Arquivos Mensais: Dezembro 2009

O Advento

Para todos os leitores do Beco das Imagens, os nossos votos de um feliz Natal, ou de uma feliz comemoração do solstício (fica ao vosso critério).

Tommi Musturi, Caminhando com Samuel, Mmmnnnrrrg

Apesar da boa recepção do último Salão Lisboa, em 2005, que teve a Finlândia como país convidado, poucos foram os nomes do programa que transitaram da exposição para a edição, e esses poucos chegaram unicamente às páginas de curta tiragem de revistas e fanzines. Quatro anos depois, cabe à Mmmnnnrrrg a publicação de uma obra de Tommi Musturi, um dos nomes de primeira água da banda desenhada finlandesa contemporânea, convidado do Salão Lisboa e um dos participantes da recente exposição Glompx, que passou pela Bedeteca de Lisboa.

Caminhando Com Samuel estrutura-se como a narrativa de um milagre, mas um milagre onde a hipotética intervenção divina perde importância perante a incomensurável experiência do indivíduo. Onde o Génesis descreve os seis dias atarefados de Deus criando o mundo, Musturi prefere a explosão de um big-bang, e em vez de seres a caminho da condição humana através da aquisição da consciência, Samuel surge descontraidamente por entre as árvores, com um cigarro na boca e sem vestígios de culpa ou frutos proibidos. As diferenças assumem o ponto de vista individualista de Samuel, sem no entanto apagarem as reminiscências genesíacas, confirmando este livro como uma visão da criação do mundo, um roadbook cosmogónico onde o olhar da descoberta primordial se mantém até ao fim. Mas onde as cosmogonias (entre elas o Génesis) encenam a criação num tempo recuado e definitivamente perdido, Samuel parece assumir uma condição atemporal, um estado de permanência que o faz atravessar eras, estados de alma e espaços com o mesmo deslumbramento e a mesma disponibilidade para o mundo que trazia no início, quando surgiu por entre a vegetação.

Sem texto ou qualquer elemento verbal, o trabalho narrativo de Musturi assenta na utilização da cor, diferenciando e fazendo progredir espaços e emoções, e na linguagem corporal da personagem de Samuel, singela na sua estrutura, mas capaz de uma expressão sem limites, sobretudo na interacção com a composição das pranchas, estruturadas com base em linhas que, apesar da sua fluidez, deixam perceber as relações matemáticas que lhes servem de base. O modo de Samuel olhar o mundo sem o peso da História prevê o acaso como uma possibilidade, tão colocada em dúvida pela meticulosa geometria dos elementos como confirmada pela sua própria errância sem sentido. Aqui, não há respostas, só deslumbramentos.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Expresso, suplemento Actual, 12 Nov. 09)

Feira Laica

No próximo fim de semana, a Feira Laica aterra na Fábrica do Braço de Prata.

Sáb. (19) das 18h às 24h – Dom. (20) das 15h às 21h

Editoras já confirmadas:
Arga Waga, Averno, Associação Chili Com Carne, Blam Blam, Drome: Videozine, El Pep, discos F. Leote com Skinpin, FlorCaveira, Hülülülü, Imprensa Canalha, lvcenti 14-bis, Mike Goes West, MMMNNNRRRG, Mula Alada com a Cooperativa Artística Obtusa, Oficina do Cego, Opuntia Books, Os Gajos da Mula,
revista Samba (do Brasil, com a presença de Gabriel Mesquita), Thisco e zine Znok. Editoras a confirmar: Bedeteca de Lisboa, Chaosphere com Raging Planet e Planeta Tangerina.

Novidades editoriais:
Antibothis, vol. 3 (Chili Com Carne + Thisco), Satanic Hollidays, de José Cardoso (Imprensa Canalha);
v/a, Sacudiram-nos Bem Forte Lá No Campo De Batalha (Ateliers de Santa Justa/ Mike Goes West); v/a, Seitan Seitan Scum (Chili Com Carne + El Pep) e Znok #4, Filipe Duarte; v/a, Canções Usadas (edição Oficina do Cego).

Posta Restante

Amanhã, pelas 16h, a Casa-Museu Manuel Teixeira Gomes (em Portimão) inaugura a exposição Posta Restante – As viagens do Escritor Presidente. À mesma hora, serão lançados dois álbuns de banda desenhada sobre Portimão: A Noiva Que o Rio Disputa no Mar, de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha, e Portimão : Como Se Faz uma Cidade, com participações de Alex Gozblau, Daniel Lima, Filipe Abranches, Jorge Mateus, Pedro Brito, Ricardo Cabral, Susa Monteiro e Zé Manel.

Falsos Amigos

A partir das armadilhas linguísticas dos ‘falsos amigos’, Richard Câmara fez esta serigrafia, no atelier de Pepe Herrera. Só há 25 edições e quem quiser, pode comprar uma (mais informações no blog do autor).

(SFC)

Visita do Dia

 

This is my crayon dream

Sacudiram-Nos Bem Forte Lá No Campo De Batalha

A exposição colectiva de desenho e o projecto de edição Sacudiram-nos Bem Forte Lá no Campo de Batalha abrem hoje as portas, na Fábrica do Braço de Prata. Mais informações aqui.

Recortes: Ricardo Cabral, Israel Sketchbook, Ed. Asa

VIAGEM EM CONSTRUÇÃO

Depois de Everest, a banda desenhada que narrava a expedição do alpinista João Garcia ao topo dos Himalaias, Ricardo Cabral assina agora um livro de viagens onde as imagens, na sua aparência de simples registos de passagem, se revelam matéria primordial para uma narrativa.

O título aponta uma direcção que não deve ser assumida na sua acepção mais imediata. Um sketchbook costuma reunir desenhos não necessariamente terminados, esboços que resultam da observação de algo (por vezes associado a uma viagem) e que tendem a permanecer como apontamentos, sem que a publicação (também no sentido de ‘tornar público’) seja o seu objectivo primeiro. Mas se Israel Sketchbook começou por ser uma série de desenhos feitos in loco por Ricardo Cabral, a sua passagem a livro fez-se acompanhar da construção de uma história, transformando o gesto inicial de registar imagens e ambientes numa narrativa, perfeitamente enquadrável no território da banda desenhada, não apenas porque os seus desenhos compõem uma sequência, mas igualmente porque essa sequência se estrutura a partir da relação intrínseca entre texto e imagem.

Partindo de Telavive, o narrador vai registando os cenários onde passa algum tempo, as pessoas que com ele se cruzam e os episódios em que se vê envolvido: praças, sinagogas, casas de amigos ou restaurantes de fast-food, mas também cenários mais intimidatórios, como a Faixa de Gaza ou os postos de controlo. Sem roteiro prévio, visita outras cidades, sozinho ou acompanhado por M., a rapariga que entretanto conhece em Safed, e as impressões da viagem vão construindo um percurso à medida que este se desenvolve, uma simultaneidade que faz da própria narrativa um itinerário, com as etapas definidas por separadores que começam como um esboço e terminam coloridos e com todos os pormenores assinalados, inclusive os cartográficos, que se vão revelando à medida que a viagem avança.

Os desenhos, traçados a preto e branco durante a viagem e posteriormente coloridos, por vezes com recurso a fotografias (informação dada na introdução), ocupam sempre duas páginas, configurando pranchas sumptuosas, onde a riqueza do pormenor, a definição das tonalidades dentro de um espectro reduzido de cores e os jogos de luz confirmam aquilo que Everest já tinha esboçado, mas agora de um modo mais livre relativamente ao processo de construção narrativa. Longe de condicionalismos de forma ou de estruturação, Israel Sketchbook contém todas as qualidades que fazem de uma viagem um livro memorável.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, nº85, Nov. 09)

Nota: na Ler deste mês escrevo sobre Mucha, de David Soares, Osvaldo Medina e Mário Freitas (Kingpin Books)

Paulo Patrício na Dama Aflita

A exposição Périplo, de Paulo Patrício, inaugura amanhã na galeria Dama Aflita (no Porto).

Ilustrarte 09

Os artistas seleccionados para a próxima bienal de ilustração para a infância – Ilustrarte – foram hoje apresentados no Museu da Electricidade, espaço que acolherá a exposição, entre Fevereiro e Março do próximo ano. De entre os mais de mil e trezentos concorrentes, o júri escolheu a ilustradora belga/flamenga Isabelle Vandenabeele como vencedora da bienal, e os ilustradores Isidro Ferrer (Catalunha), Alessandro Lecis e Alessandra Panzeri (dupla italiana) e  Martin Jarre (França) como menções honrosas.

No Museu da Electricidade, para além dos quatro trabalhos distinguidos, puderam ainda ver-se os trabalhos dos restantes artistas seleccionados, bem como as centenas de pastas contendo a produção dos concorrentes que ficaram de fora, confirmando a dificuldade que terá sido chegar aos cinquenta escolhidos.

Nas imagens, capa da edição francesa e uma das xilogravuras do livro Voorspel Van Een Gebroken Liefde (qualquer coisa como Prelúdio Para um Amor Partido), com ilustração de  Isabelle Vandenabeele (os originais que venceram o concurso pertencem a este livro, infelizmente inédito em português).

(SFC)