Recortes: É de Noite Que Faço as Perguntas


David Soares, Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel Silvestre da Silva e Richard Câmara
É de Noite Que Faço as Perguntas
Saída de Emergência

Os livros por encomenda são sempre uma faca de dois gumes no panorama da edição de banda desenhada em Portugal. Se, por um lado, permitem que os autores publiquem num mercado onde é difícil fazê-lo, por outro tendem a produzir resultados desastrosos, em muitos casos devido às exigências do briefing, com as suas listas de datas e referências. Se as editoras portuguesas já pouco arriscam em abordagens fora do esperado, imagine-se as instituições ou empresas que encomendam livros de banda desenhada, tantas vezes por acreditarem que assim é mais fácil passarem determinada mensagem.

No âmbito dos cem anos da República, a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário e o Festival de BD da Amadora convidaram David Soares para fazer um livro sobre a efeméride. O autor assumiu a responsabilidade do argumento e convidou cinco ilustradores portugueses para trabalharem consigo. Duplo risco: livro encomendado e multiplicidade de registos gráficos. Risco ultrapassado, em boa parte graças ao domínio de Soares relativamente à narrativa de contornos históricos, mas igualmente devido ao equilíbrio conseguido entre o registo gráfico de cada ilustrador e a sua posição na sequência dos capítulos. É de Noite Que Faço as Perguntas atravessa o período entre o Ultimato Inglês (1891) e o golpe de estado que, em 1926, abriu as portas à ditadura. A preocupação no rigor histórico é evidente, mas é o registo ficcional que domina, através de um narrador que escreve ao seu filho e que, mais do que relatar os factos, se questiona sobre os malabarismos do poder, o preço da liberdade e o papel reservado à intervenção cidadã. Sem ceder ao didatismo, verbal ou imagético, É de Noite Que Faço as Perguntas faz da História um objecto de reflexão tão útil para o passado como para o futuro, gesto sempre mais produtivo do que qualquer elenco cronológico.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº106, out. 2011)

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