Recortes: Como Dividir uma Cabra Sem Começar uma Guerra

A divulgação científica tem produzido livros mais ou menos legíveis para o comum dos mortais, incluindo alguns best-sellers, garantindo com sucesso a instrução de todos os que fugiram à matemática no secundário, deixando para trás uma parcela gigantesca do conhecimento (e muitas vezes tornando-se adultos que anunciam releituras sazonais da Recherche proustiana sem conseguirem perceber a diferença entre um átomo e um neutrão). Nos Estados Unidos, Larry Gonick é um nome central dessa nobre tarefa de comunicar a ciência, com a particularidade de quase todos os seus livros serem bandas desenhadas. A lista de títulos é extensa, inclui parcerias com matemáticos, químicos, geneticistas e outros investigadores e tem como característica principal o rigor das explicações, sem nunca deixar que o didactismo sufoque o potencial que a linguagem da banda desenhada oferece.

Em Portugal, os livros de Larry Gonick estão editados pela Gradiva. A QuímicaA Física em Banda Desenhada (em parceria com Craig Criddle e Art Huffman, respectivamente) pertencem à série “Cartoon Guide to…” e constituem introduções muito completas, onde os princípios científicos vão sendo apresentados a par com a história das suas descobertas, percebendo-se a origem das teorias a partir da cronologia das problematizações. Mas onde Gonick brilha, exibindo as suas qualidades de pedagogo a par com um sentido de humor refinado e um domínio óbvio dos mecanismos narrativos da banda desenhada, é na série A História do Universo em Banda Desenhada, de que a Gradiva já publicou dois volumes (alterando o título do segundo para A História da Humanidade em Banda Desenhada). No primeiro, acompanhamos o narrador (um antigo estudante de matemática em Harvard) numa viagem temporal que começa no big-bang e termina com a ascensão política de Alexandre, o Grande. O segundo, e com vários avanços e recuos cronológicos, apresenta a alvorada da China e termina coma queda do Império Romano. Algures entre o materialismo dialéctico de Marx e a teoria budista da causa-efeito, Larry Gonick apresenta uma visão da história onde as relações sociais assumem a mesma importância que o acaso, e a curiosidade intelectual garante resultados tão essenciais como os acidentes de percurso. Não será reconfortante para a grandeza do ego humano, mas tem a enorme vantagem de refrear a fé inabalável no poder das ‘massas’ e de equilibrar a visão grandiosa dos feitos humanos com a dose necessária de modéstia.

Fiel ao seu propósito original, Larry Gonick dedica à ciência, no sentido mais lato possível, uma atenção particular, relacionando qualquer período histórico e os seus episódios mais marcantes com a evolução do conhecimento dos elementos e da sua interacção. Isto a partir do momento em que o ser humano surge na história, algures a partir da página 58. Antes disso, assistimos à agitação cósmica que terá formado o universo, à formação da atmosfera terrestre e ao aparecimento das primeiras formas de vida, acompanhando, entre a narrativa principal e as hilariantes notas de rodapé, algumas teorias sobre o processo. Condições químicas para a evolução das espécies, extinções discretas ou cataclismos, alterações climatéricas que deixariam a Cimeira de Copenhaga sem fala e bichos que se devoram uns aos outros com o mesmo requinte com que tribos chacinarão outras tribos uns capítulos adiante compõem a fase anterior ao Homem. Depois, o cenário torna-se mais divertido e as descobertas que hão-de apelidar-se de científicas sucedem-se entre o acaso e a necessidade, com umas pauladas nos crânios ainda em formação pelo meio. O fogo, o fabrico de ferramentas e a agricultura desencadeiam a organização social e a marcha torna-se imparável. Quando chegamos à Suméria, já com a roda, o trabalho dos metais e o fascínio pelo ouro em plena laboração, a técnica subirá alguns pontos com a introdução dos registos matemáticos no dia a dia dos comerciantes. E na Babilónia, Gonick descobre os primeiros nerds da história, teorizando sobre o valor de Pi enquanto decidiam o modo mais justo de trocar cabras. Daí às movimentações que fizeram suceder e derrubar impérios, parece ter sido um pulinho, apesar do número de cabeças que rolaram (ou se esborracharam, ou foram atravessadas, dependendo do requinte dos instrumentos, logo, da capacidade técnica e científica de cada agressor) entretanto.

História do Universo de Gonick não é exactamente uma história da ciência, e para efeitos tanto de pedagogia histórica como de hilaridade, os episódios bíblicos, a Guerra de Tróia ou o nascimento da República romana parecem mais memoráveis do que a informação dispersa de carácter científico. No entanto, percebe-se que o projecto do autor passa pela leitura global da história das civilizações a partir não apenas das movimentações sociais e dos instintos mais básicos da natureza humana, mas igualmente do modo como a matéria da natureza se foi revelando e as várias interacções possíveis com ela foram sendo descobertas e aplicadas ao quotidiano. Ainda estamos longe do volume que falará da pólvora, da electricidade, ou da bomba atómica, mas não é difícil prever o fascínio que cada uma destas invenções exerce a partir das vinhetas onde Gonick retrata a descoberta do fogo, o aparecimento em cena do ouro ou as disputas territoriais no tempo em que os babilónios discutiam o Pi ou os chineses se dedicavam ao fabrico do papel. Já lá estava tudo, só faltava um rasgo de génio ou um ridículo acaso para a revelação se tornar possível.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº88, Fev.2010)

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