Recortes: Paulo Monteiro, O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, Polvo

O Elogio da Leveza

Espalhado por revistas e fanzines de banda desenhada, o trabalho de Paulo Monteiro (n.1967) tem sido acessível apenas aos leitores de revistas e fanzines de banda desenhada. Neste volume reúnem-se cinco histórias já publicadas (no fanzine galego Barsowia ou em Café e Cigarros, uma edição da Bedeteca de Beja, onde o autor dirige o Festival Internacional de Banda Desenhada) e outras tantas inéditas, confirmando a solidez de um percurso que começou há já alguns anos, apesar da inconstância das suas aparições.

Criadas entre 2005 e 2010, as narrativas de Paulo Monteiro gravitam na órbita da memória, não enquanto instrumento de um qualquer exercício nostálgico, mas antes como elemento fundador das rotinas e dos afectos. Histórias de amor que contam mais do estado de enamoramento do que dos momentos que o enquadram, cartas enviadas de uma qualquer guerra, registos de momentos que vivem sobretudo das emoções experimentadas em cada gesto e uma introspecção que tanto se revela no olhar sobre o próprio corpo, em “Fico Com as Minhas Baratas” ou “Este Sou Eu”, como na dolorosa antecipação de uma fragilidade inevitável, em “Porque É Este o Meu Ofício”, uma história oferecida pelo protagonista ao seu pai.

Apesar de diversas na sua origem, as narrativas deste livro revelam uma forte unidade, desde logo gráfica, com um labor de figuração que alcança a excelência em vários momentos e com um traço que oscila entre a clareza da linha e a força da mancha de tinta, criando sombras e escuridão sempre que a luminosidade se espraia em demasia. E mesmo ao nível da composição e da representação figurativa, a memória é uma constante, das remissões para as Danças Macabras em “A Canção do Soldado” até aos elementos que convocam a figuração popular dos ex-votos em “O Enforcado”. Mas a unidade maior encontra-se no modo de abordar cada tema: no amor, na guerra ou na morte que há-de juntar-se à densa matéria das memórias, as narrativas de Paulo Monteiro respiram leveza, não a do ânimo, mas aquela de que falava Italo Calvino nas suas propostas para o milénio que haveria de ser o nosso, a leveza dos que se apoiam no peso do mundo para encontrarem na linguagem um modo de flutuar sobre as coisas.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Dez. 2010)

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