Recortes: Heróis de Lisboa


(Filipe Melo e Juan Cavia, As Incríveis Aventuras de Dog Mendoza e Pizza Boy, Tinta da China)

Com um panorama editorial tão pobre como é o da banda desenhada em Portugal, há livros que podiam surgir com estrondo e que correm o risco de passar despercebidos. A injustiça pode bem acometer As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy, mas não será por falta de aviso. Filipe Melo, conhecido pela realização do primeiro filme de zombies feito em Portugal (I’ll See You in My Dreams) e pela sua prestação no jazz, estruturou um argumento digno da melhor tradição pulp fiction, prestando homenagem a momentos icónicos do cinema mais comercial das últimas décadas e a toda uma parafernália de referências da cultura pop, entre bandas desenhadas de prestígio duvidoso e clichés narrativos importados da melhor tradição hollywoodesca. E a parceria com Juan Cavia, o argentino que assina o desenho, concretizou de modo certeiro a criação dos ambientes escuros que definem a narrativa e garantiu uma harmonia sem a qual o ritmo, a definição dos personagens e a ironia dificilmente teriam resultado.

A figura do detective privado do oculto, Dog Mendonça, não esconde as influências de Hellboy, de Mike Mignola, e até de Constantine Hellblazer, personagens reconhecidas no universo dos comics norte-americanos, aqui agilmente misturadas com os ambientes (e as improbabilidades) de filmes como Regresso ao Futuro ou As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim. A sua missão de ajudar Pizzaboy a recuperar a moto que lhe foi roubada, aceite, como é de bom tom nestas coisas, um pouco contra vontade, rapidamente se transforma numa demanda heróica para salvar as crianças misteriosamente desaparecidas em Lisboa. Daí para a conspiração nazi que se esconde nos esgotos da capital, com uma galeria de monstruosidades, nem sempre maléficas, a incrementarem o caos de referências, é um salto que Melo e Cavia sabem dar à medida de uma paródia que se leva a sério, respeitando os contornos dos muitos géneros que convoca sem nunca deixar cair o movimento de suspensão em direcção ao desenlace.

Com um espectro de géneros tão amplo como o de qualquer outra linguagem, a banda desenhada tem produzido monumentos estético-narrativos com a mesma elegância com que produz lixo de entretenimento, sem que, muitas vezes, o ‘radar crítico’ de que falou Art Spiegelman os distinga. Com Dog Mendonça e Pizza Boy o patamar é outro, longe da elevação estética de algumas obras já canónicas, mas seguramente num espaço onde a inteligência se faz pastiche e a auto-ironia ganha fôlegos de lei universal.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº90, Abr. 2010)

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24 responses to “Recortes: Heróis de Lisboa

  1. olhem que o fil é um autor importante , um ur-berlinense (näo é só o atak)

    http://www.fil-berlin.de/start.php?datei=comics

  2. olhem que o fil é um autor importante na bdósofias germanicas , um ur-berlinense um clássico

    http://www.fil-berlin.de/start.php?datei=comics

  3. este texto deve ser mentira… saiu no 1 de Abril , não?

  4. Teresa, chegou direito.
    Marcos, não é mentira. Podemos debater o tema, se quiseres.

  5. Que forma interessante de criticar sem nada dizer.

  6. Quem escreveu este post?

    Li o livro e quase morri de tédio. Louvo a dedicação dos autores relativamente à publicação do livro, mas quanto ao resto, não exageremos…

  7. ‘Quem escreveu este post?’, o meu texto será discutível, certamente, mas o que resulta da minha leitura não me parece um exagero. Repare: o que digo é que este livro não se enquadra nem no lixo de entretenimento, nem nas grandes obras (que, no caso particular da bd, costumam passar despercebidas à maioria dos leitores de outras paragens); é um livro competente no modo como constrói a narrativa e como utiliza clichés e elementos vários de outras obras, possivelmente familiares aos apreciadores do género. Não vejo onde está o exagero, quando, e resumindo a crítica a uma visão que não se enquadra na minha, não digo horrores nem maravilhas. Claro, é uma opinião discutível, mas não vejo onde está o exagero.

    Ricardo Baptista, não percebi se o comentário era para mim. Se sim, não posso aceitá-lo. Aceito que discorde da minha leitura, claro está, mas daí a dizer que nada digo, parece-me mais má vontade do que vontade de partilhar outra opinião.

    Marcos, vamos mesmo conversar sobre isto. E vai ser divertido…

  8. Não era para si. Era em relação à atitude do Marcos Farrajota. Quanto ao livro, acho que foi uma boa tentativa de quebrar as regras actuais na publicação da banda desenhada em Portugal, especialmente em relação à temática. O que não significa que seja uma maravilha.

  9. Que rapazes borbulhentos gostem deste lixo compreendo, agora vires defender isto é igual aos outros “críticos-homens” que se revêem em fantasias parvinhas de série B, cujo o “state of the art” é o Manara ou o “Scalped”… o argumento é simples e superficial – não me parece que seja genial como lida com os clichés, é divertido no máximo se não houvesse mais outros mil a fazerem a mesma coisa ou bem melhor, como o “Marvel Zombies”… E o desenho!? é do pior que já vi nos últimos anos, e apesar de já não ler Marvel e afins – de vez enquando compro umas coisas do género como “guilty-pleasure” para ler na praia (como não gosto de praia também não compro tanto como isso, hahahaha) – consegue-se ver até onde o desenho falha mesmo com os mil efeitos de photoshop a disfarçar…
    Parece que está tudo louco! Este livro só saiu porque é do Filipe Melo e esta é a triste realidade. Ao colocar este livro “noutro patamar” prolonga-se o “status quo” do mercado livreiro tradicional.
    Nem carne nem peixe? Então, ide ser vegetariana, gentil senhora!

  10. Quem escreveu este post?

    a) O argumento do livro obedece a uma temática que não se enquadra com os meus gostos pessoais

    b) Reconheço que tem bons momentos de humor e certas situações são mesmo hilariantes. Apesar de tudo, falta qualquer coisa àquele argumento. Falta um rasgo de asa…

    c) Uma das grandes falhas deste livro (opinião pessoal!) é mesmo o desenhador.

    d) Apesar de tudo, considero que é uma obra que pode marcar uma certa maneira de ver, publicar e pensar a BD portuguesa

  11. “Apesar de tudo, considero que é uma obra que pode marcar uma certa maneira de ver, publicar e pensar a BD portuguesa”? também o Jim del Monaco…
    beijocas
    M

  12. Quem escreveu este post?

    a) Em relação à obra em causa, o Marcos já conhece a minha opinião.

    b) “Apesar de tudo, considero que é uma obra que pode marcar uma certa maneira de ver, publicar e pensar a BD portuguesa”

    Em termos de marketing, o circo foi muito bem montado e explorado. Tem sido um sucesso de vendas (Independentemente da minha opinião e da do Marcos). O livro já vai na 3ª edição. Pode ser um exemplo para as obras do Marcos Farrajota

  13. e porque estaria interessado nesse circo? o que tem ele de interessante? se o tio Jardim (aquele jeitoso da Madeira!) fizer uma bd também terá o todo circo, terceiras edições mas duvido que a bd dele terá interesse a não ser como mero fenómeno sociológico e económico… é isto a “nova forma de ver, publicar e pensar a BD portuguesa”? já agora com o Loverboy em tempos mais ingénuos e sem “stars” os livros chegaram a segundas edições e isso tudo, se não foi mais longe era porque a Polvo era “aquela pobrezinha & pequenina editora” mas seja como for, não encontro nada de novo aqui…
    não percebo porque queres colocar o “circo” e o “conteúdo” do livro no mesmo saco porque então também podemos meter nele outras excelentes referências da cultura bedófila portuguesa como a colecção “Herman Piri-Piri” ou os livros do Nuno Markl.
    “Holy Money” diziam os Swans…

  14. Quem escreveu este post?

    Ok, Marcos, dou terminado por mim este ping pong! Ganhou o Marcos! Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa, você deve ser um chato do “curaças”!
    Assim não casa Marcos! (Citação do “Pénis Assassino”)

    P.S – Se a citação não está, devia estar.

  15. O Marcos podia esclarecer-me algo?
    Quantos exemplares teve a primeira edição do Loverboy?

  16. Aliás, esqueça.

  17. quem quer casar? comemoramos este ano um Estado Laico – pouco em Portugal – porque raios que queremos ser retrógados e voltar a casamentos e Igrejas? Por favor… Holy money, outra vez…
    Loverboy, não lembro mas creio que seria 1000/1500 exemplares nas primeiras edições, 750 nas segundas,… o Ricardo quererá demonstrar que a tiragem representa qualidade, por acaso? Terreno pantanoso, especialmente em Portugal mas esteja à vontade…

  18. Só queria dizer que não se podem comparar produtos diferentes vendidos em alturas diferentes. A tiragem não indica mais que uma estimativa editorial do que julgam vender. Chegar a segunda edição só quererá significar que se vendeu o suficiente para tal, também não é indicativo de qualidade, “especialmente em Portugal” que está longe de ser um país com “cultura bedéfila”. Quanto à celebridade do autor Filipe Melo, está longe de ser a principal razão pelo qual o produto vendeu, embora concorde que terá a ver com a sua publicação. Quanto à nova direcção que é referida anteriormente, creio que não será má se for ultrapassada, quero dizer, não acho que a obra em questão deva ser o exemplo do que a bd portuguesa possa ser, que seja então a porta de entrada para os rapazes borbulhentos, que com tempo e, esperemos, maturidade adquirida, saiba ver para além do circo superficial de marketing e explore outras áreas francamente mais estimulantes da nossa produção nacional. Mas não se pode negar que este Dog Mendonça é uma forma diferente de se fazer bd em Portugal, se é a mais correcta ou não venham as retrospectivas futuras analisarem, já que eu estou longe de ser qualificado para tal.

  19. mas foram vocês é que quiseram saber dessas coisas das tiragens e que insistiram na “nova forma de (…)” quando além de isso não ser verdadeiro, agora, voltam atrás na análise e dizer que não se pode comparar, etc… se calhar mexer no lodo do Herman Piri-piri assusta…
    não há correcto ou menos correcto nas formas como se faz bd em Portugal, nem acho que isso interesse… também acho que os borbulhentos precisam de livros mas o que acho é que este livro não precisa de resenhas simpáticas na “Ler” nem percebo porque a Sara entrou na “bedófilia” – é “nacional-porreirismo” ou são obrigações do mercado (não convém dizer mal da Tinta da China)?
    Se não for nenhuma destas opções, fico preocupado pela saúde mental da senhorita! Perdeu-se um dos três acólitos do Domingos Isabelinho (private joke)…
    Boas férias a tod@s
    M

  20. Então só se tratava da sua preocupação pela autora do post?
    Então fica por aqui esta discussão sem sentido, se ao menos tivesse dito isso logo no início não teria perdido tempo aqui.

  21. Uma pessoa vai dar dois ou três mergulhos e isto torna-se o caos… Agora a sério, é bom que se discutam estas coisas.
    Marcos, não tens de preocupar-te com a minha sanidade mental, nem com qualquer cedência a quem quer que seja. O que escrevi sobre o livro corresponde ao modo como o vejo num determinado panorama editorial e de mercado (o nosso, actual), num contexto preciso e a partir da minha leitura. talvez a minha sintaxe seja rebuscada, mas nunca disse que estávamos perante uma obra-prima. Acho que é um trabalho competente, que brinca com os clichés em que, a espaços, parece acreditar, e acho que pode ser um indício de um espaço editorial que não temos por cá, e onde podem surgir projectos com algum interesse sem que toquem as duas margens de que falei em termos muito resumidos (ou seja, as obras-primas, por assim dizer, e o lixo feito a metro para cumprir regras unicamente mercantis).
    É aqui que se afastam diferentes abordagens críticas: se escrevesse apenas sobre os livros que me dizem algo, ou onde reconheço padrões estéticos, narrativos, experimentais, etc, superiores, e se o fizesse apenas num contexto de reflexão e pesquisa pessoal, não creio que este livro integrasse os meus interesses imediatos (ainda que num plano de sociologia do livro e da edição ele tivesse o seu espaço, necessariamente); mas quando se faz crítica na imprensa, não se está apenas a reflectir sobre um ‘objecto’ isolado (ou relacionado com outros através de elos unicamente estéticos ou culturais), mas igualmente sobre o modo como esse ‘objecto’ se insere num determinado panorama editorial (aquele sobre o qual se escreve) e de tendências de produção. E isso não é ceder. Posso dizer com grande satisfação que nunca fui coagida a escrever bem ou mal sobre determinado livro, nem a dar atenção desmesurada a alguma coisa que me parecesse totalmente desinteressante. As pessoas que lêem a Ler não acompanham, na sua esmagadora maioria, as mais interessantes tendências da bd contemporânea, até porque, mesmo que quisessem fazê-lo, teriam de limitar-se às edições estrangeiras. Mas quererão saber algo sobre os livros que chegam às livrarias, mesmo que sejam de bd. E perceber isso é importante, sobretudo no caso da bd em Portugal, onde a separação entre os mundos é avassaladora (os ditos bedéfilos não lêem, habitualmente, nada fora de uma determinada linha, os leitores de bons romances, ensaio e poesia não lêem bd porque, face ao que vêem, acham que não gostam, ou acham que é para putos , ou outra coisa qualquer, e quem escreve sobre bd assume muitas vezes que está a escrever para conhecedores de bd franco-belga ou dos super-heróis). Ampliar o ponto de observação é importante, por isso. E tendo em conta tudo isto, mantenho o que escrevi. Se leres bem, perceberás que não teço loas intermináveis a um livro que é, basicamente, uma paródia a uma série de clichés. E ainda assim, não creio que seja um livro sem interesse. Claro, não é o Baudoin, mas quando o Baudoin for traduzido em Portugal, estaremos num outro patamar de felicidade. Pelo menos, eu estarei. Até lá, vou reflectindo sobre o que existe e, dentro do que existe, vou seleccionando o que me parece interessante, ou muito bom, ou apenas relevante para se pensarem determinadas tendências. Sem dizer que o apenas relevante ou interessante é muito bom e vice-versa. E foi o que fiz.
    Mas podemos continuar a conversa ao vivo, lá para Setembro.

  22. “Acho que é um trabalho competente,”
    ——–há muito trabalho competente na história da bd portuguesa…
    “que brinca com os clichés em que,”
    ——–não sei se brinca, tenho dúvidas sérias… acredito que ainda seja uma cedência tua, mesmo que assim… acho o trabalho mediocre, pior até que o Jim del Monaco, por exemplo, e que nada tem de defensável mesmo para o público da “Ler”. Não é pela pobreza da bd portuguesa que se defende isto ou que se dê pancadinhas nas costas – chego a essa conclusão . Mas falamos depois dos mergulhos!

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