Um bildungsroman para os anos zero


Craig Thompson
Blankets
Devir/Biblioteca de Alice

Quase uma década depois da edição original, eis que o monumental livro de Craig Thompson (n. 1975) chega às livrarias em edição portuguesa. Quem acompanha as novidades da edição estrangeira de banda desenhada não terá por que rejubilar, já que Blankets há muito que circula por livrarias e festivais como uma espécie de marco ao qual não se pode fugir. Mas a edição portuguesa pode conquistar leitores que nunca imaginaram ser possível criar, com as ferramentas e a linguagem da banda desenhada, o universo romanesco que Thompson alcançou. Para esses leitores, vale a pena apresentar argumentos e apelar à conversão, já que Blankets é o tipo de livro capaz de criar crentes, sobretudo se as livrarias não relegarem o volume para alguma secção obscura entre monstros e super-heróis.

Quando foi publicado pela primeira vez, em 2003, Blankets gerou na crítica anglo-americana um burburinho de reconhecimento que se estendeu muito para além de especialistas ou fãs de bd. Não foi a revolução temática e de registo que Art Spiegleman protagonizara com Maus, uns anos antes, mas não deixou de configurar uma mudança radical na percepção que as chamadas graphic novels tinham no público leitor generalista. O tom autobiográfico, a reflexão sobre a memória e a sua frequente dissonância em relação à realidade e a narrativa de um processo de crescimento a partir das dores de alma e das quedas desamparadas garantiram a Thompson um lugar num panteão que só não se percebe mais luminoso porque não é de prosa que se trata. Digamos que Blankets teria potencial para ser um bildungsroman dos anos zero, algures entre a herança do grunge e constatação desiludida de que o criacionismo não é explicação para o mundo, não fosse a banda desenhada não beneficiar do mesmo apuro crítico e do usufruto da nomenclatura teórica que as restantes linguagens artísticas. Não soará a Goethe ou a Sterne, mas cada geração tem o seu contexto e nem o grunge nem a desilusão do criacionismo falham o ar do tempo na América liceal de finais do século passado.

O impacto de Blankets explica-se pela sua dimensão, e não apenas a dimensão física do livro. A grandeza narrativa justifica as quase 600 páginas no modo como contrasta um edifício emocional em constante ebulição, entre o amadurecimento da identidade de Craig e a sua paixão avassaladora por Raina, com um quotidiano onde a banalidade serve de combustão para todas as ilusões. O modo como Thompson utiliza os recursos da prancha, a ligação entre vinhetas ou o destaque de certos elementos gráfico-narrativos, como a manta de retalhos do título, não cria, por si só, rupturas significativas na banda desenhada de até então, ainda que haja uma marca autoral forte e inovadora no que toca à definição do ritmo, jogando com analepses e prolepses frequentes e com as elipses entre vinhetas. Onde Blankets verdadeiramente se revela é na construção de uma teia narrativa de dimensões romanescas solidamente estruturada na relação entre elementos verbais e elementos visuais. Encenando a memória como modo de construção de um presente em constante fuga, Thompson faz desfilar a paixão juvenil, o conflito inter-geracional de valores e a luta diária para sobreviver à adolescência sem sucumbir ao conservadorismo religioso que domina a comunidade, aos bullys que são iguais em toda a parte, mas que no Wisconsin rural parecem ter uma malvadez mais requintada, e sobretudo à consciência de que o tempo não arrasta só mudanças na pele e na mecânica do corpo. Se isto não é um romance grandioso, que outra coisa poderá ser?

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, Março 2012)

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One response to “Um bildungsroman para os anos zero

  1. Belíssima novela gráfica 🙂

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