Tommi Musturi, Caminhando com Samuel, Mmmnnnrrrg

Apesar da boa recepção do último Salão Lisboa, em 2005, que teve a Finlândia como país convidado, poucos foram os nomes do programa que transitaram da exposição para a edição, e esses poucos chegaram unicamente às páginas de curta tiragem de revistas e fanzines. Quatro anos depois, cabe à Mmmnnnrrrg a publicação de uma obra de Tommi Musturi, um dos nomes de primeira água da banda desenhada finlandesa contemporânea, convidado do Salão Lisboa e um dos participantes da recente exposição Glompx, que passou pela Bedeteca de Lisboa.

Caminhando Com Samuel estrutura-se como a narrativa de um milagre, mas um milagre onde a hipotética intervenção divina perde importância perante a incomensurável experiência do indivíduo. Onde o Génesis descreve os seis dias atarefados de Deus criando o mundo, Musturi prefere a explosão de um big-bang, e em vez de seres a caminho da condição humana através da aquisição da consciência, Samuel surge descontraidamente por entre as árvores, com um cigarro na boca e sem vestígios de culpa ou frutos proibidos. As diferenças assumem o ponto de vista individualista de Samuel, sem no entanto apagarem as reminiscências genesíacas, confirmando este livro como uma visão da criação do mundo, um roadbook cosmogónico onde o olhar da descoberta primordial se mantém até ao fim. Mas onde as cosmogonias (entre elas o Génesis) encenam a criação num tempo recuado e definitivamente perdido, Samuel parece assumir uma condição atemporal, um estado de permanência que o faz atravessar eras, estados de alma e espaços com o mesmo deslumbramento e a mesma disponibilidade para o mundo que trazia no início, quando surgiu por entre a vegetação.

Sem texto ou qualquer elemento verbal, o trabalho narrativo de Musturi assenta na utilização da cor, diferenciando e fazendo progredir espaços e emoções, e na linguagem corporal da personagem de Samuel, singela na sua estrutura, mas capaz de uma expressão sem limites, sobretudo na interacção com a composição das pranchas, estruturadas com base em linhas que, apesar da sua fluidez, deixam perceber as relações matemáticas que lhes servem de base. O modo de Samuel olhar o mundo sem o peso da História prevê o acaso como uma possibilidade, tão colocada em dúvida pela meticulosa geometria dos elementos como confirmada pela sua própria errância sem sentido. Aqui, não há respostas, só deslumbramentos.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso, suplemento Actual, 12 Nov. 09)

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