Arquivo da Categoria: Livros

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Livros que vieram com o Natal

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Joe Sacco, The Great War (Jonathan Cape, 2013)

Recortes: David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo

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David Soares e Pedro Serpa
Palmas Para o Esquilo
Kingpin Books

David Soares tem construído a sua obra em banda desenhada através de livros onde podemos identificar uma história, enquanto sequência de acontecimentos contados a partir de um determinado ponto de vista, mas onde o magma narrativo é essencialmente alimento para outras reflexões. Em Palmas Para o Esquilo, onde volta a trabalhar com o desenhador Pedro Serpa (de O Pequeno Deus Cego), Soares leva um pouco mais longe aquilo que já pode, ao fim de tantos livros, entender-se como um programa, elaborando uma história onde o registo ensaístico é eixo fundamental.

Duas linhas diegéticas correm em simultâneo, uma pela voz do narrador, outra pela acção concomitante de imagem e texto em balões de fala. Se a segunda é a que permite acompanhar a história do protagonista (internado naquilo que parece ser um manicómio), através de uma analepse que recua à sua infância e à origem de certas obsessões, a primeira é a que alimenta o gesto, visceral mas metódico, de reflectir sobre a loucura. Nessa reflexão, Soares faz desfilar teorias e arcanos, visões teológicas e interpretações psicanalíticas, sempre num discurso mais voltado para ser alavanca de pensamentos do que para impor conclusões sobre o tema. A linha clara de Pedro Serpa não oferece diálogo ou desafio, cumprindo com segurança e sem fulgor a construção narrativa de David Soares, mas essa fraqueza acaba por colocar do lado do argumento e da storyboard o ónus de força deste livro, oferecendo à arquitectura narrativa e ao seu conteúdo um palco iluminado onde podem brilhar as questões, o raciocínio e as dúvidas de Soares sobre o modo como nos relacionamos com o mundo e com o inferno que, de um modo civilizado ou, pelo contrário, desregrado, guardamos por entre as meninges.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso/Actual, Dez. 2013)

Dez livros de 2013

actualdez2013

Isto das listas, já se sabe, é um exercício vão de memória. Escolhem-se títulos que marcaram o ano nas leituras de cada um, mas fica sempre o temor de deixar de fora coisas muito mais interessantes, coisas que não lemos ou que pensamos ter lido há mais tempo. No Expresso, a tarefa é facilitada pelo facto de só escrever sobre banda desenhada, ilustração e territórios afins. Fica aqui a minha lista do ano que passou, mais o textinho que a acompanhava na edição do dia 28 de Dezembro do Actual (onde aproveitei os caracteres para fugir aos territórios habitais):

Carla Maia de Almeida, Irmão Lobo (Planeta Tangerina)
André da Loba, Bestial (Pato Lógico)
Mandana Sadat, O Jardim de Babaï (Bruaá)
Jean-Luc Fromental & Joelle Jolivet, 365 Pinguins (Orfeu Negro)
Aaron Frisch e Roberto Innocenti, A Menina de Vermelho (Kalandraka)
Francisco Sousa Lobo, O Desenhador Defunto/ The Dying Draughtsman (Chili Com Carne)
David Soares e Pedro Serpa, Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books)
Marcel Ruijters, Inferno (Mmmnnnrrrg)
André Diniz, Morro da Favela (Polvo)
Mariette Tosel, WC (Mmmnnnrrrg)

A edição de banda desenhada voltou a retrair-se, mantendo-se os projectos editoriais mais pequenos como último reduto dos livros que vale a pena levar de 2013. Chili Com Carne, Polvo e Kingpin Books salvaram a safra, mas ficou algum pessimismo no ar. No caso da ilustração e dos álbuns, a crise não foi decisiva, talvez porque o sector dito infantil é aquele que melhor se aguenta em tempos de precariedade. Quebrando a regra de só referir livros de BD, ilustração e territórios afins, com a inclusão habitual da categoria infantil-juvenil que serve mais à arrumação livreira do que a qualquer leitura, junto dois livros fora deste âmbito, ambos da Letra Livre, fundamentais para compreender a edição e os modos de trabalhar com livros: O Negócio dos Livros, de André Schiffrin e & etc, Uma Editora no Subterrâneo, coordenado por Paulo da Costa Domingos. Sem eles, o ano editorial ficaria incompleto.

VSAdH/EdWB/IpAN (uDdPL)

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Amanhã, pelas 18h00, no espaço Fabrica Features (Chiado), inaugura a exposição a partir do livro Variações Sobre o Anjo da História/Ensaio de Walter Benjamin/Inspirado por “Angelus Novus” (um Desenho de Paul Klee), de Pedro Moura e Ilan Manouach (La Cinquième Couche/ Montesinos).

“VSAdH/EdWB/IpAN (uDdPL), ou Variações Sobre o Anjo da História/Ensaio de Walter Benjamin/Inspirado por “Angelus Novus” (um Desenho de Paul Klee)” é uma coleção de 48 poemas em prosa de Pedro Moura com desenhos do artista grego Ilan Manouach. 
Co-publicado pela belga La Cinquième Couche e a chancela editorial Montesinos, em edição bilingue, este livro apresenta um bestiário a partir da mais famosa imagem de Walter Benjamin, criando um objecto que ocupa a zona desmilitarizada entre a ilustração, a banda desenhada e o livro de artista, dissolvendo as suas fronteiras. 
Uma tempestade caleidoscópica em torno das ruínas da história, VSAdH/EdWB/IpAN (uDdPL) quer reelectrificar o enigma.

Prémio Nacional de Ilustração

anabiscaia

Ana Biscaia é a vencedora da 17ª edição do Prémio Nacional de Ilustração, com o livro A Cadeira Que Queria Ser Sofá (texto de Clovis Levi , edição Lápis de Memória). Atribuído pela Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, o prémio teve como júri Adriana Baptista, professora na Escola Superior de Educação do Porto, Manuel San Payo, professor da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, artista plástico e ilustrador, e Cristina Grácio, em representação da DGLAB.

Para além do prémio, o júri atribuiu ainda duas menções especiais, uma a Tiago Manuel, pelo livro Mário de Sá-Carneiro: Antologia Poética (Kalandraka), e outra a André Letria, pelo livro Mar, com  texto de Ricardo Henriques (Pato Lógico).

(via Público on-line)

Recortes: Rugas

Rugas

Paco Roca
Rugas
Bertrand Editora
Tradução de Joana Neves

Ao contrário de Cícero

As primeiras pranchas de Rugas podiam ser a resposta contemporânea às ideias optimistas de Catão no livro que Cícero dedicou à velhice. O contraste entre o que Emílio, personagem principal desta narrativa, pensa estar a viver e aquilo que realmente vive inaugura um espaço de fragilidade que em nada se parece com a visão iluminada de Catão quando opõe à degradação física e à perda de força as inúmeras maravilhas da sapiência de experiência feita. Emílio está velho e o seu problema maior não é o corpo em degradação, é a cabeça confusa, o não saber onde está, o duvidar sobre quem é ele e os que o rodeiam. E os que o rodeiam já não são a sua família mais próxima, mas antes os habitantes de um lar, a casa onde os Emílios de várias famílias foram colocados para viverem os seus dias de confusão e dependência entregues aos cuidados de enfermeiros e outros especialistas na chamada terceira idade.

O percurso de Emílio nesta narrativa gráfica faz-se através do registo quotidiano da sua passagem pelo lar, mas igualmente pelas analepses que convocam memórias e onde a linguagem verbal-visual permite confrontar as feições de ambos os tempos, fazendo da personagem e dos seus medos um campo de batalha emocional onde é fácil reconhecermo-nos. Roca socorre-se de outros recursos gráficos para dar a ler a progressiva perda de memória de Emílio, usando os rostos desenhados sem fisionomia e as vinhetas em branco para ilustrar os passos desse processo. Quando os espaços por preencher ocupam a totalidade da prancha, o branco torna-se suficientemente eloquente e a ausência de signos na página assume-se como a única gramática possível para descrever a frágil teia de incompreensões em que se transformou a mente de Emílio. As cenas onde surgem personagens fisicamente incapacitadas, gente que precisa de ajuda para comer, para ir à casa de banho, ou para saber onde está serão as mais imediatamente reconhecíveis nesta história pouco luminosa, e talvez as que maior impacto causem numa primeira leitura, mas ainda assim não se afastam de uma certa constatação sobre o progresso natural e inevitável de um corpo, devedor da biologia e não apenas das ideias ou da moral. Onde Rugas verdadeiramente se confirma como um livro comovente (não pela lágrima fácil, mas antes pelo entendimento etimológico do termo, no sentido de abalar fortemente) é nesse espaço progressivamente em branco onde nada pode dar crédito as boas ideias de Catão sobre a velhice e onde tudo assegura um vazio, democrático e cruel, ao qual parecemos estar destinados.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, Maio 2013)

Recortes: Mesinha de Cabeceira #23

MdC23
VVAA
Inverno
Chili Com Carne

Experiências e Abanões

O volume em formato de bolso, com a lombada a deixar as entranhas da encadernação à mostra, não parece enquadrar-se no universo fanzinesco, mas este Inverno é mesmo o número 23 do Mesinha de Cabeceira (MdC), fanzine já mítico editado pela Chili Com Carne que cumpriu recentemente duas décadas de vida.

Na introdução, o editor Marcos Farrajota fala dos vinte anos da publicação com o à vontade vernacular que o caracteriza e explica que o primeiro MdC nasceu da necessidade: não havendo publicações dispostas a acolher a sua produção, a de Pedro Brito (o outro editor do fanzine, nos primeiros anos) e a de vários autores que começavam a experimentar os terrenos da banda desenhada, criaram uma que o fizesse e ainda experimentaram a satisfação da vingança. O que talvez não tenham imaginado foi o potencial que se guardava naquelas primeiras páginas, em 1992, e que haveria de desenvolver-se numa teia de colaborações, experimentalismos, abanões estéticos e narrativos de toda a espécie e a capacidade de manter uma publicação arejada e vibrante ao longo de tanto tempo. De tal modo que quem queira, hoje, conhecer o que se faz no campo da banda desenhada de autor e com poucas preocupações comerciais pode continuar a usar o MdC, e concretamente este número 23, como guia fiável.

A lista de autores inclui vários suspeitos do costume, presenças habituais neste universo editorial que aqui confirmam a evolução natural que duas décadas de persistência e talento permitem (casos de João Fazenda, João Chambel, Filipe Abranches ou Bruno Borges), e algumas colaborações novas, como Sílvia Rodrigues, Uganda Lebre ou Lucas Almeida, entre muitos outros. Desta colecção de nomes e trabalhos resulta um gesto que mantém em forma elevada aquilo que a Chili sempre conseguiu produzir nas suas antologias de maior dimensão: uma babel de traços e estilos numa estranha e inquietante harmonia, o que dá ao volume uma coerência que não pode ter sido planeada mas que é o melhor exemplo dos motivos que mantêm estas pessoas a trabalhar juntas há tanto tempo. E se a coerência do conjunto não nasce do traço ou do estilo, é provável que se deva aos temas, uma radiografia nítida daquilo a que chamamos ar do tempo, com o tom apocalíptico, o peso do desperdício, a contaminação (real, nos montes de lixo que excedem da indústria de consumo e ocupam os campos, e visual, nas manchas que parecem alastrar como fungos) e uma certa ideia de no future que deve muito ao punk, mas deve ainda mais aos dias que vivemos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, Março 2013)

Recortes: Comprimidos Azuis, de Frederik Peeters

ComprimidosAzuis
Frederik Peeters
Comprimidos Azuis
Devir/Biblioteca de Alice

 

A AMEAÇA DA INTIMIDADE

Mais de uma década depois da sua publicação original, o livro que catapultou o suíço Frederik Peeters para o circuito da chamada banda desenhada de autor chega às livrarias portuguesas, reforçando a presença paulatina de obras de referência de grandes autores mundiais nos nossos escaparates. Inserido na cada vez mais falada linha autobiográfica, Comprimidos Azuis conta a história de como Peeters conheceu a sua namorada, Cati, iniciando uma relação que rapidamente se veria abalada pela presença do vírus do HIV. Cati é seropositiva, assim como o seu filho pequeno, e o modo como o vírus se insinua nos campos mais óbvios ou nos mais inesperados da relação a dois, inicialmente, e depois a três, já que o filho de Cati acabará por se integrar nesta nova família, ocupa parte considerável desta narrativa.

Quando colocado ao lado de obras com uma linhagem comum – e aqui falaríamos de autores que exploram a autobiografia enquanto matéria ficcional, mas mantendo com os factos uma proximidade mais forte do que a vontade de os extravasar em direcção a experimentalismos ou relações menos óbvias entre ficção e verosimilhança, como Craig Thompson ou Miguel Gallardo – um dos aspectos mas interessantes de Comprimidos Azuis é o uso que Peeters faz dos planos em close-up e dos contra-picados, quase forçando ângulos imprevisíveis num gesto que obriga o leitor a alterar a sua percepção formatada. De certo modo, é uma alteração que não se cinge aos cenários e aos objectos, espalhando o seu efeito pela percepção do que pode ser viver com o vírus da sida. Por outro lado, o uso de uma figuração que recorre a elementos inverosímeis nos contextos apresentados (o rinoceronte que passa a perseguir Peeters quando este teme ter sido contagiado com o vírus, o mamute que surge no fim, forçando uma reflexão) é uma estratégia eficaz e surpreendente para fugir a um realismo que, isoladamente, poderia ser desastroso para uma narrativa com estas características. Peeters nunca cede ao didactismo, tentador num livro que aborda a temática da sida, e nem sequer faz desta uma história sobre a doença, deslocando o seu eixo para o tema da intimidade. Que essa intimidade seja moldada por um vírus é um aspecto que particulariza Comprimidos Azuis, sem dúvida, mas os abismos emocionais são património da humanidade e, como bem lembra o mamute que cita Epicteto e que surge no final da narrativa para recentrar Peeters no que realmente importa, “contenta-te apenas em apreciar a tempo as coisas que têm um fim…”. Todas, portanto.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº121, Fev. 2013)

Recortes: Dois livros de Cyril Pedrosa

ESCAVAR RAÍZES

A empatia fará com que se veja Portugal (Asa) como um livro sobre o regresso às origens, e de certa forma é disso que se trata, ainda que o peso dessas origens não passe tanto pela nacionalidade, e sim pela família enquanto elemento fulcral para a definição de uma identidade. Simon Muchat, o narrador cujas semelhanças biográficas com Cyril Pedrosa permitem o abuso de o ler como alter-ego, é um jovem francês descendente de portugueses e o início da história encontra-o perdido entre uma relação amorosa condenada e a indefinição sobre o que fazer da vida. Essa terra de ninguém emocional leva-o a uma aproximação à família, em França, e é no convívio com os outros que começa a ganhar forma um olhar menos centrado no seu umbigo e a consequente vontade de perceber as histórias alheias. Nesse vórtice identitário, surge a vontade de conhecer Portugal, terra dos avós, e a viagem que acaba por transformar-se em estada prolongada será a matéria com que Simon moldará um novo olhar sobre si e os outros. O traço, equilibrando a definição pormenorizada e o registo de esboço, trabalha com dedicação as cores aguareladas, definindo predominâncias de um tons em função do episódio narrativo.

pedrosaportugal Pedrosasombras

Editado quase ao mesmo tempo que Portugal, o livro Três Sombras (Polvo) é anterior, tendo sido publicado em França em 2007. A preto e branco, o traço deixa reconhecer marcas que Pedrosa tem mantido, sobretudo ao nível dos apontamentos gráficos (nuvens, vestígios de movimento, etc), mas a modelação de personagens e cenários é menos sinuosa e mais arredondada, em consonância com o tom feérico da narrativa. A vida de uma família de camponeses é abalada por um oráculo que dita a morte do filho do casal, e esse é o ponto de partida para a fuga atribulada que pai e filho empreenderão, tentando contrariar o destino. Na sua aparente simplicidade, Três Sombras é uma narrativa densa, carregada de simbolismo e de referências arquetípicas onde não faltam as parcas, mas é sobretudo uma reflexão sobre o destino, a morte e o modo como os seres humanos sempre oscilaram entre a consciência da sua finitude e a vontade de lutar contra os ‘deuses’ para a impedir.

As diferenças entre os dois livros são notórias, no tipo de narrativa e no modo de a configurar gráfica e plasticamente, mas une-os um trabalho de introspecção sobre as pequenas tragédias individuais enquanto característica definidora do colectivo a que chamamos humanidade. E desse ponto de vista, os dois livros confirmam Pedrosa como um autor que importa acompanhar.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº120, Jan.2013)

VSAdH/EdWB/IpAN (uDdPL)


Na próxima sexta-feira, dia 8, pelas 19h00, a Nouvelle Librairie Française e a Associação Chili Com Carne apresentam a exposição a partir do livro Variações Sobre o Anjo da História/Ensaio de Walter Benjamin/Inspirado por “Angelus Novus” (um Desenho de Paul Klee), de Ilan Manouach e Pedro Moura,
uma co-edição bilingue (português e francês) La Cinquième Couche e Montesinos.

A exposição poderá ser vista até ao dia 8 de Março no espaço da Nouvelle Librairie Française, em Lisboa.

O Hábito Faz o Monstro, o livro

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No próximo dia 2 de Fevereiro, na SMUP (Parede), lança-se o livro O Hábito Faz o Monstro, de Lucas Almeida, numa edição antológica da Chili Com Carne.

Mário de Sá Carneiro ilustrado por Tiago Manuel

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A Antologia Poética de Mário de Sá Carneiro, com ilustrações de Tiago Manuel (edição da Kalandraka), lança-se hoje à noite, pelas 21h30, na Papa-Livros, e amanhã, pelas 16h30, na Gigões e Anantes.

Recortes: Fun Home

Alison Bechdel
Fun Home – uma tragicomédia familiar
Contraponto
Tradução de Duarte Sousa Tavares

Depois de Persépolis, de Marjane Satrapi, a Contraponto regressa ao filão da chamada banda desenhada autobiográfica com Alison Bechdel e um livro que, em 2006, marcou o ano editorial norte-americano. Etiquetas pré-definidas à parte, Fun Home não é a história da vida de Alison, pelo menos no sentido arrumado e completo com que se imagina poder narrar uma vida, mas antes uma reflexão dolorosa e sem rede sobre o seu pai, morto num atropelamento que nunca deixou de parecer suicídio e responsável por algumas das memórias mais fortes e duradouras da narradora.

Fun Home recria a infância de Alison à luz do papel preponderante e opressivo que o seu pai, Bruce Bechdel, assume na família, também integrada pela mãe e pelos irmãos da narradora. À obsessão de Bruce pela casa, pela decoração e pelo funcionamento meticuloso do negócio da família, a casa funerária (fun home) que dá nome ao livro, contrapõe-se uma série de episódios que parecem equilibrar uma certa amargura, revelando pontos de entendimento e cumplicidade com Alison, sobretudo a partir dos livros que ambos lêem. Quando, já na faculdade, Alison decide assumir a sua homossexualidade perante os pais descobre que o seu pai é, também, homossexual, nunca tendo assumido as várias relações que manteve à margem do casamento. Se uma leitura preguiçosa poderia encontrar aqui a explicação para a cumplicidade entre pai e filha e uma espécie de herança que justificaria todas as más memórias, a narrativa de Fun Home encarrega-se de confirmar que a memória não é geométrica e que o exercício de a enfrentar, usando-a como matéria para a ficção que todas as autobiografias supõem, nunca traz respostas unívocas, mesmo que possa dar por resolvidos alguns rancores. Se dúvidas houvesse sobre o peso que a ficção assume neste processo, a composição de algumas vinhetas, nomeadamente as que reproduzem o diário juvenil de Alison com as suas marcas inequívocas de construção de uma verdade (em prejuízo do registo fiel daquilo a que se chama, sem grande firmeza, realidade), seria suficiente para confirmar a construção da memória que Fun Home pressupõe. Quando procura no passado do pai os indícios de tudo o que correu mal na sua vida adulta, Alison parece querer prevenir os seus próprios erros; no entanto, o exercício é mais complexo, ou teria sido dado como concluído no momento em que a narradora sai do armário. O que Fun Home revela em cada detalhe da narrativa, dos mapas que integram algumas pranchas – cruzando a infância de Alison com as topografias de O Vento nos Salgueiros – às constantes remissões para autores que se encarregaram de mostrar o quão escorregadios são os territórios da memória e da identidade (Proust, inevitavelmente), é um movimento ininterrupto entre passado e presente, um desejo de perscrutar a memória para com ela erguer um porto seguro, mesmo (ou sobretudo) quando prefere as impressões e os efeitos colaterais às certezas clínicas dos vários registos que a vida permite guardar.

Agora, é esperar que a Contraponto dê continuidade ao catálogo em territórios afins: Howard Cruise, Seth ou Fabrice Neaud em português seriam óptimas notícias. De preferência sem alterações no original, como acontece com esta edição de Fun Home, que omite a coloração verde da edição original, eliminando a leitura do contraste cromático e da criação de diferentes camadas narrativas.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº117, Out. 2012)

Recortes: Diário Rasgado


Marco Mendes
Diário Rasgado
Mundo Fantasma/ Turbina

Diário Rasgado situa a sua construção no domínio da autobiografia, esse terreno algo instável onde convivem a hipótese de encenação de episódios e experiências oriundas do quotidiano do autor e uma inevitável respiração ficcional. Sobre as fronteiras possíveis entre as duas coisas não cabe aqui falar, ainda que um certo voyeurismo possa desafiar a vontade de o fazer, porque não é esse o espaço que a leitura cria na sua relação com a obra. Mais do que sugerir a especulação sobre a veracidade do que se regista neste Diário, o que a narrativa convoca é a individualidade de um olhar, um modo de ver particular que assenta no registo do quotidiano e na fuga pontual a esse registo a partir de projecções, desejos, deslocações do ritmo imposto pelos episódios curtos e pelas pranchas com pouca cor. Muitos dos episódios aqui reunidos já foram publicados em fanzines, edições de circulação restrita e outros espaços editoriais pouco favoráveis à leitura massificada. A sua reunião em livro permite, agora, que um público mais vasto contacte com o trabalho de um autor contemporâneo essencial no que toca à criação nacional de banda desenhada e ao cruzamento de influências, discursos e percursos narrativos e criativos que marcam essa mesma criação.

O discurso autobiográfico não sobressai tanto pela narrativa sobre si próprio, mas antes pelo olhar desencantado sobre um quotidiano que nunca oferece uma hipótese de se superar, mostrando-se condenado a uma sucessão de pequenos fracassos, perdas irreparáveis e uma inclinação constante para a melancolia. Marco Mendes inventa uma espécie de spleen portuense, muito longe da movida da moda que tantas vezes traz a Invicta para as páginas das revistas e muito mais próximo de um certo modo de olhar o mundo, pouco luminoso e mais povoado de umbrais de portas, bancos de jardim e cigarros partilhados do que de discotecas fulgurantes ou andanças boémias. É aqui que se deslinda a denúncia que o livro acaba por construir, mesmo que nunca recorrendo a um discurso contestatário ou sequer marcadamente político, e que passa pela constatação de que o futuro reservado para o trio que partilha uma casa, e onde se inclui o autor/personagem, é continuar exactamente no mesmo sítio – e esta é a visão optimista, porque a verdade é que tudo pode piorar. Ora, sem que qualquer analogia seja convocada pelo discurso do livro, não é difícil ver em Diário Rasgado o retrato quotidiano de uma certa geração, precária no que toca ao emprego, com poucas hipóteses de estender o consumo a mais do que as despesas fixas e um ou outro vício e sem perspectivas de futuro. Se isto é a autobiografia de um autor, não é difícil que seja também um pouco da auto-ficção que todos vamos construindo diariamente.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº116, Set. 2012)

Bem Dita Crise!

Bem Dita Crise!, de António Jorge Gonçalves, reúne vários dos trabalhos publicados semanalmente no Inimigo Público desde 2003. Com edição da Documenta, o livro será lançado no próximo dia 11 de Outubro, 5ª feira, às 18h30, na Fnac do Chiado (com apresentação de Nuno Artur Silva).

Recortes: O Princípio

Paula Carballeira e Sonjia Danowski
O Princípio
Kalandraka
Tradução de Elisabete Ramos

No campo de concentração de Terezin, à semelhança do que aconteceu em muitos dos campos com que a infâmia nazi assinalou o século XX, um conjunto de desenhos feitos por crianças sobreviveu à matança. O testemunho que esses desenhos prestam confirma uma verdade difícil de assimilar: apesar do horror, a humanidade continua a ser humanidade e isso não só não ameniza o gesto bruto dos verdugos como confirma a dignidade das vítimas. O Princípio não decorre num campo de concentração nem em qualquer cenário com coordenadas suficientes para o situarmos num determinado contexto, mas o âmago da sua narrativa, em cujo arranque se lê “Uma vez houve uma guerra”, permite a convocação de momentos históricos concretos para uma leitura mais transversal. E se aqui nem texto nem imagens são criados por crianças, o universo encenado e o ponto de vista do olhar é o infantil, o que aproxima este discurso, ficcional e construído na relação entre o texto e as ilustrações hiper-realistas, das folhas soltas onde as crianças de Terezin registaram a sua visão da guerra e do holocausto.

A narrativa de O Princípio é simples: depois da guerra, uma família vê-se obrigada a viver no carro, com pouco e com medo. O passar do tempo revela outras famílias em situação semelhante e, por entre os escombros, com histórias que se partilham e com o regresso de gestos tão inatos como o de brincar, a vida recomeça a fazer sentido. A circularidade e a força verbal e pictórica com que as autoras contam esta história não é um tributo aos vendilhões do optimismo e do pensamento positivo, ao contrário do que o seu resumo podia fazer crer. A beleza dos gestos que permitem recomeçar não se regista sem a fragilidade dos medos e sem a constatação da brutalidade que antecede tudo isso, o que faz deste um ‘livro infantil’ atípico, se acreditarmos que os livros têm idade.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no suplemento Actual, Expresso, Jul. 2012)

Mar

A exposição Mar, de André Letria, inaugura na próxima Quinta-Feira no Museu do Mar – D. Carlos I, em Cascais. Depois da exposição, chegará o livro homónimo, com texto de Ricardo Henriques, ilustrações de André Letria e edição da Pato Lógico.

Maria Keil (1914-2012)


Auto-retrato, Maria Keil (1941)

Maria Keil morreu ontem, aos 97 anos. Deixa uma obra tão extensa quanto importante, entre quadros, azulejos e livros, muitos livros.

Diário Rasgado 2007-2012

Amanhã, pelas 17h00, a livraria Mundo Fantasma acolhe o lançamento de Diário Rasgado 2007-2012, de Marco Mendes (edição Turbina Associação Cultural/Mundo Fantasma).

Maurice Sendak (1928-2012)

Foi, sem margem para dúvidas, um dos autores mais canónicos do século XX no que toca à chamada literatura infantil. Em boa verdade, o melhor seria dizer que foi um dos autores mais canónicos do século XX e que escreveu e ilustrou livros para crianças, ou livros que as crianças podem ler, ou livros que são leitura aconselhável para qualquer pessoa, independentemente da idade. Com Where the Wild Things Are, publicado em 1963, lançou o debate sobre o que é leitura apropriada para os mais pequenos, enfurecendo algumas mentes conservadoras que viam a infância como o lugar de todas as purezas morais e não achavam bem que se as confrontasse com os seus medos. Morreu aos 83 anos e as homenagens multiplicam-se por todo o mundo.

No Guardian e no New York Times há dossiers sobre a vida e a obra de Sendak que merecem leitura atenta.

(fotografia de James Keyser/Time & Life Pictures/Getty Images; post em ‘stereo’ com o Cadeirão Voltaire)