Recortes: Zeina Abirached, Mourir, Partir, Revenir. Le Jeu des Hirondelles, Cambourakis

hirondelles

Nascida no Líbano, em 1981, Zeina Abirached tem desenvolvido o seu trabalho em torno da matéria autobiográfica, reconstruindo memórias de infância numa Beirute dividida pela guerra. No seu terceiro livro, as memórias reportam a 1984 e às dificuldades enfrentadas pelos habitantes da capital libanesa no seu dia a dia. O quotidiano é, aliás, o ponto de vista a partir do qual se estrutura esta narrativa, que abre com uma belíssima sequência de vinhetas onde se mostram as adaptações criadas pelos habitantes do bairro de Zeina de modo a evitarem que as suas casas resultem em danos colaterais.

Quando os pais saem de casa para visitar a avó materna, Zeina, a narradora, e o seu irmão ficam aos cuidados de uma amiga da família, entretidos com jogos como se nada se passasse. Lá fora, o percurso mais seguro entre as duas casas (ilustrado por duas pranchas onde os símbolos cartográficos reduzem a informação ao essencial, recorrendo aos elementos infográficos que marcam presença em todo o livro) torna-se impraticável pela presença de um franco-atirador, e a espera de Zeina e do irmão inicia uma contagem sufocante. Chegam vizinhos e amigos, fugindo dos tiros e teimando em manter uma rotina de normalidade por entre os assobios dos obuses. Bebe-se café e whisky, salvo de um restaurante destruído, joga-se, recitam-se excertos do Cyrano de Bergerac, guarda-se a esperança. E ao longo da espera, a narrativa vai fazendo desfilar as histórias das personagens: Chucri, o taxista perito em esquemas de sobrevivência, Ernest, que perdeu o irmão gémeo na guerra, Linda, antiga Miss Líbano, Khaled, o dono do restaurante destruído. E também Farah e Ramzi, o casal que aguarda um visto para emigrar, esgotada a esperança de viver pacificamente em Beirute.

Focada a partir do olhar da criança que era Zeina, a narrativa de Le Jeu des Hirondelles resgata da guerra o quotidiano possível, equilibrado entre a persistência resignada e a consciência da precariedade, como nota a avó de Zeina, ao telefone: “Penso que apesar de tudo, estamos, talvez, mais ou menos seguros aqui”.

A comparação com Persépolis, de Marjane Satrappi, surgida em algumas criticas, diz mais sobre uma leitura limitada do que sobre qualquer das obras. Partilhando o preto e branco e alguma iconografia, pouco mais une as memórias épicas de Satrapi e a sua narrativa do Irão às memórias quotidianas de Zeina enquanto a história lhe desfila à porta da infância. Mas talvez a boa recepção junto do grande público as possa unir de modo mais lógico.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Actual, do Expresso, Out.09)

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