Recortes: Os Livros da Plana

Fundada no Porto, em 2007, por Luís Camanho e Ana Isabel Carvalho, a Plana Press é uma editora sem ambições de mercado mas com um enorme capital criativo e capaz de grandes investimentos na procura dos autores e dos trabalhos mais relevantes para a construção do seu catálogo. Dedicada à ilustração, à banda desenhada e aos muitos territórios que cruzam estas duas linguagens, a Plana Press nasceu da vontade de criar um projecto editorial que garantisse o acompanhamento de todo o processo de produção, desde o contacto com o autor até à venda do livro, passando pelas fases de impressão e acabamento. E a pequena dimensão da estrutura, para além de permitir esse acompanhamento, não impede os livros de chegarem aos leitores, seja através da venda directa, no site (http://planapress.org/), seja nas várias livrarias e galerias que fazem questão de os disponibilizar, do Porto a Lisboa, de Torres Vedras a Barcelona, passando por Braga e Berlim.

O modus operandi da Plana Press, pouco comum em tempo de concentrações económico-editoriais e livros virtuais, não deve tanto à nostalgia do objecto impresso e do cheiro a tinta das tipografias como à percepção de que é possível juntar o melhor de dois mundos, de um lado as técnicas de impressão que se aperfeiçoam desde os tempos de Guttenberg, e que permitem a criação de objectos únicos e tangíveis, do outro a velocidade da internet na criação de redes de divulgação, quebrando a dependência da distribuição nacional pelas livrarias e o problema de armazenar os livros por vender.

Nos quatro anos que leva de vida, a Plana Press já publicou obras colectivas, como Dandy, onde se encontram mais de trinta artistas nacionais e estrangeiros em torno da elegância e da malandragem do conceito homónimo, e várias individuais, sendo a mais recente de Christina Casnellie, ilustradora norte-americana que se estreou, deste modo, em Portugal, com o livro Bomboca. A decisão de publicar estes e outros livros relaciona-se sempre com o interesse pessoal dos editores, o que faz da Plana Press um catálogo de afinidades estéticas, fortemente definidas pela partilha de uma certa experimentação em torno de grafismos, linhas visuais e modos narrativos. O primeiro livro de Marco Mendes (Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas), um dos autores que importa acompanhar por entre a banda desenhada portuguesa contemporânea, os estudos em torno dos totems e dos pictogramas assinado pela colectiva Salão Coboi, o exercício narrativo a duas mãos, as de Júlio Dolbeth e Rui Santos, que resultou no volume Pandora Complexa, ou o caderno de esboços de Diogo Oliveira, Big Hands, Small Mobile, confirmam as linhas que a Plana Press procura explorar, tanto como a heterogeneidade das suas possibilidades. Entre a banda desenhada, a ilustração e a experimentação pictórica e narrativa, os livros da Plana podem ser, ainda, uma espécie de segredo bem guardado, mas a sua contribuição para a ebulição criativa e experimental em que uma parte dos autores contemporâneos vem navegando é inegável.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº101, Abr. 2011)

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