Recortes: Milt Gross, Ele Foi Mau Para Ela, Libri Impressi

Quando Milt Gross desenhou as pranchas de Ele Foi Mau Para Ela, o seu nome já era bem conhecido no espaço que a imprensa norte-americana dedicava à banda desenhada e aos textos humorísticos, sobretudo pela acutilância do registo cómico, mas igualmente pela utilização de um idiolecto próprio que pretendia caracterizar o modo de falar dos imigrantes de origem judaica, em Gross Exaggerations, ou os bebés e respectivos familiares embevecidos, em Nize Baby. Publicado em 1930, o livro que agora encontra tradução portuguesa pela acção sempre atenta do editor Manuel Caldas foi apresentado como “o grande romance americano, e sem uma só palavra”, epíteto que diz tanto sobre o conteúdo da narrativa como sobre a vontade de ironizar de Gross.

A narrativa de Ele Foi Mau Para Ela acompanha os dissabores de uma jovem corista apaixonada por um homem anormalmente forte que a salva dos assédios da clientela que frequenta o seu local de trabalho e enganada por um ricaço que pretende casar-se com ela a todo o custo. A comédia de enganos, o humor em torno da força exagerada do herói e a velocidade dos gags, a lembrarem alguns dos melhores momentos do cinema mudo de contornos humorísticos, fizeram de Ele Foi Mau Para Ela uma obra ímpar. E para isto não contribui tanto o facto de se apresentar ao longo de 250 pranchas sem recurso a qualquer texto (com excepção de algumas tabuletas e outras indicações espaciais), já que, mesmo nos anos 30, eram conhecidos outros exemplos de banda desenhada ‘muda’, com Lynd Ward e Franz Masereel à cabeça, mas antes a vocação do traço para a fluidez e para a relação entre pranchas, bem como o uso frenético da pantomima, quer na exploração de clichés comportamentais das personagens, quer na ilustração de temas e atitudes característicos da época que se sucedeu ao crash da bolsa norte-americana.

Depois de Ele Foi Mau Para Ela, Gross veria a sua popularidade crescer significativamente, com o reconhecimento do público a permitir-lhe transformar-se num dos argumentistas mais reconhecidos do humor hollywoodesco. À banda desenhada na imprensa juntaram-se as colunas de opinião e os programas radiofónicos. E se o trabalho humorístico já se havia confirmado de enorme qualidade desde as primeiras tiras de banda desenhada, o fôlego para sustentar uma história com níveis equilibrados de humor e avanço narrativo num arco temporal muito mais extenso do que aquele de definia as tiras ou os curtos textos cómicos parece ter nascido com este Ele Foi Mau Para Ela.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº104, Jul./Agosto 2011)

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