Recortes: Jacques Tardi, Adèle Blanc-Sec (vol.1), Ed. Asa

O Regresso de Uma Senhora

Não é a primeira vez que se edita Tardi em Portugal, nem sequer esta obra. Numa recorrência tão frequente no nosso mercado editorial de banda desenhada, a Asa regressa a Adèle Blanc-Sec depois da extinta Witloof o ter feito pela última vez há sete anos. Apesar disso, e tendo em conta a velocidade a que as novidades desaparecem das livrarias, o regresso de Tardi não é de desprezar.

Cultor de um traço que se poderia integrar na chamada linha-clara e de uma narrativa devedora dos grandes textos policiais e aventureiros da primeira metade do século passado, esta obra de Tardi, originalmente publicada a partir de 1976, integra-se no vasto universo da banda desenhada franco-belga de aventuras, sem que a sua herança se desvaneça na homogeneidade que alguns dos integrantes deste universo alimentam. Adèle é uma personagem com características tão perfeitas para um enredo de mistério que só as contradições da sua personalidade e o charme de uma certa rebeldia nos modos evitam que caia no cliché. Escritora free-lancer, sobretudo de livros relacionados com o mundo do crime, Adèle acaba por coleccionar uma agenda de contactos nada recomendável, sobretudo para uma senhora no início do século XX. Esse perfil e a sua incontrolável curiosidade, aliados ao semblante duro, à sagacidade do olhar e à imparável acção com que Tardi a plasmou, garantem-lhe uma aura próxima das primeiras sufragistas, sem o peso da reivindicação político-social, mas com a postura de quem derruba qualquer obstáculo.

Ambientado na Paris da primeira década do século passado, o primeiro volume destas aventuras (que reúne os dois primeiros volumes da série, Adèle e o Monstro e O Demónio da Torre Eiffel) estrutura-se em torno de duas intrigas envolvendo objectos históricos, o primeiro, um ovo de dinossauro que eclode misteriosamente vários milhões de anos depois, e o segundo, uma estatueta assíria à volta da qual uma seita parisiense se organiza. O argumento apresenta a clássica estrutura policial, com o desfecho definido pela intervenção da (anti)heroína Adèle, mas é prejudicado pela profusão de dados que obrigam a uma recapitulação constante, frequentemente pela voz de uma das personagens, num gesto narrativo algo forçado. Apesar disso, os cenários, a riqueza psicológica de Adèle e as reviravoltas narrativas em direcção à resolução de cada caso fazem desta uma obra merecedora de resgate de entre o infindável, e por vezes repetitivo, filão das aventuras com origem franco-belga.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Nov.2010)

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