Arquivo da Categoria: Banda Desenhada

Recortes: Rugas

Rugas

Paco Roca
Rugas
Bertrand Editora
Tradução de Joana Neves

Ao contrário de Cícero

As primeiras pranchas de Rugas podiam ser a resposta contemporânea às ideias optimistas de Catão no livro que Cícero dedicou à velhice. O contraste entre o que Emílio, personagem principal desta narrativa, pensa estar a viver e aquilo que realmente vive inaugura um espaço de fragilidade que em nada se parece com a visão iluminada de Catão quando opõe à degradação física e à perda de força as inúmeras maravilhas da sapiência de experiência feita. Emílio está velho e o seu problema maior não é o corpo em degradação, é a cabeça confusa, o não saber onde está, o duvidar sobre quem é ele e os que o rodeiam. E os que o rodeiam já não são a sua família mais próxima, mas antes os habitantes de um lar, a casa onde os Emílios de várias famílias foram colocados para viverem os seus dias de confusão e dependência entregues aos cuidados de enfermeiros e outros especialistas na chamada terceira idade.

O percurso de Emílio nesta narrativa gráfica faz-se através do registo quotidiano da sua passagem pelo lar, mas igualmente pelas analepses que convocam memórias e onde a linguagem verbal-visual permite confrontar as feições de ambos os tempos, fazendo da personagem e dos seus medos um campo de batalha emocional onde é fácil reconhecermo-nos. Roca socorre-se de outros recursos gráficos para dar a ler a progressiva perda de memória de Emílio, usando os rostos desenhados sem fisionomia e as vinhetas em branco para ilustrar os passos desse processo. Quando os espaços por preencher ocupam a totalidade da prancha, o branco torna-se suficientemente eloquente e a ausência de signos na página assume-se como a única gramática possível para descrever a frágil teia de incompreensões em que se transformou a mente de Emílio. As cenas onde surgem personagens fisicamente incapacitadas, gente que precisa de ajuda para comer, para ir à casa de banho, ou para saber onde está serão as mais imediatamente reconhecíveis nesta história pouco luminosa, e talvez as que maior impacto causem numa primeira leitura, mas ainda assim não se afastam de uma certa constatação sobre o progresso natural e inevitável de um corpo, devedor da biologia e não apenas das ideias ou da moral. Onde Rugas verdadeiramente se confirma como um livro comovente (não pela lágrima fácil, mas antes pelo entendimento etimológico do termo, no sentido de abalar fortemente) é nesse espaço progressivamente em branco onde nada pode dar crédito as boas ideias de Catão sobre a velhice e onde tudo assegura um vazio, democrático e cruel, ao qual parecemos estar destinados.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, Maio 2013)

IX Festival Internacional de BD de Beja

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O IX Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja abre as portas amanhã. Programa completo e todas as informações aqui.

Às Quintas Falamos de BD

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O Centro Nacional de BD e Imagem, na Amadora, convida:

 É já amanhã, dia 30 de Maio, pelas 21h00, o encontro Ler BD é Saber Mais no âmbito da iniciativa Às Quintas Falamos de BD.

 O estudioso de BD, João Paiva Boléo dá a palavra a Amadeu José Ferreira, Guilherme d’Oliveira Martins e Ruben de Carvalho, figuras relevantes da nossa sociedade que são leitoras e apreciadoras de histórias aos quadradinhos e, sem qualquer inibição, partilham esse gosto, publicamente, para nos falarem do papel que esta expressão literária e artística teve na sua formação cultural.

Prémios Profissionais de BD

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Amanhã, pelas 17h30, na Torre do Tombo, decorre a cerimónia de entrega dos Prémios Profissionais de BD.

Prémios Profissionais de BD

Uma das novidades do AniComics foi o lançamento da primeira edição dos Prémios Profissionais de BD, que a organização apresenta do seguinte modo:

Imaginados e organizados por figuras ligadas à Banda Desenhada e ao jornalismo – André Oliveira (Zona), Inês Fonseca Santos (Câmara Clara), Maria José Pereira (Asa), Mário Freitas (Kingpin Books) e Nuno Amado (Leituras de BD) -, os novos PRÉMIOS PROFISSIONAIS DE BD são uma iniciativa que se pretende abrangente e dinamizadora e que não se esgote nos próprios Prémios, antes sendo uma montra e um motor permanente do que de melhor se faz da BD em Portugal.

Os PRÉMIOS PROFISSIONAIS DE BD distinguem-se por serem organizados por profissionais maioritariamente ligados à Banda Desenhada e envolvem o convite anual a um Grande Júri composto por 25 personalidades igualmente ligadas à BD, entre autores, jornalistas, divulgadores e investigadores.

Os nomeados escolhidos pelo júri foram os seguintes (no dia 24 deste mês serão anunciados os vencedores):

Álbum do Ano
O Baile, de Nuno Duarte e Joana Afonso (Kingpin Books);
Diário Rasgado, de Marco Mendes (Mundo Fantasma);
Hän Solo, de Rui Lacas (Polvo);
Sangue Violeta e Outros Contos, de Fernando Relvas (El Pep).

Argumentista do Ano
Nuno Duarte (O Baile);
Marco Mendes (Diário Rasgado);
Rui Lacas (Hän Solo &Asteroid Fighters 2  Os Oráculos);
Miguel Peres (Cinzas da Revolta).

Desenhador do Ano
Joana Afonso (O Baile);
Marco Mendes (Diário Rasgado);
Rui Lacas (Hän Solo & Asteroid Fighters 2 — Os Oráculos);
Afonso Ferreira (Love Hole).

Colorista do Ano
Joana Afonso (O Baile);
Rui Lacas (Hän Solo e Asteroid Fighters 2 – Os Oráculos);
Artur Correia (O País dos Cágados);
João Amaral (Cinzas da Revolta).

Legendador do Ano
Mário Freitas (O Baile);
Marco Mendes (Diário Rasgado);
Rui Lacas (Asteroid Fighters 2 — Os Oráculos);
Rui Lacas e Hugo Jesus (Hän Solo).

Designer de Publicação do Ano
Mário Freitas (O Baile);
Marco Mendes (Diário Rasgado);
Rui Lacas (Hän Solo);
Joana Pires (Mesinha de Cabeceira #23).

Antologia do Ano
Zona Desenha (Associação Tentáculo);
Graphite #O (GBS Edições);
Mesinha de Cabeceira #23 (Chili com Carne);
Zona Nippon 1 (Associação Tentáculo).

Webcomic do Ano
Margem Sul (Pedro Brito);
The Mighty Enlil (Pedro Cruz);
Os Positivos (Os Positivos);
Story of Godz (Pedro Fernandes, Gevan e Luís Valente — Yucca Studios).

Anicomics 2013

Anicomics2013

Fim de semana de Anicomics em Lisboa, na Biblioteca municipal Orlando Ribeiro. Programa aqui.

Recortes: Mesinha de Cabeceira #23

MdC23
VVAA
Inverno
Chili Com Carne

Experiências e Abanões

O volume em formato de bolso, com a lombada a deixar as entranhas da encadernação à mostra, não parece enquadrar-se no universo fanzinesco, mas este Inverno é mesmo o número 23 do Mesinha de Cabeceira (MdC), fanzine já mítico editado pela Chili Com Carne que cumpriu recentemente duas décadas de vida.

Na introdução, o editor Marcos Farrajota fala dos vinte anos da publicação com o à vontade vernacular que o caracteriza e explica que o primeiro MdC nasceu da necessidade: não havendo publicações dispostas a acolher a sua produção, a de Pedro Brito (o outro editor do fanzine, nos primeiros anos) e a de vários autores que começavam a experimentar os terrenos da banda desenhada, criaram uma que o fizesse e ainda experimentaram a satisfação da vingança. O que talvez não tenham imaginado foi o potencial que se guardava naquelas primeiras páginas, em 1992, e que haveria de desenvolver-se numa teia de colaborações, experimentalismos, abanões estéticos e narrativos de toda a espécie e a capacidade de manter uma publicação arejada e vibrante ao longo de tanto tempo. De tal modo que quem queira, hoje, conhecer o que se faz no campo da banda desenhada de autor e com poucas preocupações comerciais pode continuar a usar o MdC, e concretamente este número 23, como guia fiável.

A lista de autores inclui vários suspeitos do costume, presenças habituais neste universo editorial que aqui confirmam a evolução natural que duas décadas de persistência e talento permitem (casos de João Fazenda, João Chambel, Filipe Abranches ou Bruno Borges), e algumas colaborações novas, como Sílvia Rodrigues, Uganda Lebre ou Lucas Almeida, entre muitos outros. Desta colecção de nomes e trabalhos resulta um gesto que mantém em forma elevada aquilo que a Chili sempre conseguiu produzir nas suas antologias de maior dimensão: uma babel de traços e estilos numa estranha e inquietante harmonia, o que dá ao volume uma coerência que não pode ter sido planeada mas que é o melhor exemplo dos motivos que mantêm estas pessoas a trabalhar juntas há tanto tempo. E se a coerência do conjunto não nasce do traço ou do estilo, é provável que se deva aos temas, uma radiografia nítida daquilo a que chamamos ar do tempo, com o tom apocalíptico, o peso do desperdício, a contaminação (real, nos montes de lixo que excedem da indústria de consumo e ocupam os campos, e visual, nas manchas que parecem alastrar como fungos) e uma certa ideia de no future que deve muito ao punk, mas deve ainda mais aos dias que vivemos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, Março 2013)

Recortes: Comprimidos Azuis, de Frederik Peeters

ComprimidosAzuis
Frederik Peeters
Comprimidos Azuis
Devir/Biblioteca de Alice

 

A AMEAÇA DA INTIMIDADE

Mais de uma década depois da sua publicação original, o livro que catapultou o suíço Frederik Peeters para o circuito da chamada banda desenhada de autor chega às livrarias portuguesas, reforçando a presença paulatina de obras de referência de grandes autores mundiais nos nossos escaparates. Inserido na cada vez mais falada linha autobiográfica, Comprimidos Azuis conta a história de como Peeters conheceu a sua namorada, Cati, iniciando uma relação que rapidamente se veria abalada pela presença do vírus do HIV. Cati é seropositiva, assim como o seu filho pequeno, e o modo como o vírus se insinua nos campos mais óbvios ou nos mais inesperados da relação a dois, inicialmente, e depois a três, já que o filho de Cati acabará por se integrar nesta nova família, ocupa parte considerável desta narrativa.

Quando colocado ao lado de obras com uma linhagem comum – e aqui falaríamos de autores que exploram a autobiografia enquanto matéria ficcional, mas mantendo com os factos uma proximidade mais forte do que a vontade de os extravasar em direcção a experimentalismos ou relações menos óbvias entre ficção e verosimilhança, como Craig Thompson ou Miguel Gallardo – um dos aspectos mas interessantes de Comprimidos Azuis é o uso que Peeters faz dos planos em close-up e dos contra-picados, quase forçando ângulos imprevisíveis num gesto que obriga o leitor a alterar a sua percepção formatada. De certo modo, é uma alteração que não se cinge aos cenários e aos objectos, espalhando o seu efeito pela percepção do que pode ser viver com o vírus da sida. Por outro lado, o uso de uma figuração que recorre a elementos inverosímeis nos contextos apresentados (o rinoceronte que passa a perseguir Peeters quando este teme ter sido contagiado com o vírus, o mamute que surge no fim, forçando uma reflexão) é uma estratégia eficaz e surpreendente para fugir a um realismo que, isoladamente, poderia ser desastroso para uma narrativa com estas características. Peeters nunca cede ao didactismo, tentador num livro que aborda a temática da sida, e nem sequer faz desta uma história sobre a doença, deslocando o seu eixo para o tema da intimidade. Que essa intimidade seja moldada por um vírus é um aspecto que particulariza Comprimidos Azuis, sem dúvida, mas os abismos emocionais são património da humanidade e, como bem lembra o mamute que cita Epicteto e que surge no final da narrativa para recentrar Peeters no que realmente importa, “contenta-te apenas em apreciar a tempo as coisas que têm um fim…”. Todas, portanto.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº121, Fev. 2013)

Recortes: Dois livros de Cyril Pedrosa

ESCAVAR RAÍZES

A empatia fará com que se veja Portugal (Asa) como um livro sobre o regresso às origens, e de certa forma é disso que se trata, ainda que o peso dessas origens não passe tanto pela nacionalidade, e sim pela família enquanto elemento fulcral para a definição de uma identidade. Simon Muchat, o narrador cujas semelhanças biográficas com Cyril Pedrosa permitem o abuso de o ler como alter-ego, é um jovem francês descendente de portugueses e o início da história encontra-o perdido entre uma relação amorosa condenada e a indefinição sobre o que fazer da vida. Essa terra de ninguém emocional leva-o a uma aproximação à família, em França, e é no convívio com os outros que começa a ganhar forma um olhar menos centrado no seu umbigo e a consequente vontade de perceber as histórias alheias. Nesse vórtice identitário, surge a vontade de conhecer Portugal, terra dos avós, e a viagem que acaba por transformar-se em estada prolongada será a matéria com que Simon moldará um novo olhar sobre si e os outros. O traço, equilibrando a definição pormenorizada e o registo de esboço, trabalha com dedicação as cores aguareladas, definindo predominâncias de um tons em função do episódio narrativo.

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Editado quase ao mesmo tempo que Portugal, o livro Três Sombras (Polvo) é anterior, tendo sido publicado em França em 2007. A preto e branco, o traço deixa reconhecer marcas que Pedrosa tem mantido, sobretudo ao nível dos apontamentos gráficos (nuvens, vestígios de movimento, etc), mas a modelação de personagens e cenários é menos sinuosa e mais arredondada, em consonância com o tom feérico da narrativa. A vida de uma família de camponeses é abalada por um oráculo que dita a morte do filho do casal, e esse é o ponto de partida para a fuga atribulada que pai e filho empreenderão, tentando contrariar o destino. Na sua aparente simplicidade, Três Sombras é uma narrativa densa, carregada de simbolismo e de referências arquetípicas onde não faltam as parcas, mas é sobretudo uma reflexão sobre o destino, a morte e o modo como os seres humanos sempre oscilaram entre a consciência da sua finitude e a vontade de lutar contra os ‘deuses’ para a impedir.

As diferenças entre os dois livros são notórias, no tipo de narrativa e no modo de a configurar gráfica e plasticamente, mas une-os um trabalho de introspecção sobre as pequenas tragédias individuais enquanto característica definidora do colectivo a que chamamos humanidade. E desse ponto de vista, os dois livros confirmam Pedrosa como um autor que importa acompanhar.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº120, Jan.2013)

Três exposições

Todas recomendáveis, todas fora de Lisboa.

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Madalena Matoso, na Gigões e Anantes (Aveiro).

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Tiago Manuel, na Mundo Fantasma (Porto).

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Marco Mendes, no Colégio das Artes (Coimbra).

Crónicas de Arquitectura

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Crónicas de Arquitectura, exposição de banda desenhada de Pedro Burgos para ver na Mundo Fantasma, entre 9 de Março e 11 de Abril.

VSAdH/EdWB/IpAN (uDdPL)


Na próxima sexta-feira, dia 8, pelas 19h00, a Nouvelle Librairie Française e a Associação Chili Com Carne apresentam a exposição a partir do livro Variações Sobre o Anjo da História/Ensaio de Walter Benjamin/Inspirado por “Angelus Novus” (um Desenho de Paul Klee), de Ilan Manouach e Pedro Moura,
uma co-edição bilingue (português e francês) La Cinquième Couche e Montesinos.

A exposição poderá ser vista até ao dia 8 de Março no espaço da Nouvelle Librairie Française, em Lisboa.

Angoulême 2013

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A 40ª edição do Festival de Angoulême começa hoje. Quem não pôde ir até França, pode acompanhar tudo aqui.

O Hábito Faz o Monstro, o livro

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No próximo dia 2 de Fevereiro, na SMUP (Parede), lança-se o livro O Hábito Faz o Monstro, de Lucas Almeida, numa edição antológica da Chili Com Carne.

Blimunda #8, BD e Reportagem

Blimunda8

O número 8 da revista Blimunda, da Fundação José Saramago, já está disponível para leitura. O tema de capa: Meios Cruzados – Banda Desenhada e Reportagem. A descarga é gratuita e pode ser feita aqui.

Recortes: Um balanço de 2012

O texto que saiu no Expresso (Actual), com o meu balanço de 2012 no capítulo da banda desenhada e da ilustração, era um pouco mais pequeno, mas publico aqui a versão sem limite de caracteres, bem como a lista dos dez livros que escolhi de entre os que foram publicados em Portugal no ano que passou:

Marco Mendes, Diário Rasgado, Mundo Fantasma/Turbina
Carlos Pinheiro e Nuno Sousa, Sobrevida, Imprensa Canalha
Marjane Satrapi, Persépolis, Contraponto
Paula Carballeira e Sonjia Danowski, O Princípio,Kalandraka
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, Ir e Vir, Planeta Tangerina
Anouck Boisrobert, Louis Rigaud e Sophie Strady, Na floresta da preguiça, Bruaá
Tatiana Salem Levy e Vera Tavares, Curupira Pirapora, Tinta da China
Ciryl Pedrosa, Portugal, Asa
Alison Bechdel, Fun Home, Contraponto
Benjamin Chaud, A Cantiga do Urso, Orfeu Negro

Só o futuro o dirá, e terá de o dizer contra a crise que tudo ameaça, mas este poderá ter sido o ano em que a banda desenhada voltou a ser publicada a pensar em leitores adultos e exigentes, e não exclusivamente em coleccionadores ou ‘bedéfilos’. Persépolis, a obra mais reconhecida de Marjane Satrapi, e Fun Home, de Alison Bechdel, saíram na Contraponto, uma chancela algo inesperada para o germinar de um catálogo que, a seguir esta linha, tem tudo para ser extraordinário. O volumoso Blankets, de Craig Thompson, chegou finalmente ao mercado português (com chancela Devir), ainda que envolto em encómios que dizem mais sobre algum desconhecimento do panorama da bd mundial do que sobre o próprio livro – um marco importante, sim, mas não propriamente uma obra-prima. A Asa apostou em Portugal, de Cyril Pedrosa, e marcou o ano com essa aposta.
A edição de pequena escala, entre aquilo a que chamam alternativos e projectos que não têm maior expressão comercial porque a dimensão do mercado não o permite, confirmou o seu papel. Marco Mendes publicou um livro essencial, a Polvo editou livros de Rui Lacas e Cyril Pedrosa (de certo modo, replicando os autores da Asa com livros menos destinados ao sucesso comercial, mas nem por isso menos pertinentes), a Imprensa Canalha voltou a apresentar uma selecção de luxo e vários projectos, quase todos fora do alcance do radar comercial e crítico, deixaram marcas duradouras neste ano que agora finda.

No capítulo dos álbuns e da ilustração, o ano voltou a ser memorável, facto que nada deve à quantidade de livros publicados num sector que terá menos motivos para se ressentir da crise do que outros, mas antes à construção criteriosa dos catálogos de algumas editoras, entre projectos muito recentes e outros já firmados. Para além das escolhas da lista, é importante registar o trabalho de editoras como a Bags of Books e a Tcharan, recentes, a Caminho e a Livros Horizonte, que permanece como referências imprescindíveis, a Pato Lógico, dividida entre o impresso e o digital, e a Boca, com o texto e a imagem a apoiarem audiolivros de excelência.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Expresso, suplemento Actual, Dezembro 2012)

Recortes: Fun Home

Alison Bechdel
Fun Home – uma tragicomédia familiar
Contraponto
Tradução de Duarte Sousa Tavares

Depois de Persépolis, de Marjane Satrapi, a Contraponto regressa ao filão da chamada banda desenhada autobiográfica com Alison Bechdel e um livro que, em 2006, marcou o ano editorial norte-americano. Etiquetas pré-definidas à parte, Fun Home não é a história da vida de Alison, pelo menos no sentido arrumado e completo com que se imagina poder narrar uma vida, mas antes uma reflexão dolorosa e sem rede sobre o seu pai, morto num atropelamento que nunca deixou de parecer suicídio e responsável por algumas das memórias mais fortes e duradouras da narradora.

Fun Home recria a infância de Alison à luz do papel preponderante e opressivo que o seu pai, Bruce Bechdel, assume na família, também integrada pela mãe e pelos irmãos da narradora. À obsessão de Bruce pela casa, pela decoração e pelo funcionamento meticuloso do negócio da família, a casa funerária (fun home) que dá nome ao livro, contrapõe-se uma série de episódios que parecem equilibrar uma certa amargura, revelando pontos de entendimento e cumplicidade com Alison, sobretudo a partir dos livros que ambos lêem. Quando, já na faculdade, Alison decide assumir a sua homossexualidade perante os pais descobre que o seu pai é, também, homossexual, nunca tendo assumido as várias relações que manteve à margem do casamento. Se uma leitura preguiçosa poderia encontrar aqui a explicação para a cumplicidade entre pai e filha e uma espécie de herança que justificaria todas as más memórias, a narrativa de Fun Home encarrega-se de confirmar que a memória não é geométrica e que o exercício de a enfrentar, usando-a como matéria para a ficção que todas as autobiografias supõem, nunca traz respostas unívocas, mesmo que possa dar por resolvidos alguns rancores. Se dúvidas houvesse sobre o peso que a ficção assume neste processo, a composição de algumas vinhetas, nomeadamente as que reproduzem o diário juvenil de Alison com as suas marcas inequívocas de construção de uma verdade (em prejuízo do registo fiel daquilo a que se chama, sem grande firmeza, realidade), seria suficiente para confirmar a construção da memória que Fun Home pressupõe. Quando procura no passado do pai os indícios de tudo o que correu mal na sua vida adulta, Alison parece querer prevenir os seus próprios erros; no entanto, o exercício é mais complexo, ou teria sido dado como concluído no momento em que a narradora sai do armário. O que Fun Home revela em cada detalhe da narrativa, dos mapas que integram algumas pranchas – cruzando a infância de Alison com as topografias de O Vento nos Salgueiros – às constantes remissões para autores que se encarregaram de mostrar o quão escorregadios são os territórios da memória e da identidade (Proust, inevitavelmente), é um movimento ininterrupto entre passado e presente, um desejo de perscrutar a memória para com ela erguer um porto seguro, mesmo (ou sobretudo) quando prefere as impressões e os efeitos colaterais às certezas clínicas dos vários registos que a vida permite guardar.

Agora, é esperar que a Contraponto dê continuidade ao catálogo em territórios afins: Howard Cruise, Seth ou Fabrice Neaud em português seriam óptimas notícias. De preferência sem alterações no original, como acontece com esta edição de Fun Home, que omite a coloração verde da edição original, eliminando a leitura do contraste cromático e da criação de diferentes camadas narrativas.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, nº117, Out. 2012)

Prémios Nacionais de Banda Desenhada

Os Prémios Nacionais de Banda Desenhada, atribuídos no âmbito do Amadora BD, foram entregues ontem à noite. Aqui fica a lista dos premiados.

BD PORTUGUESA -MELHOR DESENHO
Pontas Soltas – Cidades – Ricardo Cabral – ASA

BD PORTUGUESA – MELHOR ARGUMENTO
O Pequeno Deus Cego– David Soares – Kingpin BooksMELHOR ÁLBUM DE AUTOR ESTRANGEIRO
Blankets – Craig Thompson – DevirMELHOR ÁLBUM DE TIRAS HUMORÍSTICAS
Os Nossos Mutts – Patrick McDonnell – Devir

MELHOR ILUSTRAÇÃO PARA LIVRO INFANTIL
Madalena Matoso – Todos Fazemos Tudo – Planeta Tangerina

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE
Sangue Violeta e outros contos – Fernando Relvas – El Pep

MELHOR FANZINE
Fábrica, Baldios, Fé e Pedras atiradas à lama – Tiago Baptista (coord) – Oficina do Cego e associação a9)))) (editores)

PRÉMIO JUVENTUDE
Pontas Soltas – Cidades – Ricardo Cabral – ASA

Super Pecha Kucha Night Lisbon

Logo à noite, o Pecha Kucha dedica uma sessão à banda desenhada, à ilustração, ao cartoon e à animação. Começa às 19h00, no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Amadora BD 2012

Abre hoje as portas. Programa e todas as informações aqui.