Recortes: Cliff Sterrett, Dot & Dash, Libri Impressi

UM DELÍRIO SEMIÓTICO

No início eram um gato e um cão e respondiam ao chamamento de Damon e Pythias. Na imprensa norte-americana, faziam uma aparição semanal de apenas uma tira, disputando com esse pequeno espaço a competição desenfreada que a banda desenhada assumia na venda de jornais. Entre 1926 e 1927, o gato passou a ser cão e Damon e Pythias renasceram como dois cachorrinhos, agora chamados Dot & Dash (ponto e traço, uma clara alusão à primeira letra do alfabeto em código morse e aos jogos linguísticos que o autor trabalhava com frequência).

Ultrapassando as limitações de uma tira dupla, os dois cães exploram o espaço doméstico onde vivem e o seu meio envolvente com a surpresa genuína dos que descobrem o mundo. E na descoberta, entre medos e surpresas, permitem que a gramática de Sterrett revele o seu potencial poético, gestos e emoções singelas encenados num sistema linguístico tão complexo quanto eloquente.

Uma leitura apressada destas tiras pode concluir que pouco ou nada acontece, apesar da sucessão das cenas e cenários, mas a riqueza de Dot & Dash está nos pormenores associados aos gestos da dupla e na interpretação das suas reacções. No lugar de uma hipotética acção aventureira, Sterrett coloca o exercício de apreender na narrativa tudo o que nela é aparente simplicidade, empurrando a leitura para a compreensão dos seus símbolos e para a reflexão sobre o trabalho e a linguagem da banda desenhada. Qualquer estruturalista dos sete costados (ainda os há?) teria em Dot & Dash horas prazenteiras de delírio semiótico, perseguindo os muitos sinais de uma linguagem que forja a sua gramática na observação e nos enganos de uma interpretação errónea (canina seria adjectivo mais apropriado). E o melhor destas tiras é que sobreviveram com integridade, ainda que não com a divulgação merecida, aos exercícios da semiótica, chegando ao século XXI de todas as intertextualidades com a mesma candura com que surgiram nas páginas dominicais da década de 20, há quase cem anos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, Jan.2011)

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