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Recortes: Antón Fortes & Joanna Concejo, Fumo, OQO

Não é demais insistir na falaciosidade que se esconde no conceito de ‘livros para crianças’, aglutinando tudo o que tenha texto e imagem como se a curta sapiência dos mais novos não tolerasse mais do que ‘bonecos’ e como se a a cultura dos mais velhos não se dignasse a ler imagens. A mais recente edição da OQO corre o risco de ser ignorada graças a esse preconceito duplo: por um lado, não é um livro imediatamente recomendável para todas as crianças, por outro, a sua construção depende tanto do texto como das imagens, o que afastará boa parte dos adultos. E no entanto, trata-se de um livro merecedor de todos os destaques e de uma leitura sem as baias da ‘idade recomendada’.

Levada para um campo de concentração, a criança que narra Fumo estrutura as suas impressões a partir do universo que lhe é familiar, onde não se vislumbra o edifício do horror com toda a crueza com que se afirmou nos campos de morte nazis. Não se trata, no entanto, de uma narrativa que filtra o caos a partir do engano, convertendo-o numa encenação (ao jeito do filme de Benigni que levou tantos espectadores às lágrimas); o narrador de Fumo não é poupado ao que vê e vive, mas a crueza do que o rodeia é interpretada a partir da infância que ainda não lhe foi totalmente roubada, como se percebe, por exemplo, na imagem em que a mãe, de cabelo rapado, sorri sobre um fundo florido depois de ter avistado o seu marido. A narrativa de Fumo equilibra a extrema fragilidade de um olhar infantil, dividido entre a inocência enternecedora e a cruel percepção da morte, com a brutalidade dos acontecimentos que descreve, e que culminarão à entrada das câmaras de gaz.

A concisão do texto e a sua relação intrínseca com as imagens, belíssimas composições onde predominam os tons sépia e um uso parcimonioso da cor, definem uma narrativa visual/verbal que regista, na primeira pessoa, uma experiência dolorosa, transportando, por sinédoque, a experiência dos milhões de pessoas que passaram pelos mesmos campos, pelas mesmas atrocidades. Nenhuma viveu o mesmo, e todas o viveram, mesmo que só o narrador de Fumo tenha visto dragões onde os outros viram corpos enforcados.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso, suplemento Actual, 23 Jan. 10)