Recortes: Joe Sacco, Footnotes in Gaza, Metropolitan

Várias reportagens depois, entre a Palestina, as Balcãs e o Iraque, não restam dúvidas sobre o facto de Sacco ser um jornalista, com a única peculiaridade de o seu modo de expressão ser a banda desenhada, e não a reportagem escrita, a peça televisiva ou a rádio. Essa peculiaridade permite-lhe utilizar recursos pouco habituais nas reportagens, começando pelo ‘tempo’ para prolongar a narrativa (permitido pelo suporte livro e sem a pressão dos deadlines jornalísticos) e pelo domínio da conjugação texto/imagem e das possibilidades da narrativa gráfica. Mas a estranheza ainda se insinua perante o resultado. No início de Footnotes in Gaza, há um episódio que ilustra a indecisão do olhar sobre o trabalho do autor: Sacco está numa festa com vários jornalistas do mundo inteiro e explica a alguns camaradas a dificuldade de obter um visto de imprensa. As autoridades têm a mesma dificuldade em perceber que o seu trabalho é jornalístico e que um visto lhe é tão imprescindível como a qualquer dos seus camaradas.

Apesar do presente, rico em histórias, ângulos e contextos (quase sempre pelos piores motivos), a nova incursão de Sacco por terras de Gaza, depois dos dois volumes de Palestina, move-se pelo interesse em dois momentos passados. As footnotes do título são os massacres de Khan Younis e Rafah, em 1956, episódios quase desaparecidos dos registos históricos, que Sacco investigou nos arquivos disponíveis e que quis tornar claros, legíveis à luz da memória, através de contactos com pessoas que os viveram. Nessa procura de fontes, nem sempre compreendida pelos interlocutores, mais preocupados com o presente do que com a revisitação do passado, o jornalista regista uma fabulosa galeria de personagens, criando espaço para cada uma das suas narrativas e procurando guiá-las até à memória dos massacres de 56. Inevitavelmente, o presente não se afasta: a destruição de casas na Faixa de Gaza, o debate entre bombistas suicidas e activistas da causa palestiniana que preferem não dar pontos ao exército israelita, a ginástica necessária para atravessar os postos de controle ou os tiroteios nocturnos atravessam os dias de Sacco na busca de matéria para o seu trabalho.

Para além de uma detalhada reportagem, cruzando as linhas de um passado que encontra demasiados ecos no quotidiano presente, Footnotes in Gaza configura uma profunda reflexão sobre o modo como a memória se imiscui ou se ausenta das narrativas individuais e colectivas. Umas vezes, esquecer é a única forma tolerável de enfrentar o presente. Outras, recordar é o primeiro passo para uma armadilha indefectível. Em Gaza, convivem as duas atitudes, sem fim à vista.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Actual, do Expresso, Abr.2010)

One response to “Recortes: Joe Sacco, Footnotes in Gaza, Metropolitan

  1. que dia exacto saiu esta crítica? (para colocar nos recortes do site da Bedeteca)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s