Recortes: Ricardo Cabral, Israel Sketchbook, Ed. Asa

VIAGEM EM CONSTRUÇÃO

Depois de Everest, a banda desenhada que narrava a expedição do alpinista João Garcia ao topo dos Himalaias, Ricardo Cabral assina agora um livro de viagens onde as imagens, na sua aparência de simples registos de passagem, se revelam matéria primordial para uma narrativa.

O título aponta uma direcção que não deve ser assumida na sua acepção mais imediata. Um sketchbook costuma reunir desenhos não necessariamente terminados, esboços que resultam da observação de algo (por vezes associado a uma viagem) e que tendem a permanecer como apontamentos, sem que a publicação (também no sentido de ‘tornar público’) seja o seu objectivo primeiro. Mas se Israel Sketchbook começou por ser uma série de desenhos feitos in loco por Ricardo Cabral, a sua passagem a livro fez-se acompanhar da construção de uma história, transformando o gesto inicial de registar imagens e ambientes numa narrativa, perfeitamente enquadrável no território da banda desenhada, não apenas porque os seus desenhos compõem uma sequência, mas igualmente porque essa sequência se estrutura a partir da relação intrínseca entre texto e imagem.

Partindo de Telavive, o narrador vai registando os cenários onde passa algum tempo, as pessoas que com ele se cruzam e os episódios em que se vê envolvido: praças, sinagogas, casas de amigos ou restaurantes de fast-food, mas também cenários mais intimidatórios, como a Faixa de Gaza ou os postos de controlo. Sem roteiro prévio, visita outras cidades, sozinho ou acompanhado por M., a rapariga que entretanto conhece em Safed, e as impressões da viagem vão construindo um percurso à medida que este se desenvolve, uma simultaneidade que faz da própria narrativa um itinerário, com as etapas definidas por separadores que começam como um esboço e terminam coloridos e com todos os pormenores assinalados, inclusive os cartográficos, que se vão revelando à medida que a viagem avança.

Os desenhos, traçados a preto e branco durante a viagem e posteriormente coloridos, por vezes com recurso a fotografias (informação dada na introdução), ocupam sempre duas páginas, configurando pranchas sumptuosas, onde a riqueza do pormenor, a definição das tonalidades dentro de um espectro reduzido de cores e os jogos de luz confirmam aquilo que Everest já tinha esboçado, mas agora de um modo mais livre relativamente ao processo de construção narrativa. Longe de condicionalismos de forma ou de estruturação, Israel Sketchbook contém todas as qualidades que fazem de uma viagem um livro memorável.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, nº85, Nov. 09)

Nota: na Ler deste mês escrevo sobre Mucha, de David Soares, Osvaldo Medina e Mário Freitas (Kingpin Books)

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