Antes de mergulhar no ‘No Future’ que este volume apregoa, importa alinhá-lo na sua própria herança. As antologias de banda desenhada da Chili Com Carne começaram com o portento que é Mutate & Survive, em 2001, e prosseguiram com Massive (2009) e Crack On! (2009, em parceria com a Forte Pressa e o Festival Crack!), sempre numa linha editorial que foge do consenso do nosso pequeno mercado de bd e se dirige, sem inseguranças, para a procura de experimentações mais radicais, abordagens multidisciplinares e construções que não têm como comparar-se, para o bem ou para o mal, com aquilo que se vai editando entre a linha franco-belga e os comics norte-americanos (agora também com uma aproximação à mangá mais comercial).
Em Destruição, o repto da editora foi claro: procuravam-se trabalhos de autores com pouca ou nenhuma experiência de publicação, em torno da ideia apocalíptica e desesperançada do início dos anos dois mil. Responderam dezassete, nascidos entre 1978 e 1990, oriundos dos fanzines de pequena circulação e de projectos pouco conhecidos, o que resultou num volume que é, também, uma radiografia à novíssima banda desenhada de autor. Digamos, para situar os incautos, que se este fosse um volume de poesia, continuaria a vender pouco, mas teria honras de aparição nos suplementos culturais numa tentativa de aferir os mais recentes rasgos da criatividade nacional. Sendo banda desenhada, não chegará a tanto, mas quem quiser fazer o exercício por si não sairá defraudado.
Reflexões sobre o presente, entre o poder dos media e o entretenimento como realidade, delírios político-futuristas envolvendo o Papa e nazis tresloucados, instantâneos do quotidiano ou distopias marcadas por pestes e pragas de vária ordem, as narrativas desta Destruição oscilam entre a estética mais crua do fanzine despreocupado e a procura de um rigor (da mise en pâge à estrutura narrativa, passando pelo traço e pela composição) que equipara este volume ao que de mais interessante se vai produzindo pelo mundo no que à bd diz respeito. Entre as influências mais óbvias (Charles Burns ou Mike Diana) e a definição de caminhos seguros, esta antologia podia ser uma mensagem contra a esperança no futuro – e queria sê-lo, cumprindo a herança punk e fanzinesca onde se inscreve – mas acaba por ser uma bolsa de oxigénio na modorra de um mercado que arrisca pouco, ganhando menos.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, nº101, Abril 2011)









