Recortes: Lyonel Feininger, Os Meninos Kin-Der, Libri Impressi

Na Vanguarda da BD

Quando Lyonel Feininger iniciou a publicação das pranchas semanais de The Kin-Der Kids, no Chicago Tribune, em 1906, a concorrência entre jornais vivia um período particularmente agressivo e as páginas dominicais de funnies tinham nisso um papel de relevo. Procurando responder às preferências do público, que consumia as páginas de banda desenhada com um fervor inversamente proporcional ao dos críticos, os responsáveis editoriais não davam muito tempo a uma série que não ajudasse claramente a subir as vendas. Lyonel Feininger, nascido nos Estados Unidos em 1871 e emigrado para a Alemanha (onde viria a ser um dos nomes associados à Bauhaus) com apenas quinze anos, foi um dos autores abalados por essa política, e tanto The Kin-Der Kids como Willie Winkie’s World não resistiram, na época, a mais do que alguns meses de publicação.

Os elementos que haveriam de caracterizar o trabalho de Feininger na pintura ou na gravura eram já visíveis na sua banda desenhada. As paisagens modificadas pelo olhar humano e as construções angulosas que servem de cenário à odisseia das crianças Kin-Der pelos mares (a bordo de uma banheira e com a propulsão garantida por um robô japonês antropomórfico…) devem ao olhar expressionista a sua solidez enquanto universo verosímil e fazem desta série um marco essencial das vanguardas gráfico-narrativas do início do século XX. Em Willie Winkie’s World, de que esta edição publica duas pranchas, esse gesto de modular o mundo, recriando-o numa mise-en-pâge arrebatadora, confirma a genialidade da obra de Feininger, apesar da sua interrupção abrupta.

O formato da edição que agora chega às livrarias, 33/44cm, talvez não facilite a exposição nos escaparates habituados a livros de tamanho regulamentar, mas a leitura só pode beneficiar com a aproximação ao formato original destas pranchas, sem o qual a riqueza dos pormenores e a respiração dos espaços e da narrativa se perderia irremediavelmente.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, Out. 2010)

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