Sobre a Bedeteca de Lisboa

As notícias do apagamento da Bedeteca já circulam, depois de longos meses de uma destruição silenciosa de que só se apercebeu quem por lá passava regularmente. O problema não está na suposta ‘racionalização de recursos’, como diz a notícia do Diário Digital, citando o director municipal de cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Francisco da Motta Veiga; racionalizar recursos está muito bem, sobretudo em tempo de crise, mas aqui trata-se de apagar totalmente a autonomia de uma instituição que mantém uma actividade ímpar há vários anos, anulando quaisquer hipóteses de programação (coisa que já vem de há muito, com o fim do Salão Lisboa ou o encerramento da sala de exposições, com o fim do projecto editorial que ajudou a renovar a banda desenhada portuguesa, abrindo-a ao pensamento crítico e criando uma rede de contactos que originou muitos projectos relevantes, nacional e internacionalmente, e com o progressivo estrangulamento de uma autonomia que, era visível, permitia fazer muito com muito pouco, mercê do entusiasmo das pessoas que trabalharam na Bedeteca e da rede de apoio que foram construindo – e isso é que é racionalizar recursos, senhor director municipal.). O que agora se tornou público já ameaçava há muito tempo, e a crise há-de servir, como sempre, para os burocratas deste país darem cabo do que vai funcionando e deixando obra relevante, mesmo com poucos recursos. Perde-se a Bedeteca e com isso perde-se o acesso regular a exposições de banda desenhada de autor, ou de ilustradores que em poucos outros espaços serão visíveis, bem como a leitura de um fundo bibliográfico em suposto crescimento onde não pontuam apenas os Patinhas e os Astérix (sem desprestígio algum para ambos), a disponibilidade de uma equipa que sabe do que está a falar e com que matéria está a trabalhar, o espaço para o debate e o encontro em torno de autores, trabalhos, projectos e correntes que, lá fora, se desenvolvem dentro e fora de instituições, criando diálogos proveitosos, mas que aqui, pelos vistos, serão relegadas para outros planos. Tudo mercê da racionalização de recursos, esse chavão que não poupa dinheiro a ninguém e que vai destruindo coisas que valem a pena com o argumento de ser preciso acabar com as que não valem.

(SFC)

3 responses to “Sobre a Bedeteca de Lisboa

  1. a bedeteca näo servia para todos , para mim nunca serviu,
    quem gravitava e aproveitava da dita instituicäo pública eram meia dúzia de previlegiados e assim, se näo serve para todos tb ,näo serve para ninguem …que repouse em paz pk falta näo faz

  2. favorecer minorias com dinheiros públicos foi o erro-mor da bedeteca , que parecia o organismo publicitário da chili con carne , acabaram-se os elitismos os favoritismos e os protegées , a maioria das pessoas que faz bd nunca pode contar com a bedeteca para nada , e se voces näo gostam de ouvir verdades e insistem em tapar o sol com a peneira é lá convosco…
    perguntem aos autores de bd quem é que beneficiava da dita
    essas desculpas do astérix para mim näo servem

  3. um dos comentários está a mais;
    só surgiu pk o anterior näo foi visível

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