Recortes: Krazy+Ignatz+Pupp

HERRIMAN, REI DOS FUNNIES

Entre os finais do século XIX e a primeira metade do XX, o ritual dominical de um leitor americano incluía, com o mesmo grau de importância, a leitura das notícias e a dos funnies, nome dado à secção de banda desenhada, cartoon e ilustração que qualquer jornal de prestígio começava a incluir. George Herriman foi uma das presenças históricas na imprensa dessa época, publicando, entre 1913 e 1944, centenas de histórias de Krazy Kat, um gato com potencial para ser a personagem mais ambígua, e uma das mais geniais, da história da banda desenhada.

O enredo base de quase todas as narrativas de Krazy Kat assenta no triângulo amoroso que une Krazy (o gato cujo género nunca se tornou claro), o rato Ignatz, que odeia Krazy tanto quanto este (ou esta) o venera, e Pupp, o cão polícia que é apaixonado por Krazy e que ocupa o tempo encerrando Ignatz na cadeia em consequência das malfeitorias que este faz contra o gato, nomeadamente o constante arremesso de tijolos em direcção à sua cabeça felina. As infindáveis variações que Herriman alcança a partir desta espécie de cliché atestam o seu virtuosismo narrativo, mas a generalidade da obra não se explica tão somente pelas combinações e variações sobre um mesmo tema, ou pela capacidade de explorar esse tema aparentemente linear introduzindo-lhe uma panóplia de temas da actualidade (da proibição do consumo de alcool às questões políticas que dominavam a América da época) sob a forma de metáforas inocentemente harmoniosas com o enredo habitual. É preciso acrescentar que a herança de Herriman no que diz respeito à exploração das potencialidades da linguagem da banda desenhada é incomensurável, pelo modo como transformou o cenário, a terra de Coconino, num elemento essencial da narrativa (e em fulgurante mutação ao longo de uma mesma história), pela reflexão que desenvolve sobre os limites que o médium da banda desenhada parecia querer manter estanques e sobretudo pela forma, harmoniosa, intrincada e poucas vezes concretizada com tamanha excelência de pôr em funcionamento uma máquina narrativa onde texto e imagem não são dois níveis que avançam em paralelo, mas antes um único modo expressivo, indivisível e absoluto.

Com a edição da Livros Horizonte, que não chegou a concluir o número de volumes previstos, há muito desaparecida do mercado, Krazy Kat volta às livrarias pela mão do editor Manuel Caldas, o principal responsável por várias edições de banda desenhada cujo trabalho de tradução, recuperação e restauro da cor original têm tornado acessíveis séries que muitos leitores nunca conheceram senão de ouvir falar (é o caso do Príncipe Valente, de Harold Foster, cujos volumes têm saído calma e correctamente, revelando uma dedicação editorial da ordem do filológico). A antologia editada com o selo Libri Impresi, Krazy+Ignatz+Pupp, reúne quarenta e duas pranchas publicadas entre 1937 e 1944 nas páginas dos diários de William Randolph Hearts, um dos magnatas da imprensa norte-americana.

O problema maior de qualquer edição de Krazy Kat fora da língua inglesa é a sua tradução, e o trabalho de João Ramalho Santos neste volume, que faz o melhor possível dentro de um quadro onde a impossibilidade é uma forte sombra, confirma as dificuldades. Herriman utiliza a linguagem verbal de um modo magistral, erguendo-a harmoniosamente a par com o desenho e a progressão gráfico-narrativa. Longe dos mecanismos mais frequentes do humor dos funnies (cai um caixote, obviamente sobre uma cabeça incauta, e esse é o momento do riso), o autor recorre a um complexo edifício de figuras de estilo e regras da lógica para desenvolver o humor, aproximando-se mais da literatura que integrava as suas referências preferenciais, do que da linearidade habitual nos gags cómicos. Com a tradução para o português, a ambiguidade quanto ao género desaparece, facto que não é inédito nas traduções de Krazy Kat em várias línguas, mas a perda maior tem a ver com a intransponibilidade dos jogos fonéticos, dos recursos dialectais e dos trocadilhos linguísticos. É ingrato para o trabalho cuidado (e imprescindível) do tradutor, mas a tradução, esta ou qualquer outra, é uma espécie de amputação da riqueza suprema de Krazy Kat, cuja presença se aceita unicamente pela felicidade de ver regressar uma obra-prima aos escaparates das livrarias portuguesas.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº87, Jan.2010)

One response to “Recortes: Krazy+Ignatz+Pupp

  1. Não sabia que Manuel Caldas continuava a publicar livros e depois de ler esta excelente resenha vou procurar o Krazy Kat. Deixei de comprar o Príncipe Valente depois de me terem dito que ele já não era o responsável a partir do 6º volume. Ao que parece, o sócio dele roubou-lhe o projecto.

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