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Recortes: Dois livros de Cyril Pedrosa

ESCAVAR RAÍZES

A empatia fará com que se veja Portugal (Asa) como um livro sobre o regresso às origens, e de certa forma é disso que se trata, ainda que o peso dessas origens não passe tanto pela nacionalidade, e sim pela família enquanto elemento fulcral para a definição de uma identidade. Simon Muchat, o narrador cujas semelhanças biográficas com Cyril Pedrosa permitem o abuso de o ler como alter-ego, é um jovem francês descendente de portugueses e o início da história encontra-o perdido entre uma relação amorosa condenada e a indefinição sobre o que fazer da vida. Essa terra de ninguém emocional leva-o a uma aproximação à família, em França, e é no convívio com os outros que começa a ganhar forma um olhar menos centrado no seu umbigo e a consequente vontade de perceber as histórias alheias. Nesse vórtice identitário, surge a vontade de conhecer Portugal, terra dos avós, e a viagem que acaba por transformar-se em estada prolongada será a matéria com que Simon moldará um novo olhar sobre si e os outros. O traço, equilibrando a definição pormenorizada e o registo de esboço, trabalha com dedicação as cores aguareladas, definindo predominâncias de um tons em função do episódio narrativo.

pedrosaportugal Pedrosasombras

Editado quase ao mesmo tempo que Portugal, o livro Três Sombras (Polvo) é anterior, tendo sido publicado em França em 2007. A preto e branco, o traço deixa reconhecer marcas que Pedrosa tem mantido, sobretudo ao nível dos apontamentos gráficos (nuvens, vestígios de movimento, etc), mas a modelação de personagens e cenários é menos sinuosa e mais arredondada, em consonância com o tom feérico da narrativa. A vida de uma família de camponeses é abalada por um oráculo que dita a morte do filho do casal, e esse é o ponto de partida para a fuga atribulada que pai e filho empreenderão, tentando contrariar o destino. Na sua aparente simplicidade, Três Sombras é uma narrativa densa, carregada de simbolismo e de referências arquetípicas onde não faltam as parcas, mas é sobretudo uma reflexão sobre o destino, a morte e o modo como os seres humanos sempre oscilaram entre a consciência da sua finitude e a vontade de lutar contra os ‘deuses’ para a impedir.

As diferenças entre os dois livros são notórias, no tipo de narrativa e no modo de a configurar gráfica e plasticamente, mas une-os um trabalho de introspecção sobre as pequenas tragédias individuais enquanto característica definidora do colectivo a que chamamos humanidade. E desse ponto de vista, os dois livros confirmam Pedrosa como um autor que importa acompanhar.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº120, Jan.2013)

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Recortes: Ricardo Cabral, NewBorn – 10 Dias no Kosovo, Asa

Depois de Israel Sketchbook, Ricardo Cabral retoma a viagem como ponto de partida para um livro, desta vez rumando à cidade de Pristina, no Kosovo, com o pretexto de recolher dados para uma banda desenhada em construção. O pretexto acaba por desvanecer-se, mas o registo da passagem por Pristina organiza-se sob a forma de um outro livro, NewBorn – 10 Dias no Kosovo. Onde Israel Sketchbook se socorria da viagem como processo de construção narrativa, NewBorn utiliza o registo gráfico como modo de observação. Apesar de alguns imprevistos devidamente anotados, o narrador de NewBorn é sobretudo um sujeito observador, disposto a registar o que vê para melhor esboçar o processo de compreender um espaço que tem sido lugar de mutações várias.

Marcado pelos traços sobrepostos à medida da urgência (o tempo de desenhar raramente se coaduna com o projecto de apreender um determinado momento), e pelas indagações em torno das relações dos habitantes de Pristina com a herança do passado, o percurso narrativo regista sobretudo a surpresa de descobrir uma cidade indistinta no que à rotina diz respeito. Apesar da guerra recente, não há vestígios de perturbação nos quotidianos, facto que surpreende o narrador. Querendo ser um registo de viagem, NewBorn acaba por construir-se como um desengano: da ingenuidade associada à ideia de que a guerra faz parar o mundo (como se o mundo não estivesse permanentemente em guerra, independentemente dos espaços que a acolhem) até à constatação, logo nas primeiras pranchas, de que os que não morrem persistem, mesmo durante a guerra (sobretudo durante a guerra). É nessa descoberta que NewBorn encontra a harmonia do seu registo.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Actual, Expresso, 4 Dez. 2010)

Dois livros

Amanhã, no Amadora BD, lançam-se dois livros: às 15h30, NewBorn – 10 Dias no Kosovo, de Ricardo Cabral (Asa), e às 16h00, O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, de Paulo Monteiro (Polvo).