Recortes: Diário Rasgado


Marco Mendes
Diário Rasgado
Mundo Fantasma/ Turbina

Diário Rasgado situa a sua construção no domínio da autobiografia, esse terreno algo instável onde convivem a hipótese de encenação de episódios e experiências oriundas do quotidiano do autor e uma inevitável respiração ficcional. Sobre as fronteiras possíveis entre as duas coisas não cabe aqui falar, ainda que um certo voyeurismo possa desafiar a vontade de o fazer, porque não é esse o espaço que a leitura cria na sua relação com a obra. Mais do que sugerir a especulação sobre a veracidade do que se regista neste Diário, o que a narrativa convoca é a individualidade de um olhar, um modo de ver particular que assenta no registo do quotidiano e na fuga pontual a esse registo a partir de projecções, desejos, deslocações do ritmo imposto pelos episódios curtos e pelas pranchas com pouca cor. Muitos dos episódios aqui reunidos já foram publicados em fanzines, edições de circulação restrita e outros espaços editoriais pouco favoráveis à leitura massificada. A sua reunião em livro permite, agora, que um público mais vasto contacte com o trabalho de um autor contemporâneo essencial no que toca à criação nacional de banda desenhada e ao cruzamento de influências, discursos e percursos narrativos e criativos que marcam essa mesma criação.

O discurso autobiográfico não sobressai tanto pela narrativa sobre si próprio, mas antes pelo olhar desencantado sobre um quotidiano que nunca oferece uma hipótese de se superar, mostrando-se condenado a uma sucessão de pequenos fracassos, perdas irreparáveis e uma inclinação constante para a melancolia. Marco Mendes inventa uma espécie de spleen portuense, muito longe da movida da moda que tantas vezes traz a Invicta para as páginas das revistas e muito mais próximo de um certo modo de olhar o mundo, pouco luminoso e mais povoado de umbrais de portas, bancos de jardim e cigarros partilhados do que de discotecas fulgurantes ou andanças boémias. É aqui que se deslinda a denúncia que o livro acaba por construir, mesmo que nunca recorrendo a um discurso contestatário ou sequer marcadamente político, e que passa pela constatação de que o futuro reservado para o trio que partilha uma casa, e onde se inclui o autor/personagem, é continuar exactamente no mesmo sítio – e esta é a visão optimista, porque a verdade é que tudo pode piorar. Ora, sem que qualquer analogia seja convocada pelo discurso do livro, não é difícil ver em Diário Rasgado o retrato quotidiano de uma certa geração, precária no que toca ao emprego, com poucas hipóteses de estender o consumo a mais do que as despesas fixas e um ou outro vício e sem perspectivas de futuro. Se isto é a autobiografia de um autor, não é difícil que seja também um pouco da auto-ficção que todos vamos construindo diariamente.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº116, Set. 2012)

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