Tag Archives: Chili Com Carne

Recortes: VVAA, Futuro Primitivo, Chili Com Carne

A mais recente edição da Chili Com Carne é o resultado de um trabalho colectivo orientado por Marcos Farrajota, que aqui assume a responsabilidade de distribuir temas e organizar o cadáver esquisito que deles nasce. A unidade narrativa alcançada com esta espécie de remix aplicado às imagens e às sequências que os vários autores criaram é notável, até pelo potencial caótico dos próprios temas, entre a ficção científica distópica e os mundos pós-apocalípticos.

Mais de quarenta autores responderam ao desafio, escolhendo itens de uma lista cuidadosamente preparada para registar as invenções tecnológicas que terão colocado a humanidade a caminho do abismo. Da roda às armas de fogo, da imprensa à energia nuclear, a lista é suficientemente ampla para incluir elementos facilmente identificáveis com o caos ambiental e o desequilíbrio de produção alimentar que vivemos, mas igualmente com as grandes revoluções do progresso, o que só acentua o tom apocalíptico, configurando uma visão fatalista que alia qualquer avanço a uma inevitável degradação e que traça os princípios programáticos desta edição numa espécie de no future onde não haverá prisioneiros. Enquanto a devastação não chega, a clonagem da ovelha Dolly convive com as lições de sobrevivência que os genes humanos transportam e os autores abandonam as suas personagens à sorte de várias incógnitas, investigando o comportamento humano perante a ameaça do fim. Profecias, loucura, gestos de violência ou o desregramento total são alguns dos resultados. Autores consagrados e outros ainda em começo de publicação criaram sequências fortes, imagens perturbadoras e espaços de reflexão poderosos, mas é o trabalho de edição que lhes confere a unidade imprescindível para que este volume seja um marco para a afirmação da banda desenhada de autor no espaço, acanhado, da edição nacional.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no suplemento Actual, do Expresso, Jul. 2011)

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Recortes: VVAA, Boring Europa, Chili Com Carne

Os contactos que a Chili Com Carne (CCC) tem criado com autores e colectivos de banda desenhada um pouco por toda a Europa já resultaram em exposições que, de outro modo, não chegariam a Portugal, em colaborações de autores portugueses em publicações estrangeiras (e vice-versa) e em volumes colectivos como Greetings From Cartoonia, onde artistas de diferentes nacionalidades trocavam memorabilia etnográfica e com ela produziam narrativas capazes de retratar uma certa Europa, tão cosmopolita quanto agarrada às suas tradições. Boring Europa surge nesse contexto, mas em vez de recolher colaborações pedidas de propósito para um determinado livro, parte no seu encalço.

Foi assim que seis autores portugueses, entre eles o editor da CCC, Marcos Farrajota, se enfiaram numa carrinha e empreenderam o percurso Lisboa-Valência-Pancevo-Graz-Berlim-Poitiers-Vigo-Porto-Lisboa, umas vezes registando em diários e narrativas feitas no momento as peripécias da viagem, outras recolhendo contribuições de quem com eles se cruzou. A viagem pretendia ser uma espécie de tourné, com objectivos tão diferentes como vender edições portuguesas no estrangeiro, devolver originais a autores que os emprestaram para exposições em Portugal (caso de Igor Hofbauer), contactar com colectivos e projectos editoriais espalhados pela Europa e trazer para Portugal edições dos países visitados (já que a CCC é, também, uma distribuidora). O resultado é um livro que deve tanto à mítica Torre de Babel como às auto-estradas europeias, misturando várias línguas e registos tão diversos como as bd’s rabiscadas de Farrajota, os cadáveres esquisitos de duas ou três jam sessions na Eslovénia ou o olhar de Aleksander Zograf sobre os portugueses e a sua viagem alucinante. Surpreendentemente, o resultado é tão coerente como são caóticos os dias aqui retratados. Mais do que uma colagem de histórias e fragmentos, Boring Europa é um livro de viagens, uma aventura em 8000 quilómetros de estrada e, sobretudo, um contributo relevante para se pensar a Europa e as suas relações internas. Agora que a ajuda entre países (mais ou menos forçada) anda na boca de toda a gente, seis pessoas e uma carrinha dizem mais sobre as vias possíveis para o encontro e sobre a capacidade de nos conhecermos para lá das fronteiras do que todas as directrizes da União Europeia.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº102, Maio 2011)

Recortes: AAVV, Destruição – Bandas Desenhadas Sobre Como Foi Horrível Viver Entre 2001 e 2010, CCC

Antes de mergulhar no ‘No Future’ que este volume apregoa, importa alinhá-lo na sua própria herança. As antologias de banda desenhada da Chili Com Carne começaram com o portento que é Mutate & Survive, em 2001, e prosseguiram com Massive (2009) e Crack On! (2009, em parceria com a Forte Pressa e o Festival Crack!), sempre numa linha editorial que foge do consenso do nosso pequeno mercado de bd e se dirige, sem inseguranças, para a procura de experimentações mais radicais, abordagens multidisciplinares e construções que não têm como comparar-se, para o bem ou para o mal, com aquilo que se vai editando entre a linha franco-belga e os comics norte-americanos (agora também com uma aproximação à mangá mais comercial).

Em Destruição, o repto da editora foi claro: procuravam-se trabalhos de autores com pouca ou nenhuma experiência de publicação, em torno da ideia apocalíptica e desesperançada do início dos anos dois mil. Responderam dezassete, nascidos entre 1978 e 1990, oriundos dos fanzines de pequena circulação e de projectos pouco conhecidos, o que resultou num volume que é, também, uma radiografia à novíssima banda desenhada de autor. Digamos, para situar os incautos, que se este fosse um volume de poesia, continuaria a vender pouco, mas teria honras de aparição nos suplementos culturais numa tentativa de aferir os mais recentes rasgos da criatividade nacional. Sendo banda desenhada, não chegará a tanto, mas quem quiser fazer o exercício por si não sairá defraudado.

Reflexões sobre o presente, entre o poder dos media e o entretenimento como realidade, delírios político-futuristas envolvendo o Papa e nazis tresloucados, instantâneos do quotidiano ou distopias marcadas por pestes e pragas de vária ordem, as narrativas desta Destruição oscilam entre a estética mais crua do fanzine despreocupado e a procura de um rigor (da mise en pâge à estrutura narrativa, passando pelo traço e pela composição) que equipara este volume ao que de mais interessante se vai produzindo pelo mundo no que à bd diz respeito. Entre as influências mais óbvias (Charles Burns ou Mike Diana) e a definição de caminhos seguros, esta antologia podia ser uma mensagem contra a esperança no futuro – e queria sê-lo, cumprindo a herança punk e fanzinesca onde se inscreve – mas acaba por ser uma bolsa de oxigénio na modorra de um mercado que arrisca pouco, ganhando menos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, nº101, Abril 2011)

Seitan Seitan Scum

Já circula por aí e estará, seguramente, à venda durante o Festival de Beja:

É o número 22 do Mesinha de Cabeceira, numa co-edição da El-Pep e da Chili Com Carne, “com trabalhos de projectos frustrados pela inércia alheia e uma série de novos trabalhos vindos do outro lado do Atlântico sobre o tema das ‘Seitas'”. Mais informações aqui.

(SFC)

Antologia internacional de ilustração e desenho

A Chili Com Carne e o Colectivo Hulululu estão a aceitar colaborações para uma antologia internacional de ilustração e desenho, a publicar em Dezembro de 2009. Os trabalhos candidatos devem ser enviados para hulululuattack@gmail.com ou hulululu@chilicomcarne.com até ao fim do mês de Junho.

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(SFC)