O que não deixa de ser uma crítica relativamente ao funcionamento deste primeiro ABC da Edição Digital é também uma constatação sobre o tanto que se apresentou na Gulbenkian, as muitas áreas que se cruzam no digital e as muitas ferramentas de análise requeridas para a sua compreensão. Para o ano, fica a sugestão: dois dias, com o mesmo número de painéis.

No fim da conferência, a Nave Especial apresentou o Prémio Histórias Digitais Ilustradas, um galardão que irá escolher dois projectos e permitir a sua concretização. Até ao final de Março, os autores podem concorrer sozinhos ou em equipas, apresentando um guião exequível e um conjunto de imagens que permitam perceber o resultado final. Os dois projectos escolhidos, um na categoria Histórias Infantis Ilustradas, outro na categoria Histórias Ilustradas, serão transformados em aplicações e os seus autores receberão um adiantamento sobre os direitos das vendas, para além do pagamento posterior em função do número de descargas. Para além dos vencedores de cada categoria, o júri escolherá ainda um top 10, distinguindo outros trabalhos que, não tendo a possibilidade de se verem transformados em aplicações, beneficiarão de uma apresentação pública na Feira Infantil de Bolonha. Tudo bons motivos para que o mercado português de aplicações e enhanced books deixe de ser residual.

(SFC)

O Hábito Faz o Monstro, o livro

habitomonstro

No próximo dia 2 de Fevereiro, na SMUP (Parede), lança-se o livro O Hábito Faz o Monstro, de Lucas Almeida, numa edição antológica da Chili Com Carne.

Workshop Colagem Digital

wsRichard

Novo workshop de Richard Câmara, Ilustrar com Colagem Digital, na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Inscrições aqui.

Blimunda #8, BD e Reportagem

Blimunda8

O número 8 da revista Blimunda, da Fundação José Saramago, já está disponível para leitura. O tema de capa: Meios Cruzados – Banda Desenhada e Reportagem. A descarga é gratuita e pode ser feita aqui.

Dicionário de Ilustradores Iberoamericanos

dicioilustr

É um projecto recente com informação sobre dezenas de ilustradores, já está on-line e espera-se que possa ir crescendo com novas entradas. Da Argentina à Venezuela, passando por Portugal, estão lá muitos nomes cujo trabalho vale a pena conhecer. Aqui.

Recortes: Um balanço de 2012

O texto que saiu no Expresso (Actual), com o meu balanço de 2012 no capítulo da banda desenhada e da ilustração, era um pouco mais pequeno, mas publico aqui a versão sem limite de caracteres, bem como a lista dos dez livros que escolhi de entre os que foram publicados em Portugal no ano que passou:

Marco Mendes, Diário Rasgado, Mundo Fantasma/Turbina
Carlos Pinheiro e Nuno Sousa, Sobrevida, Imprensa Canalha
Marjane Satrapi, Persépolis, Contraponto
Paula Carballeira e Sonjia Danowski, O Princípio,Kalandraka
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, Ir e Vir, Planeta Tangerina
Anouck Boisrobert, Louis Rigaud e Sophie Strady, Na floresta da preguiça, Bruaá
Tatiana Salem Levy e Vera Tavares, Curupira Pirapora, Tinta da China
Ciryl Pedrosa, Portugal, Asa
Alison Bechdel, Fun Home, Contraponto
Benjamin Chaud, A Cantiga do Urso, Orfeu Negro

Só o futuro o dirá, e terá de o dizer contra a crise que tudo ameaça, mas este poderá ter sido o ano em que a banda desenhada voltou a ser publicada a pensar em leitores adultos e exigentes, e não exclusivamente em coleccionadores ou ‘bedéfilos’. Persépolis, a obra mais reconhecida de Marjane Satrapi, e Fun Home, de Alison Bechdel, saíram na Contraponto, uma chancela algo inesperada para o germinar de um catálogo que, a seguir esta linha, tem tudo para ser extraordinário. O volumoso Blankets, de Craig Thompson, chegou finalmente ao mercado português (com chancela Devir), ainda que envolto em encómios que dizem mais sobre algum desconhecimento do panorama da bd mundial do que sobre o próprio livro – um marco importante, sim, mas não propriamente uma obra-prima. A Asa apostou em Portugal, de Cyril Pedrosa, e marcou o ano com essa aposta.
A edição de pequena escala, entre aquilo a que chamam alternativos e projectos que não têm maior expressão comercial porque a dimensão do mercado não o permite, confirmou o seu papel. Marco Mendes publicou um livro essencial, a Polvo editou livros de Rui Lacas e Cyril Pedrosa (de certo modo, replicando os autores da Asa com livros menos destinados ao sucesso comercial, mas nem por isso menos pertinentes), a Imprensa Canalha voltou a apresentar uma selecção de luxo e vários projectos, quase todos fora do alcance do radar comercial e crítico, deixaram marcas duradouras neste ano que agora finda.

No capítulo dos álbuns e da ilustração, o ano voltou a ser memorável, facto que nada deve à quantidade de livros publicados num sector que terá menos motivos para se ressentir da crise do que outros, mas antes à construção criteriosa dos catálogos de algumas editoras, entre projectos muito recentes e outros já firmados. Para além das escolhas da lista, é importante registar o trabalho de editoras como a Bags of Books e a Tcharan, recentes, a Caminho e a Livros Horizonte, que permanece como referências imprescindíveis, a Pato Lógico, dividida entre o impresso e o digital, e a Boca, com o texto e a imagem a apoiarem audiolivros de excelência.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Expresso, suplemento Actual, Dezembro 2012)