Recortes: No País das Perversidades

Editado por ocasião dos 15 anos da Associação Cultural Ao Norte, fortemente ligada ao cinema, Sai do Meu Filme é a primeira narrativa visual assinada por Tiago Manuel, um intervalo entre as muitas ramificações do seu projecto heteronímico (onde pontuam vozes autorais como as de Terry Morgan, Max Tilman ou Tim Morris) e uma auto-ficção onde se cruzam as memórias da infância com as do cinema.

Cinco takes iniciais, sob a forma de pequenos textos emoldurados à maneira do cinema mudo, situam a narrativa nos primórdios da memória biográfica, relatando as tardes de domingo e os modos de fugir à missa, escapando ao castigo maternal e desfrutando, sem culpa apontada, das sessões de cinema no café local. Segue-se uma banda desenhada estruturada a partir do sonho, que acompanha a descida de um duende, habitante da “cabeça do pintor”, ao mundo das “infâncias esquecidas”. Na companhia de um palhaço onde a sombra de Charlie Chaplin acaba por revelar-se, o duende fará a sua travessia à imagem dos heróis de Vergílio ou de Dante, cruzando perigos, vislumbrando felicidades e aprendendo do mundo as lições necessárias. As remissões para a história do cinema cruzam-se com a memória individual, a memória da própria banda desenhada (os ecos de Sérgio Luiz e o seu Boneco Rebelde ou de Winsor McCay e Little Nemo estão à vista) e elementos que, pertencendo à auto-ficção que Tiago Manuel cria, não deixam de convocar alguns dos seus heterónimos (é o caso das figuras com cabeça de gaiola, prisioneiras do medo e incapazes de sonharem).

O contraste entre os elementos infantis que atravessam as imagens – brinquedos, visões oníricas, objectos falantes, diálogos simples – e o peso que a narrativa assume ao reportar para a infância enquanto território perdido e para as várias calamidades que afectam cada um dos círculos visitados assume uma certa perversidade lúdica e muito refinada que é marca de água do autor, quer em nome próprio, no seu trabalho artístico para além dos livros, quer nos heterónimos a que dá vida. Que isso resulte agora numa viagem dantesca, pejada de ecos cinematográficos, onde uma personagem de aspecto enternecedoramente infantil revolve a memória e olha de frente os vários círculos infernais, poderá provocar estranhamento nos que dependem de classificações temáticas e de género para se apropriarem de um livro, mas não desapontará os que acompanham de perto o trabalho deste autor (que, à maneira de Hitchcock, não deixa de fazer uma pequena aparição na sua própria narrativa).

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº94, Set.2010)

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