Recortes: Javier de Isusi, O Cachimbo de Marcos, Ed. Asa

cachimbo1

Primeira obra do basco Javier de Isusi, O Cachimbo de Marcos inaugura a série ‘As Viagens de Juan Sem Terra’, registo das deambulações de Vasco em busca do amigo Juan, desaparecido misteriosamente. Num preto e branco que tira o melhor partido das sombras e da sua capacidade de criar volumes e contrastes, Isusi constrói uma narrativa que convoca o romantismo das revoluções ao mesmo tempo que o questiona, num exercício capaz de inquietar os corações mais utópicos.

Longe da caricatura do aventureiro, o que o leva Vasco ao México é a vontade de encontrar Juan e as notícias que o dão como alistado no Exército Zapatista e estacionado em La Realidad acabam por colocá-lo a caminho. Nem aventureiro, nem pícaro, Vasco envolve-se no enredo de um modo quase blasé, mesmo que a suspeita de Juan ser apenas a miragem que serve de pretexto à viagem se insinue com o avançar da narrativa (prolongando-se no volume seguinte, já publicado em Espanha).

Com a figura tutelar do Subcomandante Marcos garantindo a emoção e o comprometimento necessários à resistência, o acampamento de La Realidad é o terreno onde os gestos, as dúvidas e as inquietações de Vasco ganham a dimensão exacta da sua própria fragilidade. Sem alinhar no deslumbramento romântico dos europeus instalados no campo, mas capaz de atitudes de grandeza incomensurável nascidas do simples impulso, Vasco ecoa com frequência a memória de Corto Maltese, quer nos traços fisionómicos (mais estilizados que os de Pratt, mas ainda assim reconhecíveis), quer sobretudo no modo desinteressado de agir.

O rosto coberto do Subcomandante Marcos garantiu-lhe segurança e transformou-o em ícone revolucionário, mas teve igualmente o efeito de permitir que Marcos fosse qualquer pessoa. Usar o passa-montanhas, fumar cachimbo e afirmar-se Marcos é, para todos os efeitos, ser Marcos, facto que atravessa este livro, ganhando expressão no cenário sombrio que enquadra a suposta aparição do Subcomandante. E enquanto os néscios aceitam a miragem à força de quererem ver Marcos, e os interesseiros se fazem passar por ele, Vasco aceita que o seu interesse é não ser ninguém, a máscara a que qualquer rosto se pode colar. É essa a viagem autêntica e, perante a última revolução romântica da História, a narrativa de Vasco mantém um distanciamento cauteloso, observando com interesse e participando de coração aberto, mas percebendo que só a saudável ironia e uma constante resistência às armadilhas do maniqueísmo garantem a sanidade mental para prosseguir.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, nº80, Maio 09)

Anúncios

One response to “Recortes: Javier de Isusi, O Cachimbo de Marcos, Ed. Asa

  1. tava pra linkar o blog de vcs la no meu ha um tempao,hj fui fzer isso e vi que tão com endereço novo,linkei esse aqui mesmo..fiz certo?parabens pelo trabalho aí..força sempre

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s