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Mário de Sá Carneiro ilustrado por Tiago Manuel

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A Antologia Poética de Mário de Sá Carneiro, com ilustrações de Tiago Manuel (edição da Kalandraka), lança-se hoje à noite, pelas 21h30, na Papa-Livros, e amanhã, pelas 16h30, na Gigões e Anantes.

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Recortes: O Princípio

Paula Carballeira e Sonjia Danowski
O Princípio
Kalandraka
Tradução de Elisabete Ramos

No campo de concentração de Terezin, à semelhança do que aconteceu em muitos dos campos com que a infâmia nazi assinalou o século XX, um conjunto de desenhos feitos por crianças sobreviveu à matança. O testemunho que esses desenhos prestam confirma uma verdade difícil de assimilar: apesar do horror, a humanidade continua a ser humanidade e isso não só não ameniza o gesto bruto dos verdugos como confirma a dignidade das vítimas. O Princípio não decorre num campo de concentração nem em qualquer cenário com coordenadas suficientes para o situarmos num determinado contexto, mas o âmago da sua narrativa, em cujo arranque se lê “Uma vez houve uma guerra”, permite a convocação de momentos históricos concretos para uma leitura mais transversal. E se aqui nem texto nem imagens são criados por crianças, o universo encenado e o ponto de vista do olhar é o infantil, o que aproxima este discurso, ficcional e construído na relação entre o texto e as ilustrações hiper-realistas, das folhas soltas onde as crianças de Terezin registaram a sua visão da guerra e do holocausto.

A narrativa de O Princípio é simples: depois da guerra, uma família vê-se obrigada a viver no carro, com pouco e com medo. O passar do tempo revela outras famílias em situação semelhante e, por entre os escombros, com histórias que se partilham e com o regresso de gestos tão inatos como o de brincar, a vida recomeça a fazer sentido. A circularidade e a força verbal e pictórica com que as autoras contam esta história não é um tributo aos vendilhões do optimismo e do pensamento positivo, ao contrário do que o seu resumo podia fazer crer. A beleza dos gestos que permitem recomeçar não se regista sem a fragilidade dos medos e sem a constatação da brutalidade que antecede tudo isso, o que faz deste um ‘livro infantil’ atípico, se acreditarmos que os livros têm idade.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no suplemento Actual, Expresso, Jul. 2012)